Jon Stewart fala sobre a mídia e a oposição brasileir… norte-americanas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | Comente  

Comentando a reação dos comentaristas da direita (Rush Limbaugh, equipe da Fox News, etc) sobre sua decisão de sair do The Daily Show, o comediante Jon Stewart exibiu uma série de clipes nas quais estes o acusavam de sistematicamente “mentir” sobre a direita, tirando o que diziam de contexto. Depois de mostrar um clipe no qual 50 mentiras ditas pela Fox News eram expostas, Stewart deu início a um monólogo que poderia perfeitamente ter sido dirigido à mídia reacionária brasileira e ao tipo de oposição que temos por aqui:

“Uma espécie de consenso sobre este programa tomou conta da direita: um pensamento com o qual se mostram tão confortáveis que nem se sentem na obrigação de oferecer evidências para comprová-lo: o de que distorcemos e mentimos o tempo todo para que fiquem parecendo ruins. Algo que pode ser resumido por esse cara aqui:

[CLIPE DE RUSH LIMBAUGH:] Jon Stewart ajudou a polarizar o país ao envenenar a marca Republicana.

“Envenenar a marca republicana?” Você está falando desta marca aqui?

[CLIPES DE VÁRIOS SEGMENTOS DO PROGRAMA DE LIMBAUGH NO QUAL ATACA FEMINISTAS, MINORIAS ÉTNICAS E ATÉ MESMO MICHAEL J. FOX POR EXIBIR SINTOMAS DE PARKINSON. ENTRE AS FALAS, A INACREDITÁVEL “SE HÁ UMA RAÇA QUE NÃO DEVERIA SENTIR QUALQUER CULPA PELA ESCRAVIDÃO, É A DE CAUCASIANOS”.]

Nós envenenamos… esta marca? Como se envenena uma fábrica de cianureto?

Mas o joguinho que eles praticam aqui é “a única razão pela qual a Direita tem má fama é porque esses caras são injustos conosco”. Nós não mentimos; não distorcemos. A questão é que a Direita gosta de fingir que nossa honestidade é o que mais importa para eles – o que, ironicamente, não é verdade. O que importa para a Direita é desacreditar qualquer coisa que eles acreditem prejudicar o seu lado. (…) Esta missão dirige seus ataques contra todas as instituições que formam a base do país que eles alegam amar tanto.

[CLIPES DA FOX NEWS ATACANDO TUDO QUE DIZ RESPEITO AO GOVERNO OBAMA E PINTANDO UM RETRATO DE QUE TUDO ESTÁ ERRADO, DE QUE O PAÍS ESTÁ VIVENDO UM CAOS COMPLETO E DE QUE O DESASTRE SE APROXIMA A QUALQUER MOMENTO GRAÇAS À GESTÃO DOS DEMOCRATAS, QUE SÃO CHAMADOS DE “LIBERAIS”, “ESQUERDISTAS” E MESMO “COMUNISTAS”.]

Todas as instituições sofrendo do “mal do liberalismo” e o que pode ser feito? Esta é a genialidade deles. Eles alegam querer “consertar” as coisas, mas os conservadores não querem fazer a Educação se tornar mais rigorosa e informativa ou a Ciência se tornar mais empírica e confiável ou os votos se tornarem mais representativos ou o governo se tornar mais eficiente… eles querem apenas que todas essas coisas reforcem seu ponto de vista partidário, ideológico e conservador.

Porque na mente deles, o oposto de “ruim” não é “bom”; o oposto de “ruim” é “conservador”. O oposto de “errada” não é “direita”, é… bom… vocês entenderam o que eu quero dizer. Eles julgam apenas pelo nível de conteúdo conservador. Em tudo. É seu único teste determinante. Mesmo coisas estúpidas.

[CLIPE DE APRESENTADORA DA FOX NEWS CONDENANDO O LIBERALISMO DE HOLLYWOOD POR NÃO DAR O OSCAR DE MELHOR FILME A “SNIPER AMERICANO” POR ESTE TER SIDO DIRIGIDO PELO REPUBLICANO CLINT EASTWOOD.]

Clint Eastwood é um ícone conservador há anos. Ele já venceu o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme neste meio tempo. Os “lunáticos esquerdistas” de Hollywood fizeram o filme, pra começo de conversa, e o indicaram a Melhor Filme!

