“Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.”
Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.
Na realidade, não tinha o menor interesse em escrever sobre aquilo. Seu desejo era expressar algo profundo sobre um amor fracassado, mas não encontrava inspiração na própria tristeza – justamente esta que costumava movê-lo tão bem. Depois de horas olhando para a tela branca do Word enquanto via seu impulso de escritor morrer na imobilidade de seus dedos sobre o teclado, lembrou-se do conselho de um velho mestre: “Se incapaz de escrever, escreva sobre isso”.
Porém, discutir o bloqueio era recurso velho e clichê. Melhor seria compor sobre o processo de compor. Igualmente clichê, claro, mas talvez menos óbvio.
Bebeu mais um pouco do vinho, apertou o play do iPod e fechou os olhos. Álcool e músicas melancólicas. Se isso não disparasse as palavras, poderia perder as esperanças.
- A tristeza é a arma secreta de todo escritor. – costumava dizer para seus alunos. E era verdade. Claro que eles não podiam imaginar que aquele sentimento era a configuração de fábrica da alma do professor e que, às vezes, o excesso acabava por anestesiá-lo até mesmo para a própria melancolia, mas ao menos ele sabia que do desespero acabaria por desenterrar alguma verdade. E alguns parágrafos. Não necessariamente ao mesmo tempo, mas nada era perfeito.
Ótimo. Agora estava publicando sua depressão para o mundo. Perfeito. Terapia em público era o que faltava.
“Ótimo. Agora estava publicando sua depressão para o mundo. Perfeito. Terapia em público era o que faltava.
Hesitou antes de incluir o lamento, mas permitiu-se a confissão. No máximo, julgariam tratar-se de excesso artístico. Não poderiam imaginar o abismo que o envolvia. Já confessara ter lidado com a depressão e a superado – o que era verdade. O que não sabiam (e o que apenas vítimas da doença poderiam saber) é que esta era persistente e não desistia facilmente daqueles que abraçava. Quando menos se esperava, ela retornava com intensidade insuspeita, plantando sementes autodestrutivas na mente do velho companheiro.”
Hum. Dramático demais. E não totalmente verdadeiro. A depressão estava sob controle há anos. 10 mg de paroxetina diários chegavam a ser patéticos, quase um placebo. Estaria ele exagerando para atrair a simpatia e a compaixão da amada?
“Sem perceber, retornara ao objetivo inicial do texto e escrevia sobre ela. Ela que o compreendia, que o queria, que o amava. Que insistia em vê-lo e amá-lo. Que o abandonara. Que talvez ainda o desejasse? Apesar da distância? Seria possível?”
Ele sabia que não.
Sabia?
“Agora escrevia para si mesmo. E para ela. Sim, ela se reconheceria naquelas palavras. E talvez até enviasse uma mensagem pelo telefone dizendo ‘Sim, me vi ali. Sim, penso em você. Sim, te quero.’. E isso o movia. Inspirava. Amor frustrado como impulso criativo. A mais velha de todas as histórias.”
Patético.
Apertou “backspace” por vários segundos e apagou quase todo o parágrafo.
“Agora escrevia para si mesmo.”
Sim, bastava isso. Se expusesse demais os próprios sentimentos, a espantaria. Ou pior: a deixaria tão segura de sua devoção que ela, num instinto natural, se acomodaria naquele sentimento confortável de tê-lo ao seu dispor e o ignoraria. Pior dos quadros. Não, não.
Contudo, agora escrevia sobre o escrever. Sobre o processo de expressar a vontade de falar sobre um amor que não poderia ser falado sob pena de ser destruído ou sabotado. A coisa se complicava. Talvez se retornasse ao início…
“”Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.”
Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.”
Era uma boa introdução. Simples, irônica em sua estrutura elíptica e promissora como discussão literária e artística. Se ao menos conseguisse se concentrar no aspecto puramente criativo do texto… Mas como evitar a vontade de falar sobre ela?
