(Spoilers will knock on your door.)
Até que demorou para que Breaking Bad incluísse uma cena de Scarface em um episódio, mas isso era inevitável – afinal, Walter White está muito próximo de se tornar o Tony Montana do Novo México. O bacana, no entanto, é que em vez de funcionar como um reflexo da transformação do protagonista, a cena em questão foi usada por Vince Gilligan como um choque de realidade para Skyler, que enxergou, ali, a destruição inevitável que o marido certamente trará para a família – e a belíssima transição entre esta sequência e a cena seguinte, feita através de um raccord sonoro que funde a metralhadora de Montana e a máquina de contar dinheiro, serviu não só como recurso de montagem, mas também como ligação temática entre o possível futuro trágico de Walt e sua causa (a ganância e o orgulho).
Os efeitos da ameaça representada por Walt, aliás, vêm se tornando o centro absoluto do arco dramático envolvendo sua esposa, que aqui finalmente tem a crise nervosa na qual já deveria ter mergulhado há meses. Ao contrário do homem devotado à esposa e sensível diante de suas necessidades que foi no passado, porém, Walt se mostra aqui cada vez mais entregue ao egoísmo de suas próprias ambições, escorregando numa sociopatia crescente e negando até mesmo assumir responsabilidades fictícias sobre o sofrimento de Skyler: ora, se teria sido muito fácil (e compreensível) explicar para Marie que havia voltado a “jogar” (uma desculpa que a cunhada praticamente já havia jogado em seu colo), Walt acaba optando por responsabilizar a esposa pela própria crise nervosa, expondo-a de forma imperdoável ao atribuir tudo ao caso que ela tivera com Ted. Como se não bastasse, ao ver-se sozinho em casa, o sujeito não apenas nem tenta consolar Skyler (e a imagem do ex-professor parado no início do corredor o torna mais ameaçador do que qualquer coisa), ele friamente opta por comer uma maçã descompromissadamente.
Cada vez mais convencido do próprio papel como novo chefão das drogas, Walter White vem se estabelecendo como vilão de sua própria história, já que, na maior parte das vezes, revela ser o maior inimigo de si mesmo graças ao orgulho que o cega para os efeitos destrutivos que provoca nos demais – e sua megalomania já vinha dando indícios desde o primeiro episódio desta quinta temporada, aqui ela se mostra com força total quando ele descarta a necessidade de um voto democrático para decidir os rumos da operação, quando afirma para Saul que “lidará” com Mike (subestimando o mais perigoso de seus “aliados”) ou simplesmente através da mise-en-scène da cena no escritório do advogado, quando é o único a surgir sentado, numa postura clara de liderança.
A frieza crescente de Walt, diga-se de passagem, é ilustrada também no breve e revelador encontro que tem com o garoto Brock, que envenenou na temporada passada a fim de manipular Jesse – e seu desconforto diante da criança, que poderia denotar até certo arrependimento (e é possível que haja um resquício disso em seu olhar), sugere mais uma avaliação culpada sobre o que a criança sabe, o que o levará, mais tarde, a novamente sondar Pinkman sobre o quão “honesto” este pretende ser com a nova namorada (uma preocupação que ele disfarça como interesse sobre a felicidade familiar do rapaz.
Movendo a trama da temporada final para a frente ao plantar as sementes de futuros conflitos entre Walt e Mike (“Só porque você matou Jesse James não quer dizer que se tornou Jesse James”, diz o segundo ao primeiro), este episódio ainda esclareceu a cronologia da temporada e da própria série, que começou com o aniversário de 50 anos de Walter e promete terminar quando este estiver completando 52 – o que coloca os acontecimentos derradeiros de Breaking Bad a um ano de distância, já que Marie insiste com a irmã para que celebrem o 51o. aniversário do cunhado.
E a julgar pela rapidez com que Walter vem caminhando para se transformar no sociopata de Scarface, este será um período de tempo mais do que suficiente para destruir tudo e todos ao seu redor.








Essa última frase, com essa última foto… Poxa…
Walter está dando medo. Na maior parte, sinto como se ele realmente não soubesse que está se transformando em um monstro – É o ego falando, a ilusão de que ele é o novo chefe simplesmente por ter matado Gus Fring (o próprio Mike deixa isso claro nesse episódio: “Just because you killed Jesse James, doesn’t make you Jesse James”). Essa transformação vem acontecendo desde o início de Breaking Bad, quando um homem comum resolve tomar medidas drásticas para dar o melhor para sua família, mas é impressionante o tom que tomou após a morte do Gus.
Estou gostando muito dessa temporada. 3 semanas e 3 capítulos impecáveis.
Obs: Marie voltou e com ela trouxe uma das melhores cenas da temporada até agora: Skyler ‘losing it’ (E Anna Gunn trabalha bem demais, pqp! Me deu arrepios.)
Obs 2: Muito feliz por ver Jesse Plemons, da minha amada Friday Night Lights, no elenco de BBad. Não acho que vão fazer muita coisa com o tal Todd, mas gosto muito do ator.
Skyler fez o que eu tinha vontade de fazer a 5 anos. “Cala a boca Marie!”
Que seriado fascinante. Notou o novo ‘laboratório móvel’ de Walt e Jesse? Já que não é fixo, é representado totalmente desprovido de cor e personalidade (ao contrário dos anteriores, como a casa de Jesse, o RV e até o laboratório de Gus e seu chão ensanguentado). E ainda faz uma rima linda de como Walt transformou seu lar em um laboratório para produzir o mal na sua vida. A tenda é uma pequena casa dentro de uma casa de família.
Adoro essa série!!!
Apenas uma curiosidade: moro nos EUA e a AMC exibiu o filme SCARFACE em horário nobre ontem à noite.
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