E sabem qual é a parte mais triste disso tudo? Os republicanos e conservadores são tão incansáveis em seu impulso por pureza ideológica que as instituições sobre a qual eles reclamam continuam a ceder a eles. Pela mesma razão, acho, que você sempre vai ao restaurante escolhido por sua filha de quatro anos de idade: “Tá bom, nós vamos lá de novo! Só pare de chorar!”.

Quinze estados aprovaram leis novas sobre identidade de eleitores sem que houvesse qualquer evidência de fraude eleitoral; um comitê estadual em Oklahoma votou pra banir uma disciplina de História por não suavizar a escravidão o suficiente; “abstinência” foi aprovada como parte de “educação sexual”; e fatos científicos não são mais informados, mas debatidos.

Então vamos parar de fingir que essas concessões à Direita irão, em algum momento, saciar a fome da Besta.

[CLIPE DE SARAH PALIN CRITICANDO O PAPA POR SUAS DECLARAÇÕES LIBERAIS.]

O papa não é conservador o bastante pra essas pessoas. Então vamos parar de ceder a eles. Sua guerra cronicamente raivosa por pureza ideológica, em que todos os aspectos da vida se tornam uma batalha bidimensional pela alma do país, nos envelhece.

Só de assistir a ela, estou morrendo.”

Better Call Saul S01E01

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 8 comentários

(Better Call Spoilers.)

Vince Gilligan e Peter Gould, co-criadores deste spin-off da inigualável Breaking Bad, tinham um gigantesco desafio duplo ao conceber uma série protagonizada pelo divertido Saul Goodman, responsável por alguns dos momentos mais divertidos da saga de Walter White: em primeiro lugar, definir o tom da narrativa; em segundo, contornar o fato de que o espectador já saberia, desde o princípio, como a história terminaria. Pois se formos julgar a partir do episódio piloto, Uno, eles encontraram boas soluções para ambos, já que, mesmo mantendo o bom humor que poderíamos esperar de uma trama que gira em torno de Saul, salpicaram o episódio com toques dramáticos suficientes para que o projeto realmente parecesse pertencer ao mesmo universo que já conhecíamos. Além disso, ao conceberem um prólogo que se passa após o término de Breaking Bad, sugerem que talvez ainda não tenhamos testemunhado de fato o desfecho da trajetória do advogado.

Este prólogo, aliás, já estabelece a atmosfera da série de forma magnífica: rodada num belo preto-e-branco que mergulha o Saul pós-Walter White em um mundo melancólico e depressivo, a sequência deixa claro o estrago feito na vida do protagonista, que agora leva uma existência de rotina desinteressante que – o mais curioso – ele já previra no penúltimo episódio de Breaking Bad ao dizer que, “com sorte, daqui a um mês serei gerente de uma loja de Cinnabon em Omaha”. Não poderia ter sido mais preciso em seu palpite. No entanto, além de criar esta continuidade divertida, a introdução remete diretamente aos procedimentos de preparo da metanfetamina que dominavam o original, substituindo a droga pela massa que serve de matéria-prima para a loja gerenciada por Saul em sua nova identidade.

E é aqui que a direção de Vince Gilligan já começa a exibir o mesmo apuro visual com o qual já nos acostumáramos em Breaking Bad, já que constantemente traz nosso anti-herói sufocado, claustrofóbico, esmagado entre elementos cenográficos que ressaltam seu estado psicológico e emocional – e, em certo instante, chegamos mesmo a ter a impressão (graças às persianas da janela) de que ele se encontra em uma espécie de prisão domiciliar. 

better01 better02 better03                                                  better04

Envelhecido e com uma calvície evidente, Saul é agora um homem triste e decadente – e, portanto, não é surpresa (mas é, sim, tocante) constatar como, para se manter minimamente interessado em viver, ele recorre ao seu passado, assistindo aos seus antigos comerciais que, não por acaso, projetam um pouco de cor sobre os grandes e feios óculos que ressaltam seu envelhecimento.


