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Flickr

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Fotografia: escrever com a luz. Mesmo. Está na origem da palavra e é perfeito.

E eu gosto de rabiscar. Ou pelo menos tento.

Sonho americano

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Uma das coisas que me chocaram no breve tempo em que morei em Los Angeles foi constatar que aquelas pessoas que ficam vestidas como personagens do Cinema na Hollywood Boulevard são basicamente mendigos glorificados. Passando os dias e as noites andando de um lado para o outro na região do Grauman’s Chinese Theater, elas se derretem sob o sol da Califórnia enfiadas em suas fantasias que, melhor ou pior concebidas, são ao mesmo tempo um símbolo do sonho de serem descobertas em Hollywood e um testemunho do fracasso desta ambição.

Pois o fotógrafo Nicolas Silberfaden, igualmente movido por aqueles figurantes da miséria norte-americana, convidou vários deles para sessões de fotos, pedindo apenas que usassem seus uniformes do dia a dia e expressassem o sentimento que normalmente sentiam: tristeza.

Clique aqui para conferir a galeria completa.

Imagens do Cinema

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Iniciei um tumblr aqui só para publicar imagens e citações relacionadas ao Cinema. Visitem e espalhem. ;)

Ebert e eu

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O post passado me fez lembrar desta foto – uma de minhas favoritas do EbertFest (embora o fotógrafo do evento tenha deformado todas as imagens da recepção ao estupidamente decidir usar uma grande angular “olho de peixe” para registrá-las): este é o momento exato no qual me encontrei com Ebert pela primeira vez e que descrevi neste post.

Sonho realizado

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Como muitos devem saber, este ano fui honrado pela oportunidade de me tornar não apenas colaborador profissional do mestre, ídolo e inspiração Roger Ebert como também de estabelecer uma amizade com este que tanto moldou minha visão da crítica há mais de duas décadas, quando comecei a estudar a Sétima Arte. Pois bem: em maio, participei ao seu convite do EbertFest, em Illinois, chegando a participar de um debate sobre crítica internacional e outro com o diretor e a estrela do longa sul-africano Life, Above All após a exibição do filme, no palco do Virginia Theater.

Já no último dia da viagem, durante um brunch na casa de Roger e de sua adorável esposa Chaz, tomei coragem e o presenteei com meu livro “O Cinema Além das Montanhas” – mesmo sabendo que ele não compreenderia o texto em português. Sempre conversando através de anotações (ele perdeu a voz há alguns anos), Ebert escreveu, depois de follheá-lo:

“Um livro fisicamente bonito.”

E foi aí que, reunindo toda a força do mundo para expressar minha admiração por sua carreira e também sua importância na minha, agradeci pela oportunidade de participar do evento. Sua resposta me pegou de surpresa e, emocionado e profundamente honrado, pedi para guardar a folha na qual ela havia sido escrita, pedido ao qual ele atendeu com generosidade:

“Estou tão orgulhoso de ter seus textos em meu site – mesmo que os leitores digam que você é melhor do que eu!”

Este momento, que considero como um dos pontos altos da minha carreira (talvez o mais alto), agora me acompanha não só na memória, mas neste porta-retratos que mantenho ao lado de meu notebook no escritório:

Morte Cega

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Fotos do set tiradas por Mariana Beltrame.

Ebertfest em fotos

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Enquanto não encontro tempo para escrever mais sobre o EbertFest, acompanhem o evento através de fotos:

Preto Velho, modelo temperamental

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Sempre que venho a Salvador, vou ao Pelourinho – e como tenho parentes por aqui, isto ocorre com certa freqüência. No entanto, jamais me canso daquele espaço histórico, maravilhoso, colorido, que combina a imponência dos séculos e a miséria absoluta. Faz parte da experiência de ir ao Pelourinho olhar para um lado e perder o fôlego diante da beleza castigada da região apenas para olhar na direção oposta e perder o fôlego diante da tristeza de ver um “sacizeiro” (como são chamadas aqui as crianças viciadas em crack) tentando descolar trocados para comprar mais uma pedra que contribuirá para mandá-lo jovem para debaixo da terra. É um espetáculo trágico ambientado num palco de cores belas.

Mas divago.

O fato é que todas as vezes que vou ao Pelourinho, sou atraído pela figura marcante de um senhor que, sempre sentado na mesma posição do lado de dentro de uma janela, parece observar a vida com uma indiferença (ou cansaço) curiosa, sem jamais se esforçar para vender o rapé que a placa diante de si anuncia com tamanha pompa. E considerando a insistência de todos os representantes do comércio local, só isto já seria o bastante para torná-lo ímpar. Mas há mais: sua própria figura parece exalar uma autoridade antiga de quem viu muito e sabe muito, transformando sua indiferença não em apatia, mas em uma espécie de exaustão vinda de alguém que já sabe há décadas que não há solução para a natureza humana.

Ou talvez eu esteja romantizando tudo e a simples verdade seja a de que ele tem um rosto muito bacana.

