Eu estava precisando destas férias. Muito. Porque o fato, meus amigos, é que eu estava farto de escrever. Não apenas “cansado”, mas com antipatia do ato da escrita.
Para que tenham uma idéia da gravidade deste sentimento, um breve histórico: escrevo desde os sete anos de idade. Tenho ainda o caderninho no qual, em 1981, comecei a registrar pequenas histórias, absurdas e sem estrutura como as de todas as crianças, que anunciava se tratar de um “livro”. Nunca parei. Fui editor do jornalzinho da escola ainda no primeiro grau e, aos 12 anos, enviei um manuscrito para a Editora Lê para que fosse apreciado. Na época, o escritor André de Carvalho, editor da Lê, tomou uma atitude que me comove ainda hoje ao me convocar a ir até a empresa. Trêmulo e ansioso, entrei em seu escritório e ele, com um carinho surpreendente, disse:
- Pablo, normalmente, quando não temos interesse em publicar o trabalho de alguém, enviamos uma carta para a pessoa com o manuscrito e um comunicado dizendo que “o texto não se encaixa nos interesses editoriais e mercadológicos da editora”. Porém, considerando sua idade, eu não quis fazer isso por temer que a recusa fosse desestimulá-lo a escrever. O seu livro, para começar, não é um livro: tem 50 páginas. É curto demais para ser um livro e longo demais para ser um conto. E ainda falta maturidade a ele. Você escreve muito bem, mas ainda é muito novinho. Você precisa continuar a escrever, porque faz isso muito bem, mas ainda não é um Escritor. Ainda. Continue escrevendo e você certamente vai chegar lá.
Mesmo aos 12 anos, saí daquela sala imensamente grato a André de Carvalho. E determinado a continuar escrevendo por toda a vida.
E continuei. Contos, poesias, roteiros, textos teatrais, críticas, artigos, posts de blog. Mesmo na época da Medicina (meu teste vocacional havia indicado “Comunicação”, mas insisti na vontade de ser médico inspirada por Tempo de Despertar. Coisa de adolescente.), continuei a escrever para jornais regionais de BH ou simplesmente para consumo próprio. E em 1997 veio o Cinema em Cena até que, 14 anos depois, aqui estamos.
Nos últimos meses, porém, algo começou a mudar. Passei a escrever por obrigação, não por amor. Escrevia já irritado e permitindo que a acidez do meu humor corroesse o texto por dentro. Um pouco de cinismo é bom; em excesso, devora a alma. O que poderia estar acontecendo? O resultado é que, aos poucos, fui trocando este blog pela rapidez sem compromissos do Twitter. Claro que continuei com as críticas (2010 foi o ano em que mais publiquei análises), mas menos pelo tesão de escrever do que pelo prazer de estudar e discutir os filmes.
Estes dez dias parado foram, portanto, essenciais por dois motivos: primeiro, porque senti saudade de escrever – algo que não ocorria há tempos e que só me traz a certeza de que, querendo ou não, isso está no meu DNA. Mas, ainda mais importante do que isso, pude pensar sobre minha exaustão. E cheguei à conclusão de que ela se deu por duas razões:
(E aqui este post se tornará mais confessional, franco e auto-destrutivo, expondo minhas falhas de caráter, meu ego e jogando para o mundo algo que eu deveria manter internamente. Ou seja: seguirá a linha que este blog sempre teve.)
1) Os ataques feitos por detratores. Sim, parece incrível que, com 17 anos de carreira, eu ainda me deixe afetar por mensagens, emails, tweets, comentários enviados por aqueles que não apreciam meu trabalho. Quem acompanha minha trajetória certamente já me viu abordar o assunto várias vezes. É uma falha de caráter: como todo egocêntrico, tenho necessidade de ser amado por todos. É imaturo, é estúpido, é inútil. Mas é a verdade.
E é também impossível.
Ninguém é amado por todos. Nem Gandhi, nem Lennon, nem o Dalai Lama. Ora, se nem Chaplin conseguiu, por que eu conseguiria? Não, mais: por que eu deveria? Ou por que deveria me importar com isso? A resposta, claro, é: não deveria. Não sou mais especial do que ninguém (tive que obrigar meus dedos a escreverem isso; tiveram cãibras durante a digitação), mas, por outro lado, aqueles que me atacam também não são. E certamente não deveriam ser ouvidos com mais atenção do que aqueles que me presenteiam com seu carinho – algo que, como sabem, tendo a fazer. Críticas construtivas serão sempre bem-vindas; trolls em busca de atenção devem ser ignorados. É preciso absorver esta regra.
O que me traz ao segundo ponto:
2) Ser amado (ou apreciado) não faz diferença alguma.
É bom para o ego? Sem dúvida. É agradável sentir-se querido? Claro. Mas nada disso deveria importar, já que escrevo não para ser adorado, mas sim porque preciso escrever. Sempre precisei e sempre precisarei. Se algum dia (toc-toc-toc) perder tudo o que tenho e me transformar num sem-teto, usarei carvão para escrever nos muros e calçadas da cidade. (Ok, limparei depois, prometo.)
Em outras palavras: preciso me preocupar mais com os textos e menos com a reação que estes provocam. Sim, adoro e sempre adorarei o retorno de vocês (devoro os comentários), mas preciso – e vou – aprender a encará-los como um complemento ao que faço, não como a essência do meu trabalho.
Sempre me orgulhei de ser capaz da auto-análise. Considero-me particularmente talentoso para identificar minhas falhas de caráter, minhas infantilidades e minhas fragilidades. Por outro lado, não sou tão bom em corrigi-las – e chego a abraçar algumas por considerá-las idiossincrasias divertidas.
Mas a susceptibilidade excessiva aos ataques de desconhecidos não é algo divertido. É estupidez pura. E evitá-la é questão de sobrevivência.
Como é bom estar de volta. E como é bom sentir prazer novamente em escrever.
Começo aqui 2011.