better05
                                          better06

A partir daí, Gilligan nos leva ao período pré-Breaking Bad, quando encontramos Saul nos passos iniciais de sua jornada – e é notável perceber a calma com que o realizador conduz a narrativa: sem jamais ceder ao impulso de atender os desejos do espectador de reencontrar o personagem, o diretor investe numa cena com ritmo calculado que usa os sons diegéticos (o ranger das cadeiras, o ar condicionado, a tosse dos figurantes) para despertar a curiosidade do público com relação ao que estamos vendo (um recurso que ele voltará a utilizar em uma das cenas finais, quando aposta no silêncio, no som do lampião e no tiquetaque de um relógio para salientar a solidão de Saul ao tentar dialogar com aquele que, presumo, é seu irmão). Porém, mais do que isso: frequentemente, Gilligan e o diretor de fotografia Arthur Albert usam lentes grandes angulares que, associadas aos planos abertos, trazem Goodman pequeno, diminuído, em ambientes que parecem engoli-lo e ressaltar sua insignificância, mais uma vez levando o espectador a perceber, apenas visualmente, o estado psicológico do personagem.

better07 better08 better09 better10 better11 better12 better13

Mas esta calma não encontra-se presente apenas na abordagem da direção; está também no roteiro (de Gould e Gilligan), que não se apressa em explicar qual a relação entre Saul e Chuck (vivido por Michael McKean, que, como Bob Odenkirk, tem uma carreira toda construída na comédia, embora seja também eficiente no drama), qual a situação que levou este último a se afastar da empresa de advocacia ou mesmo em esclarecer quem é a mulher com quem Saul divide um cigarro e parece habituada a vê-lo descontar sua frustração na lata de lixo do estacionamento (num eco claro das explosões que levavam Walter White a socar o secador do banheiro).

Aliás, é nesta sequência que enfoca a visita de Saul ao sócio do irmão (de novo: presumo que seja irmão) que o piloto de Better Call Saul traz aquele plano que me fez inclinar para a frente na cadeira e prender a respiração ao perceber que estava mesmo assistindo a uma nova criação dos responsáveis por Breaking Bad:

better14

Em primeiro lugar, a metáfora visual pode ser óbvia, mas não deixa de se tornar memorável especialmente graças à maneira com que é apresentada: naquele ponto do episódio, já percebemos que Saul não apenas se encontra no fundo do poço, mas se sente no fundo do poço. Sente-se – claro – um refugo humano, um lixo. Assim, não só a disposição em cena da lata e de Bob Odenkirk, mas especialmente as cores similares refletidas no metal e do terno do sujeito, complementadas pelo amarrotado da calça e da lata, apresentam a comparação de forma esteticamente irrepreensível, mesmo arrebatadora.

E se Breaking Bad transformou os planos em contra-plongé em marca visual registrada, aqui Gilligan parece estar introduzindo o contrário, frequentemente pontuando a narrativa com planos plongé que – vamos observar nos futuros episódios – podem se tornar uma assinatura da série nova (não que fossem raros na anterior, que inclusive se encerra com um plongé inesquecível).

better15 better16 better17

Contando ainda com as pontas de dois personagens marcantes de Breaking Bad (um não é surpresa, já que Jonathan Banks é o segundo nome listado nos créditos; o segundo, porém, representou um presente divertido), Better Call Saul é um início promissor que sugere a capacidade de Gilligan, Gould e Odenkirk de levar o espectador a enxergar Saul Goodman a partir de novos ângulos – o que, se concretizado, não apenas renderá uma ótima diversão como também, em retrospecto, enriquecerá ainda mais as cenas envolvendo o personagem em suas interações futuras com o homem que eventualmente destruirá sua vida: Walter “Heisenberg” White.

Procura-se um Amor para um Pacto Suicida

postado em by Pablo Villaça em Variados | 17 comentários

“Procura-se um amor para um pacto suicida.”

Ela inclinou-se em direção ao monitor e releu a frase. Seus olhos subiram para o endereço do site e não notaram nada de especial: tratava-se de um blog pessoal hospedado em um servidor gratuito, desses que oferecem recursos básicos a qualquer internauta, e cujo título – “Miscelâneas” – indicava que seu autor não quisera gastar muito tempo pensando ao batizá-lo.