De todo modo, sempre que o via ali, sentia vontade de fotografá-lo. Em 2009, quando ainda tinha uma câmera fraquinha, arrisquei-me até a registrá-lo de longe, mas a qualidade da imagem, claro, era terrível. Assim, desta vez não pensei muito antes de me dirigir à ruela na qual sempre o encontrei – e à medida que me aproximava, senti o coração disparar com medo de não encontrá-lo mais ali. Talvez ainda não tivesse chegado. Talvez tivesse mudado de lugar. Talvez tivesse morrido.

Ele estava na mesma janela de sempre. E em sua aparentemente estatuesca posição. Respirei aliviado.

Comecei a pensar em como fotografá-lo. De modo geral, não gosto muito de fotografar pessoas, mas quando alguém me interessa, tento fazer um registro sem que o “modelo” perceba, já que detesto fotografias nas quais o retratado olha para a câmera de forma artificial. É o movimento natural do cotidiano que me atrai, fotógrafo amador que sou. Posteriormente, posso até me aproximar da pessoa e perguntar inocentemente se ela se importa que eu a fotografe (algo que raramente é negado, o que acho curioso) – e já com a autorização, simplesmente bato uma foto para atirá-la na lixeira digital, já que a imagem que me interessava já havia sido capturada.

Com isso em mente, entrei na loja em frente à janela do senhor, que se identificava na placa como “Preto Velho”, para tentar fotografá-lo sem que visse. Expliquei minha intenção para a vendedora, que me alertou:

- Então tome cuidado mesmo para que ele não veja, porque ele fica bravo quando tiram foto dele.

Era o que eu não queria ouvir. Porque agora, sabendo que ele não gostava de ser fotografado, eu não me sentia mais à vontade para tirar a foto sem permissão. A saída seria obter uma.

Aproximei-me do Preto Velho:

- Tudo bom com o senhor?

- Tudo.

- Bacana, a loja do senhor.

- …

- O senhor vende só rapé?

- E cigarro.

- Ah. Hum. (…) Vejo sempre o senhor por aqui. Está aqui há muito tempo, né?

- 95 anos.

E aí soltei uma expressão tipicamente mineira que, em retrospecto, foi um erro grotesco:

- Mentira!

- Por que eu iria mentir que tenho 95 anos? – respondeu ele, já irritado.

- Não… não foi isso… eu… não, não. É que… o que eu quis dizer é que o senhor não parece ter 95 anos. Eu… não daria mais de 70 para o senhor! É isso!

- …

- Meu nome é Pablo. – falei, estendendo a mão. Ele a apertou com preguiça.

- Meu nome é Domingos.

- Prazer em conhecê-lo, seu Domingos.

- …

- Então. O senhor… é… quanto é o rapé?

- 25 reais. – informou ele, pegando um vidrinho minúsculo. Por este preço, imaginei que o rapé fosse de ouro.

- 25 reais?

- É, mas isso aqui cura tudo.

Ele despejou o pó na palma da mão direita e, com dois dedos da mão esquerda, pegou um punhado do farelo e enfiou nas narinas. Em seguida, apanhou mais um bocado e estendeu a mão para enfiar o rapé no meu nariz. Pego de surpresa, recuei num susto.

Ele me olhou com indiferença.

- Eu… agradeço muito, seu Domingos, mas não cheiro rapé. Eu não cheiro nada, na verdade. Quer dizer… bom… nada, nada, não. Claro que cheiro outras coisas. Quero dizer… perfume, essas coisas. Eu tenho olfato, é o que eu quero dizer. Mas… hum.. rapé eu não… (suspiro exausto)

Desastre. Eu havia me transformado num idiota incoerente. Ele devia estar perdendo a fé nas gerações mais jovens num ritmo exponencial, agora.

Decidi me arriscar.

- Posso tirar uma foto do senhor?

- Não.

- (…) Por que, seu Domingos?

- Só se você comprar rapé. Aí eu te deixo tirar uma foto.

- Mas, seu Domingos, eu não cheiro rapé.

- Então sem foto.

- O senhor não tem nada mais barato aí, não?

- Não. Só rapé.

Pensei em desistir. Mas… 95 anos de idade. Eu não podia.

- E se eu pagar… não sei… dez reais para o senhor só para tirar uma foto?

Sem olhar na minha direção, ele respondeu imediatamente:

- Uma foto.

Vitória.

- Errr… o senhor tem troco para vinte?

Ele me encarou com olhar assassino, mas me entregou uma nota de dez.

Afastei-me da janela tenso. Tentei encontrar a melhor posição, o melhor quadro, o melhor tudo rapidamente, antes que ele mudasse de idéia. Turistas e locais atravessavam na minha frente dificultando o trabalho. Ajustei a luz, a exposição, o quadro e disparei. Sem pensar, fiz o que qualquer um na minha posição faria automaticamente e me preparei para uma segunda foto.

- Não!

- Hein?

- Você já tirou a foto. Era uma só.

- Mas seu Domingos…

Mas ele já havia coberto o rosto com a mão e virado na outra direção. Sem se virar para mim, acenou um “vá embora”.

Derrotado e finalmente descobrindo como os fotógrafos que tentam trabalhar com Naomi Campbell se sentem, enfiei a câmera na bolsa e me afastei.

E descobri que, curiosamente, agora amava um pouco aquele velhinho.

Galeria do flickr

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