Luca & Nina

Videocast Cinema em Cena – Pai e filho discutem O Hobbit

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Luca, 9 anos, e seu pai (13 anos) discutem O Hobbit e os 48fps.

Lógica

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Nina, 4 anos, se aproxima com expressão séria.

- Papai, não é verdade que as pessoas têm que fazer o que os reis mandam?

Por um segundo, penso em iniciar uma resposta discutindo a existência de países com regime monarquista, monarquia parlamentarista, a mudança no status da realeza ao longo dos séculos e por aí afora. Em vez disso, digo apenas:

- Sim.

- E não é verdade que as pessoas têm que fazer o que as rainhas mandam?

- Sim.

- E não é verdade que o leão é o rei da selva?

- Sim.

- E a leoa não é a rainha da selva?

- Sim.

- Então não é verdade que as pessoas têm que fazer o que os leões e as leoas mandam?

- … Sim.

- E não é verdade que eu sou do signo de Leão?

- Ah. Sim.

- Então dá pra você ir lá na sala, explicar isso tudo pro Luca e mandar ele me obedecer?

Tempo de pergunta

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Luca observa a transferência de dados de um CD para o HD e começa a ficar incomodado com a tela que registra o tempo estimado:

- Faltavam 12 minutos. Depois, 19 minutos. Agora, 27 minutos e 30 segundos. Que coisa maluca.

Ele fica em silêncio. Depois de alguns segundos, do nada, pergunta:

- Quem inventou o tempo, papai?

- Hein?

- Esse negócio de medir o tempo. Quem inventou?

Cacetada. Ser pai é ouvir uma pergunta dessas sem qualquer aviso e ficar tenso para não parecer estúpido. Puxo a memória. E respondo incerto:

- Foram os romanos, acho. O primeiro calendário… ou… um dos primeiros… foram os romanos.

- Hum. Mas não teve ninguém específico, não? Tipo… “Fulano de Tal”?

Desisto de tentar impressioná-lo.

- Foi o Zé, meu filho. Foi um cara chamado Zé.

Momentos com as crianças

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Nina, revoltada porque Luca pediu que ela diminuísse o volume da tevê, manifesta sua raiva mordendo o irmão. Imediatamente a coloco de castigo, o que, claro, a leva a me chamar de “Idiota!” e a me olhar com ódio profundo. Alguns minutos depois, me aproximo e pergunto se está mais calma. Chorando, ainda chateada por estar sendo punida, ela acena com a cabecinha e sento ao seu lado para conversarmos. Explico que não se deve agredir ninguém, que assim ela perde a razão mesmo quando está certa, etc e tal. E concluo:

- Você precisa aprender a controlar sua raiva, meu amor.

Ao que a pequena de 3 anos responde de imediato:

- Mas eu já nasci brava.



Já no domingo, arrasada ao ser comunicada de que, sim, teria que tomar banho depois de suar horrores durante uma brincadeira, Nina declarou com solenidade:

- Este é o pior dia que já conheci na minha vida.



Luca estava jogando Minecraft quando seu amigo Dudu, que estava fazendo uma visita, pediu para brincar e imediatamente começou a ser atacado por zumbis, morrendo em questão de segundos. Aborrecido, Luca disse:

- Poxa, muito obrigado, Dudu!

E este, sem qualquer traço de ironia:

- Ué, de nada.

E Luca, após um segundo de hesitação:

- Eu estava usando sarcasmo.



Por falar em Luca, às vezes falho terrivelmente como pai – mesmo tendo consciência de estar falhando. Dia desses, por exemplo, insisti para que ele provasse ervilha e o baixinho quase vomitou. Julgando a reação exagerada, falei:

- Precisa disso tudo, meu filho, para um negocinho tão pequeno?

- É pequeno, mas o gosto é forte.

E eu, me tornando imediatamente o pior pai do mundo.

- That’s what she said.

Momentos dos baixinhos

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Luca insiste em vestir sua máscara do Homem-Aranha e chamar Nina para uma brincadeira de ação. Até que, já farta com o irmão, a pequena diz com a voz mais firme do mundo:

- Me deixe em paz, Homem-Aranha!

E até Luca é obrigado a parar para rir.



Quando Nina nasceu, Luca foi presenteado com um boneco grande e articulado do Homem de Ferro e informado de que aquele era um mimo que sua irmãzinha havia trazido – uma forma de diminuir o ciúme que certamente sentiria. Pois há alguns dias, ao ser informada de que trouxera este herói para o irmão mais velho, Nina, 3 anos, sacudiu os ombros e comentou com naturalidade absoluta:

- É, eu sempre gostei da Marvel.



- Estou com dor de estômago. Acho que vou ter que tomar um sonrisal.

- Ué! – espantou-se Luca ao ouvir isso. – Sonrisal serve pra quê?!

- Para dor de estômago, uai.