Com o mouse, desceu a página até encontrar os títulos de posts anteriores. “Carta de Despedida: Um Rascunho”. “Exausto, mas ainda aqui”. “Escrevendo da cama”. “Time de merda”. “Outro dia 100 horas”. O autor obviamente não escondia sua depressão (e nem sua frustração ocasional com o futebol), o que explicava o aparente fracasso de audiência do blog: o único post que trazia algum comentário – aquele sobre futebol – se resumia apenas a uma provocação feita por um anônimo que escrevera, em caixa alta, o nome do time rival ao do autor.

Ela retornou ao alto e leu o breve post.

Procura-se um amor para um pacto suicida.

Mineiro de meia-idade ou quase (43 anos) busca parceira que o ajude a transformar esta idade em número final no obituário.

1,76m, 78 kg, autônomo, no processo de agrisalhar e fã de melancolia.

Sexo não é necessário, embora não seja necessariamente descartado.

Interessadas devem enviar email para pacto@dmm1.com.br para agendar encontro. Fotos não são pré-requisito.”

Recostou-se na cadeira e olhou para o teto da cozinha escura de seu pequeno apartamento. A mesa de plástico que ocupava o canto ao lado da geladeira tremeu levemente quando esticou as pernas e empurrou por acidente sua base frágil, derramando um pouco do vinho que servira generosamente em um copo de requeijão. Ela passou a mão sobre o líquido, espalhando-o sobre a superfície, e, com os dedos agora cheirando a álcool, clicou sobre o endereço do sujeito misterioso e começou a escrever um rápido email se apresentando.

——————————————– x ——————————————–

Marcaram em um McDonald’s do centro da cidade às 16 horas de uma terça-feira. Ao entrar na lanchonete, ela vistoriou rapidamente as mesas de canto e logo o viu: ele vestia uma camisa marrom sem estampas e, como dissera que faria, lia um grosso volume de contos de Patricia Highsmith. Como ainda não havia sido notada, aproveitou para estudá-lo rapidamente: tinha uma barba não muito volumosa, usava óculos que o envelheciam um pouco e não era especialmente belo ou terrivelmente feio. Parecia cansado, mas, apenas por ler seus posts, já sabia que ele provavelmente sugeria exaustão mesmo depois de dormir por horas.

Ela passava a mesma impressão. Uma impressão correta, já que de fato se sentia exausta o tempo todo.

Hesitou por alguns segundos, ainda cogitando a possibilidade de voltar à sua cômoda solidão, mas então ele ergueu a cabeça e a viu.

Ela se aproximou enquanto ele se levantava e dizia seu nome com uma entonação de pergunta confirmatória. Ela acenou. Sabia que a maioria das pessoas teria sorrido ao menos levemente, como um aceno de cordialidade e reconhecimento, mas não o fez. Não sorria muito e não via motivo para esforçar-se agora – mesmo sabendo que apenas por saber que deveria ter sorrido acabaria se sentindo inadequada ao refletir sobre aquele encontro mais tarde. E tinha certeza de que revisitaria tudo várias vezes, compulsivamente, querendo ou não. Era sempre assim.

Sentou-se diante do homem, que fechou o livro e o empurrou para o canto da mesa.

- Quer comer algo? Tomar? – ele perguntou, também sem sorrir, embora se esforçasse para parecer simpático e receptivo.

- Não, obrigada.

Ele olhou na direção do balcão e, em seguida, para o copo de refrigerante à sua frente.

- Eles normalmente não se importam que eu fique aqui muito tempo, mas normalmente compro algo para evitar protestos. – explicou, quase se desculpando.

Ela se levantou sem dizer nada, comprou um guaraná e uma porção pequena de fritas e retornou à mesa. Apontou para as batatas e ele ergueu a mão direita e fez um aceno negativo.

- Como você achou meu post?

- Google.

Ele fez que sim com a cabeça. Poderia perguntar que tipo de pesquisa ela estava fazendo para chegar ao seu breve anúncio, mas sabia exatamente o que ela estivera buscando. Na verdade, ele contava com isso e, na tag oculta do post, colocara palavras e expressões-chave como “asfixia”, “cortar pulsos”, “enforcamento” e assim por diante a fim de aumentar as chances de que seu post fosse encontrado pelas pessoas certas. Ou “certas”. Ele mesmo não se decidira sobre as aspas.

