Meu pai morreu aos 40 anos de idade, em um acidente de carro. O ano era 1980 e ele voltava de uma viagem de trabalho quando um caminhão acertou o veículo no qual ele dormia no banco do passageiro. Conhecido por correr quando estava atrás do volante, ele havia passado a direção para um amigo por sentir-se cansado.
O amigo sobreviveu ao acidente. Meu pai morreu na hora.
Lembro-me dele com frequência, como já escrevi aqui. Na realidade, “lembro-me” é o verbo errado, já que tenho poucas recordações de meu pai. O mais correto seria dizer “penso”. Sim, penso nele com frequência.
Papai veio de uma família humilde de Porto Firme, no interior de Minas Gerais. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para tentar melhorar suas condições de vida. Trabalhava como se não houvesse amanhã e, entre os empregos que mantinha para pagar a faculdade de Direito, estava o de carregador de caixas no Mercado Central. Foi lá que conheceu meu tio-avô José Ribeiro que, por sua vez, apresentou-o à família, levando-o a conhecer minha mãe. Quando começaram a namorar, muitos anos depois, o relacionamento enfrentou a resistência de vários parentes de mamãe: além de pobre, ele era onze anos mais velho. A proibição teve efeito contrário ao pretendido e, há alguns anos, minha mãe confessou não ter certeza se teria se casado caso ele não houvesse sido tão humilhado por alguns integrantes da família.
Conhecendo o coração de mamãe e sua natureza compassiva, não duvido que esta tenha sido uma motivação forte para levá-la a se casar ainda aos 19 anos.
Quando papai tinha 34 anos, nasci. Aos 39, tornou-se novamente pai. Estava construindo uma carreira bem-sucedida no Direito, tinha uma esposa jovem e bonita, um casal de filhos saudáveis e, por tudo que contam, sentia-se realmente feliz pela primeira vez na vida – o que o levava a tentar controlar o temperamento notoriamente explosivo e a brigar menos.
O caminhão interrompeu sua trajetória neste momento. Tinha acabado de iniciar sua quinta década de vida.
Não posso dizer, porém, que percebi imediatamente o que acontecera à minha própria existência. Antes de me dar conta de que não tinha mais um pai, fui marcado pela imagem de minha mãe chorando desesperadamente ao receber a notícia. Mesmo ao ouvir meu tio explicando para meus primos que eu “havia perdido meu papai” falhei em processar a informação. Tinha cinco anos, afinal.
Não fui ao velório ou ao enterro. Ainda hoje acho ter sido a decisão correta por parte de minha mãe. Não creio que a imagem de meu pai – o adulto que brincava comigo e me jogava para cima – deitado num caixão seria algo que gostaria de carregar na mente.
Cresci sem pensar muito no que significava ser órfão de pai. Sim, era estranho ver meus colegas preparando trabalhinhos de escola especiais para os pais, em agosto, mas eu acabava por integrar-me às tarefas ao fazer versões especiais para minha mãe. Adolescente, pensei menos nele.
E aí tornei-me pai e sua morte começou a doer de verdade.
É curioso: esta dor vinha não do fato de finalmente perceber sua ausência ou de lamentar ter crescido sem a figura paterna (algo que, por exemplo, me custou muitas feridas permanentes no rosto por ter aprendido a barbear-me sozinho), mas por finalmente me dar conta de tudo que ele havia perdido. Apaixonado pela paternidade (o que encontra respaldo nas lembranças que tenho dele brincando comigo e me fazendo carinho), ele não teve chance de exercê-la; dedicado a construir algum patrimônio financeiro, morreu sem poder aproveitá-lo de fato; persistente ao conseguir casar-se com minha mãe, não conseguiu envelhecer ao seu lado.
Gostaria de ter certeza de que o pai que vive em minha mente se parece com o que realmente existiu, mas sei que isto jamais acontecerá. O Geraldo que construí como imagem do que perdi é um amálgama de lembranças fragmentadas, de histórias que ouvi ao longo dos anos e do desejo de ser filho de um bom homem.
O que sei de fato é que tenho pensado nele com frequência cada vez maior. E enxergo os paralelos: tenho um casal de filhos cujas idades refletem a distância cronológica existente entre minha irmã e eu; viajo a trabalho constantemente e perco, assim, vários momentos marcantes de seu crescimento; tento cada vez mais domar meu temperamento para oferecer um bom exemplo para as crianças. Não tive que enfrentar suas dificuldades financeiras na juventude, mas tive minha parcela de obstáculos com dinheiro ao começar uma família – e apenas nos últimos cinco ou seis anos finalmente consegui um certo conforto, embora as viagens tenham acabado por cobrar seus sacrifícios.
Este ano completo 38 anos. Em mais dois, terei a idade que meu pai tinha ao morrer.
E constato como ele era jovem e tinha o mundo à sua frente.
E, sim, sinto-me estranho e inquieto ao perceber que logo serei mais velho do que meu pai foi em seu fim. Que serei seu sênior quando queria apenas ter a visão de um filho que olha para o pai com a certeza de que este sabe mais, conhece mais e… viveu mais.