E ele, demonstrando sua lógica particular:

- Achei que fosse anti-depressivo.

Perfeito.



- Quanto tempo falta para eu ser adulta? – pergunta Nina, do nada.

- Falta bastante, minha filha. Por quê?

- Pra eu poder casar.

- Você vai querer casar, minha filha? Pra quê?

- Pra eu poder ter filhotinho.

Gelo na espinha.



Durante uma brincadeira, Luca pergunta para a irmã:

- Você vai trabalhar quando ficar grande, Nina?

- Vou, claro!

- O que você vai querer ser?

- Princesa Aurora Surfista.

Bela profissão.



Nina, com a vozinha mais doce do mundo, pergunta:

- Puta que “fariu” é palavrão?



Preparando-se para ir para a escola, Nina seleciona as próprias roupinhas e escolhe uma calça rosa, uma blusa vermelha e um tênis verde.

- Minha filha, essa roupa não combina nada! Você está parecendo uma palhacinha! Vamos colocar uma outra roupa para você ir bem linda para a escolinha.

E a pequena, sem hesitar e olhando no espelho:

- Linda eu já sou, agora quero ser engraçada.

 

Teste de equilíbrio

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 8 comentários

Nina brincava com a avó paterna em um parquinho quando, vendo um daqueles brinquedos de girar, ocupou um dos lugares e pediu:

- Me roda, vovó!

A avó, apesar da labirintite que a ataca até mesmo ao ver outros rodando, atendeu. Tudo pelos netos. Depois de algum tempo, o brinquedo parou de se movimentar e Nina imediatamente exclamou:

- De novo, vovó!

- Hum… Nina, acho que já rodou muito, meu bem.

- De novo, vovó! Por favor! Me roda de novo!

- Nina, você rodou muito. Já está até tonta.

- Não estou tonta, não.

- Está, sim. Vovó está vendo.

- Não estou, não.

Pacientemente, a avó propôs:

- Vamos fazer o seguinte, então: desce do brinquedo e vê se está tonta. Se não estiver, a vovó te roda mais.

Aceitando o desafio, a pequena voltou para o chão e, visivelmente desequilibrada, se apoiou no aparelho. Respirando fundo, olhou para a avó e disse:

- Deixa só tudo parar de rodar que eu vou te mostrar que não tô tonta!

Um segredo e uma charada impossível

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 4 comentários

- Hoje a professora me xingou. – diz Nina com carinha triste.

- Por que, minha filha?

- Porque eu não fiz nada direitinho. Não cantei direitinho, não dancei direitinho e não brinquei na areia direitinho. Eu não quis emprestar a pá para os meninos; só para as meninas. (pausa) E fiz uma coisa que não vou te contar.

- O quê? Conta pra mim…

- Não quero te contar.

E realmente não contou. Medo.



Nina se aproxima de mim:

- Papai, eu quero ver um filminho.

- Outro, minha filha? Já viu três, hoje!

- Mas… é que esse eu não tinha conseguido terminar!

- É, meu bem? Qual?

- Adivinha qual foi?

- Hum… Procurando Nemo?

- Não.

- O Estranho Mundo de Jack?

- Não.

- Desisto. Qual foi?

- Vou te dar uma pista: começa com a letra “Fantástica Fábrica de Choco…”.

Pensei por alguns segundos e cheguei à conclusão de que a única resposta possível seria mordê-la muito.

Meu Pai – II

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Variados | 33 comentários

Meu pai morreu aos 40 anos de idade, em um acidente de carro. O ano era 1980 e ele voltava de uma viagem de trabalho quando um caminhão acertou o veículo no qual ele dormia no banco do passageiro. Conhecido por correr quando estava atrás do volante, ele havia passado a direção para um amigo por sentir-se cansado.

O amigo sobreviveu ao acidente. Meu pai morreu na hora.

Lembro-me dele com frequência, como já escrevi aqui. Na realidade, “lembro-me” é o verbo errado, já que tenho poucas recordações de meu pai. O mais correto seria dizer “penso”. Sim, penso nele com frequência.

Papai veio de uma família humilde de Porto Firme, no interior de Minas Gerais. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para tentar melhorar suas condições de vida. Trabalhava como se não houvesse amanhã e, entre os empregos que mantinha para pagar a faculdade de Direito, estava o de carregador de caixas no Mercado Central. Foi lá que conheceu meu tio-avô José Ribeiro que, por sua vez, apresentou-o à família, levando-o a conhecer minha mãe. Quando começaram a namorar, muitos anos depois, o relacionamento enfrentou a resistência de vários parentes de mamãe: além de pobre, ele era onze anos mais velho. A proibição teve efeito contrário ao pretendido e, há alguns anos, minha mãe confessou não ter certeza se teria se casado caso ele não houvesse sido tão humilhado por alguns integrantes da família.