- Eu tentei comprar um anúncio em jornais, no Facebook e mesmo no Google, mas ele foi recusado por causa do conteúdo, que consideraram “questionável”. Por isso fiz o post. – ele pensou em explicar também sobre as palavras ocultas incluídas, mas julgou que ela não se interessaria.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

- No seu email… você perguntou se o texto deveria ser interpretado literalmente…

- Sim.

- Pois é, achei melhor explicar pessoalmente porque às vezes… não sei. Sinto que ao escrever posso parecer estar sendo irônico quando não quero. O que é curioso, porque pessoalmente sempre que tento ser irônico ninguém percebe e me leva a sério.

- Ok.

Ela sabia que não estava sendo exatamente calorosa e nem facilitando a conversa, mas não conseguia agir de outra maneira – particularmente agora, que estava consciente de sua postura rígida. Se tentasse soar simpática, acabaria parecendo agressiva. A velha história. Sempre assim. Etc.

- Enfim. Sim, literalmente. O post, quero dizer.

Ele tomou um pouco do refrigerante e suspirou.

- Eu deveria ter sugerido outro lugar. E outra hora. Falar disso num McDonad’s durante o dia… não me parece certo. Fico com medo de que pareça prosaico ou tolo. Aliás, vai parecer prosaico e tolo.

- Depressão não combina com a luz do dia.

Ele sorriu.

- Não, não combina.

Ela se mexeu na cadeira.

- Eu tenho um motivo bem claro para perguntar se você estava sendo literal.

Puxou as mangas da blusa e estendeu os dois braços sobre a mesa. Ele estudou as longas cicatrizes que subiam verticalmente a pele da moça, das mãos aos antebraços.

- Você cortou na direção das veias. Nos dois braços. Muito mais do que precisava. Estava mesmo determinada.

- Sim, estava.

- E o que aconteceu?

- Meu primo. Decidiu visitar meu irmão sem saber que ele não estava em casa. E a porta da área de serviço ficava sempre destrancada.

Ela cobriu novamente os braços e os trouxe para perto do corpo.

- E você não tentou de novo?

- Não. Meus pais ficaram muito perturbados. Sempre que eu começava a pensar seriamente no assunto, pensava nos dois e desistia. E aí o tempo foi passando e fui me acomodando.

- Eles ainda são vivos?

- Minha mãe é. Mas eu não a vejo há alguns meses. Ela mora em outra cidade, está sempre com meu irmão e meus sobrinhos. Hoje seria mais fácil. Eu acho.

Ele tamborilou na mesa.

- Eu nunca tive coragem. De tentar, quero dizer. Já pensei muito nisso, claro, mas nunca tentei. O máximo que fiz foi fazer um laço com meu cinto, amarrar no box do chuveiro e prender meu pescoço para… não sei, ver qual era a sensação. Mas não fui adiante. – depois de uma pausa, acrescentou: – Mas escrevi minha carta.

- Eu li o rascunho no seu blog.

Ele riu.

- Aquilo? Não. Aquilo foi só uma brincadeira. É muito ruim. Minha carta verdadeira é bem melhor.

Ela abriu a boca para dizer algo, mas se manteve em silêncio.

- O quê?

- Nada.

- Não, por favor. Diga.

Ela o encarou e, embora temesse irritá-lo ou magoá-lo, decidiu ser honesta.

- Só não entendo a necessidade de deixar uma carta. Matar-se já não é uma declaração suficientemente forte? Por que tentar explicar algo que ninguém vai realmente entender? Quero dizer… eles vão compreender que estávamos sofrendo, claro. Se não estivéssemos… bom… não iríamos nos matar. Mas o conceito de uma carta de despedida sempre me soou como um exercício de egocentrismo. Um último pedido de atenção. Um “olhem pra mim!” pós-vida. Acho bobo. Adolescente. Sempre penso que toda carta de suicídio deveria terminar com um “Vocês vão sentir minha falta?” seguido por dois quadradinhos com as opções “Sim” e “Não”.

- Eu pensei em incluir isso.

Ela o encarou chocada.

- Eu estava brincando. Eu disse que era levado a sério pessoalmente mesmo quando não quero.

Uma funcionária da lanchonete se aproximou e perguntou se poderia retirar a bandeja, que ainda trazia a porção de fritas intocada.