Concentre-se.
Outro gole.
Ok.
““”Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.”
Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.””
A coisa estava se tornando ridícula. Ele agora escrevia sobre a vontade de escrever algo sobre a vontade de escrever. Tudo porque não conseguia lidar com os próprios sentimentos ao mesmo tempo em que desejava profundamente colocar em palavras algo que os explicasse.
O vinho não era suficiente. Haveria vodka no apartamento? Naquele apartamento vazio, triste e solitário? Apartamento que alugara acreditando que poderia abrigar um novo am…
Droga. Terapia em público novamente. Concentre-se. O que o velho mestre dissera? ““Se incapaz de escrever, escreva sobre isso”.” Aspas duplas. Já não se lembrava do mestre, mas de si mesmo lembrando-se do mestre.
A toca do coelho era profunda.
Perfeito. Agora citava Lewis Carroll. Mais um pouco e envolveria Schopenhauer e…
Lá vinha ela novamente.
Vinho. Vodka. Adele.
Sim, Adele. Que atire a primeira pedra quem nunca sofreu por amor. Gordinha sábia, aquela. Ou no mínimo dona de uma voz que remetia como poucas à saudade do romance frustrado.
Backspace, backspace, backspace.
“Vinho. Vodka”.
Melhor que o imaginassem alcoólatra do que piegas.
867 palavras e já usara até um terrível “atire a primeira pedra” sem conseguir expurgar a melancolia. Se não o fizesse através de palavras, acabaria pensando em formas mais definitivas. Escrever era agora mais do que impulso artístico; era um ato de sobrevivência.
“””Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.”
Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.””
Na realidade, não tinha o menor interesse em escrever sobre aquilo. Seu desejo era expressar algo profundo sobre um amor fracassado, mas não encontrava inspiração na própria tristeza – justamente esta que costumava movê-lo tão bem.”
Já perdera o controle sobre o número de aspas. Escrevia sobre escrever sobre escrever. O fundo do poço literário.
E tudo porque amava. E tomava apenas 10 mg de paroxetina. E encontrava-se insone.
A doença era contornável e curável, sabia disso. O sentimento, não.
E nem a metalinguagem poderia salvá-lo.
Backspace, backspace, backspace, backspace.
“Encontrava-se insone.”
Talvez isso bastasse. A falta de sono explicava muito. Mas o que gostaria mesmo, claro, era de dar backspace em sua história e agir quando tivera a oportunidade.
Se ao menos a vida comportasse a metalinguagem.
“””””Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.””
Ele olhou para o papel e sorriu satisfeito. Era um início promissor para seu conto sobre metalinguagem.””
Percebeu que insistia em vão. Não queria escrever, mas mudar o passado e presente. E era tarde demais para isso – e não havia aspas suficientes para refazer seus passos.
Escreveu a última linha com tristeza. Mas sempre esperançoso.



“Is this you being meta?” – BENNET, Shirley
“I love Charlie Kauffman” – PELTON, Dean
Bonito texto… Sensível, simples e com traços autobiográficos.
Gostei!
Me lembrou muito Charlie Kauffman e seu Adaptação… E isso, obviamente, é um grande elogio…
Também me lembrou muito!
Interessante texto, Pablo Villaça! Sinto apenas por sua confusão mental e falta de esclarecimento quanto a existência. Por que tanta dor em um nobre de alma? Esse seu sofrimento quanto a idade teria a ver com a sua incapacidade de lidar com as incertezas do futuro ou tudo seria medo diante do inexplicável? Grande abraço, meu caro.
Consigo ver um curta saindo deste texto. E é um excelente curta. Bonito texto.
O título deste conto é simplesmente fantástico!
Seu gordinho sacana, que texto!!! Que texto!!!
Ótimo texto, pelos comentários nem preciso dizer que lembra demais obras de Charlie Kaufman. kkkkk Abraços
Que horror.
Genial. Period.