Conhecendo o coração de mamãe e sua natureza compassiva, não duvido que esta tenha sido uma motivação forte para levá-la a se casar ainda aos 19 anos.

Quando papai tinha 34 anos, nasci. Aos 39, tornou-se novamente pai. Estava construindo uma carreira bem-sucedida no Direito, tinha uma esposa jovem e bonita, um casal de filhos saudáveis e, por tudo que contam, sentia-se realmente feliz pela primeira vez na vida – o que o levava a tentar controlar o temperamento notoriamente explosivo e a brigar menos.

O caminhão interrompeu sua trajetória neste momento. Tinha acabado de iniciar sua quinta década de vida.

Não posso dizer, porém, que percebi imediatamente o que acontecera à minha própria existência. Antes de me dar conta de que não tinha mais um pai, fui marcado pela imagem de minha mãe chorando desesperadamente ao receber a notícia. Mesmo ao ouvir meu tio explicando para meus primos que eu “havia perdido meu papai” falhei em processar a informação. Tinha cinco anos, afinal.

Não fui ao velório ou ao enterro. Ainda hoje acho ter sido a decisão correta por parte de minha mãe. Não creio que a imagem de meu pai – o adulto que brincava comigo e me jogava para cima – deitado num caixão seria algo que gostaria de carregar na mente.

Cresci sem pensar muito no que significava ser órfão de pai. Sim, era estranho ver meus colegas preparando trabalhinhos de escola especiais para os pais, em agosto, mas eu acabava por integrar-me às tarefas ao fazer versões especiais para minha mãe. Adolescente, pensei menos nele.

E aí tornei-me pai e sua morte começou a doer de verdade.

É curioso: esta dor vinha não do fato de finalmente perceber sua ausência ou de lamentar ter crescido sem a figura paterna (algo que, por exemplo, me custou muitas feridas permanentes no rosto por ter aprendido a barbear-me sozinho), mas por finalmente me dar conta de tudo que ele havia perdido. Apaixonado pela paternidade (o que encontra respaldo nas lembranças que tenho dele brincando comigo e me fazendo carinho), ele não teve chance de exercê-la; dedicado a construir algum patrimônio financeiro, morreu sem poder aproveitá-lo de fato; persistente ao conseguir casar-se com minha mãe, não conseguiu envelhecer ao seu lado.

Gostaria de ter certeza de que o pai que vive em minha mente se parece com o que realmente existiu, mas sei que isto jamais acontecerá. O Geraldo que construí como imagem do que perdi é um amálgama de lembranças fragmentadas, de histórias que ouvi ao longo dos anos e do desejo de ser filho de um bom homem.

O que sei de fato é que tenho pensado nele com frequência cada vez maior. E enxergo os paralelos: tenho um casal de filhos cujas idades refletem a distância cronológica existente entre minha irmã e eu; viajo a trabalho constantemente e perco, assim, vários momentos marcantes de seu crescimento; tento cada vez mais domar meu temperamento para oferecer um bom exemplo para as crianças. Não tive que enfrentar suas dificuldades financeiras na juventude, mas tive minha parcela de obstáculos com dinheiro ao começar uma família – e apenas nos últimos cinco ou seis anos finalmente consegui um certo conforto, embora as viagens tenham acabado por cobrar seus sacrifícios.

Este ano completo 38 anos. Em mais dois, terei a idade que meu pai tinha ao morrer.

E constato como ele era jovem e tinha o mundo à sua frente.

E, sim, sinto-me estranho e inquieto ao perceber que logo serei mais velho do que meu pai foi em seu fim. Que serei seu sênior quando queria apenas ter a visão de um filho que olha para o pai com a certeza de que este sabe mais, conhece mais e… viveu mais.

Honrarias

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 7 comentários

Há quem estude apenas por gostar da ideia de ser chamado de “doutor”. Ou “mestre”.

Há quem trabalhe apenas para alcançar uma posição que lhe renda a distinção de ser “Vossa Excelência”, “Meritíssimo” ou “Excelentíssimo”.

Outros rezam por um “Reverendíssimo” ou “Sua Santidade”.

Uns poucos nascem “Alteza” e “Majestade”, enquanto vários se orgulhavam dos “Condes”, “Barões”, “Duques” e “Lordes” que precediam seus nomes.

Eu?

“Papai” me basta. Morrerei acreditando não haver título melhor ou mais doce.

Instinto materno

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 10 comentários

Nesta quinta-feira, tornei-me titio: minha amada irmã Jeanne deu à luz uma linda bebezinha chamada Alice. Pois a notícia levou Nina a alguns questionamentos e a algumas decisões:

- A tia Goi agora é mamãe?

- É, minha filha.

- Quando eu for grande eu também vou ser mamãe?

- Se você quiser, vai.

A pequena ficou pensativa por alguns segundos e, então, concluiu:

- Minha filha vai chamar Aurora e o meu filho, Chapeleiro.

Meus netinhos.