- Não, obrigada. Ainda estou comendo.

A garota se afastou desinteressada.

- Mas sobre seu post… – disse ela, salientando as reticências.

- Sim. Sobre meu post. É aquilo. Eu… quero alguém pra dividir minha morte.

- Você falou de “um amor”.

- Eu sei. É difícil explicar.

- Tente.

Ele pegou o livro que deixara sobre a mesa.

- Na verdade, estou lendo um livro de poesias de Neruda. Mas achei que seria muito clichê trazê-lo. “O depressivo fã de poemas”, coisa e tal. Gosto de Highsmith, mas já li esse livro.

Silêncio.

- Você conhece Pablo Neruda?

- Já li alguns poemas. Normalmente, sobre amor. Não consigo me identificar muito.

Ele folheou o volume que tinha em mãos.

- Eu entendo. Ele realmente escrevia magnificamente sobre o amor. Se posso dizer que entendo como alguém apaixonado se sente, é porque li Neruda. Aliás, já sonhei muito sobre me sentir assim, amando alguém como ele descreve em seus versos. Mas há uma passagem em um de seus poemas que me trouxe… vamos dizer… uma epifania. Acharia muito ruim se eu recitasse?

Ela balançou a cabeça.

- “Dois amantes felizes não têm fim nem morte / Nascem e morrem tanta vez enquanto vivem / São eternos como é a natureza.”

Ergueu os olhos e a encarou, envergonhado.

- Sempre fico pensando que o certo seria “tantas vezes”, mas todas as versões que li traziam “tanta vez”. Não sou um gramático, claro, mas sei o que soa certo aos meus ouvidos. – fechou o livro que usara apenas como objeto de cena mesmo sem perceber. – O que importa é que eu sei que nunca vou ser feliz. Não está no meu genoma. Já consultei psiquiatras, tomei todo tipo de antidepressivo e pratiquei todo tipo de atividade física que supostamente deveria estimular endorfinas ou seja lá o que for que me tiraria desta nuvem de terror. Não, estou preso a quem sou e ao que sinto. Mas talvez – só talvez – eu possa ir embora do lado de alguém que amo.

- Pra que a companhia? É realmente necessária?

- Se não fosse, você não estaria aqui.

——————————————– x ——————————————–

Diziam que passear pelo Parque Municipal era algo que trazia paz interior. Ao menos, era o que sua colega de musculação garantia – uma das tantas atividades que passara a praticar na esperança de ver o movimento exterior se traduzindo em algum tipo de mudança interna. No entanto, cá estavam e o parque não parecia fazer qualquer diferença.

- Ainda bem que saímos daquele McDonald’s. Eu estava sentindo que iria transmitir meu desejo de morte através de todos os “McLanche Feliz” dali.

A moça chutou uma pedrinha e se manteve em silêncio.

- Você não fala muito, né?

- Não vejo necessidade.

Caminharam por mais alguns minutos sem que palavra alguma fosse dita.

- Eu nunca tentei me matar. Sempre tive pavor da ideia de enfrentar a morte sozinho.

Ela sorriu pela primeira vez e se viu surpresa com isso.

- Você fala da morte como se fosse uma entidade em vez do nada. Porque é isso que ela é. Nada. Um deixar de existir. Um sono do qual nunca se acorda.

- Mas você sonha enquanto dorme.

- Verdade. Então um sono sem sonhos. E, consequentemente, sem projeções ou ansiedades.

Ele parou de andar.

- Você realmente acha que é tão simples assim?

- Eu não sei. – ela passou a mão pelos longos cabelos. – Mas certamente é mais simples que lidar com esse sentimento de vazio todos os dias.

Ele a encarou e nada disse, o que levou a moça a prosseguir:

- Eu não acredito em vida pós-morte. Não acredito em Deus. Nada. Então a morte é um conforto, já que o nada é melhor do que essa angústia constante. Mas se existir alguma coisa depois… Vai ser um bônus. Então, por que temer encerrar tudo?

- Porque as coisas podem ficar melhores.

- Sim, podem, claro. Para os outros. E fico feliz por eles. Mas não para mim. Eu sei.

Uma criança passou por eles correndo e gritando “Pipoca!”. Segundos depois, a mãe obesa do moleque relampejou pelo casal. Nenhum dos dois notou as figuras.

- Eu também sei. Mas não quero morrer sozinho. Sou covarde assim.

Ela retomou a caminhada.

- Não é uma questão de covardia. Eu entendo sua busca por companhia. Tudo é mais fácil compartilhado. A questão é… por que “um amor”? Por que não apenas um pacto suicida? Dois conhecidos que entendem a dor um do outro e decidem ir embora juntos?

- É isso que te intrigou no meu post?

- Sim. Eu entenderia um “procura-se alguém para um pacto suicida”. Mas “um amor”?

Ele parou mais uma vez.

- Engraçado que diga isso. Eu li um verso, certa vez, que era atribuído a Neruda. Depois descobri que provavelmente havia sido escrito por um cara chamado Javier Velaza, que não sei quem é, mas que disse que “Se nada nos salva da morte, que ao menos o amor nos salve da vida”.

A garota olhou para o verde ao redor, como se tentasse se inspirar para responder. Ele jamais saberia, mas ela se frustrou ao perceber que a natureza permanecia um conceito incapaz de qualquer comunicação. Estava sozinha como de hábito.

- O amor, então, traria a força que você busca para desistir. É isso?

- Acho que sim. Morrer ao lado de alguém que amo, que me ama, mas que ainda assim não consegue prosseguir… seria mais fácil. Não concorda?

Agora foi ela quem retomou os passos.

- Não sei. Só sei que a ideia de morrer acompanhada me pareceu menos desesperadora. Menos patética. Menos trágica. Mas um “amor”? Não sei.

Ele pegou a mão da moça e a encarou.

- Mas podemos descobrir.

——————————————– x ——————————————–

Os três anos seguintes a surpreenderam. Jamais havia imaginado que poderia sorrir apenas ao perceber que em alguns minutos veria alguém – mas era exatamente assim que se sentia quando, às 19 horas, constatava que o namorado estava prestes a chegar em casa.

Os cinco primeiros meses não foram fáceis, claro. Ele se esforçava demais para conquistá-la, para ser agradável, para fazê-la rir. Por um bom tempo, enfiara na cabeça que aquilo não poderia dar certo e que deveria bani-lo de seu cotidiano, mas aos poucos ele realmente conseguira fazer com que ela o amasse. Passara a admirar seus esforços para ser um indivíduo minimamente agradável quando no ambiente de trabalho (mesmo que ela jamais houvesse tentado fazer o mesmo na escola na qual trabalhava como professora de Artes) e até mesmo se divertia ao vê-lo buscar ser engraçado. Ele era um péssimo contador de piada, mas ela sempre fingia rir ao ouvi-lo se esforçar.

Ele, enquanto isso, mal podia contar os minutos para chegar em casa. Desde que a convidara para dividir seu apartamento, há dois anos, o tempo no escritório deixara de ser um bem-vindo alívio diante da perspectiva de horas de solidão torturantes enquanto contemplava um mundo de dor e passara a representar séculos de distância da melhor coisa que já encontrara na vida.

Ela era capaz de fazê-lo rir com suas tiradas cínicas, com suas observações certeiras e com sua inteligência incrivelmente afiada. E beijá-la era tomar dez doses de 100mg de fluoxetina.

Sentia-se… feliz. E percebia que a companheira parecia mais leve.

Viajaram juntos. No verão, foram à praia e realmente se divertiram em vez de apenas observarem, incrédulos, multidões gordas saltando ondas. Conversaram sobre filmes, livros e peças de teatro. Debateram sobre política e o futuro do país.

O futuro do país, vejam só! O futuro! Antes uma ideia abstrata, inatingível e absurda, o futuro virara tema de discussão!

Muitas vezes, ele acordava no meio da noite e a observava dormindo. Ela parecia em paz, respirando pesadamente e com a expressão neutra, sem aquelas sobrancelhas erguidas em um arco de dor que ele se habituara a notar mesmo quando ela assistia à mais divertida das comédias. Ao vê-la assim, quase feliz em sua impassividade trazida pelo sono, ele sentia-se útil, necessário e consequentemente… feliz.

E isto o surpreendia imensamente.

——————————————– x ——————————————–

- Ah, eu gostei muito do filme!

- Fico feliz por você. – ele respondeu. – Eu achei uma merda. O diretor estava tão desesperado em arrancar lágrimas do público que fiquei com vontade de gargalhar no meio da sessão.

- Pois eu chorei muito.

- Porque você é depressiva, ora.

- Touché.

Riram, divertidos diante da cumplicidade oferecida pela depressão.

- Quer jantar? – ele perguntou ao sentir o próprio estômago roncar.

- Depois de um balde daqueles de pipoca?

- Você comeu quase tudo sozinha, egoísta.

Ela riu e o beijou no rosto.

- Por que não vamos para casa e eu te preparo um sanduíche daqueles que você gosta, com ovo, bacon e requeijão caseiro?

Foi a vez dele beijá-la.

- Excelente ideia.

——————————————– x ——————————————–

Ele fechou os olhos, soltou o mais longo dos “hummmss” que conseguiu e até mesmo bateu na barriga para demonstrar sua saciedade.

- Meu amor, você faz o melhor sanduíche da galáxia.

- Eu sei.

Ele pegou o prato e o levou à pia.

- Pode deixar que eu lavo as louças. – ofereceu-se, certo de estar sendo o melhor dos companheiros.

- Não, não precisamos.

Ele abriu a torneira, sorrindo (“Faço questão!”), até que percebeu, intrigado, a estranha concordância verbal. Interrompeu o fluxo da água e olhou para a namorada.

- Não… “precisamos”?

Ela o olhou com aquele sorriso que sempre parecia prestes a se quebrar.

- Não.

- E por que não precisamos? A faxineira virá amanhã?

- Não. Eu a dispensei.

Ele agora estava preocupado.

- Você dispensou a Cláudia? Sem falar comigo?

- Eu não queria traumatizá-la.

Merda. Ele sabia o que viria a seguir. Ainda assim, tinha que perguntar:

- Traumatizá-la?

- Ao achar nossos corpos.

Não. Não, não, não

- Você está brincando, certo? É uma piada.

Subitamente, ela ficou séria. Ele podia perceber algo se movendo dentro dela – como se ela estivesse se reajustando a uma realidade que não percebera antes.

- Por que seria uma piada?

- Você realmente está pensando em se matar?

- E você não?

——————————————– x ——————————————–

Ele passou a mão pelos cabelos e suspirou. Estavam conversando há cinco horas e a madrugada avançava. Inicialmente, ela parecera surpresa com seu choque diante da possibilidade de um suicídio duplo. Mas este choque eventualmente dera lugar à surpresa e à raiva.

- Não foi isso que você propôs quando nos conhecemos!

Ele se ergueu da poltrona.

- Eu sei que não foi. Eu sei.

Olhou para a sala do apartamento que dividiam. Nas paredes, fotos emolduradas de momentos que haviam dividido confrontavam o desejo que ela tinha de impedir que novos ocorressem.

- Está vendo aquele retrato?

Ela seguiu a direção do dedo que ele estendia para a parede.

- Somos nós dois em Natal.

- Sim.

- E?

- Você não estava feliz?

- Na medida do possível, sim.

“Na medida do possível.”

- Você não me ama?

- Muito.

- E…?

- “E”? “E”? – ela ergueu a voz. – “E” que eu achei que esta era justamente a questão principal. Morrer ao lado de alguém que se ama.

Ele não podia acreditar no que ouvia. Ela realmente queria que morressem. Naquela noite.

Ergueu-se e foi até a janela. Olhou para a cidade adormecida e subitamente se lembrou da velha sensação de ser um dos únicos seres despertos na capital naquele instante. Mais: um ser lidando com questões urgentes de sobrevivência. Chegar vivo até a manhã seguinte ou sucumbir? Há três anos não pensava assim.

- Eu… não mudei nada para você? – perguntou, sentindo-se prestes a chorar.

Ela o abraçou por trás. Era um abraço quente, sincero, íntimo.

Real.

- Você mudou tudo.

Ele sentiu o calor da moça em suas costas. Sua respiração pesada. Sem nem precisar olhar para seu rosto, percebeu que ela queria chorar.

- E é isso que me dói tanto. Saber que você mudou tanto e não mudou nada. Porque meu amor por você é tão grande quanto minha vontade de morrer.

Não podia ser.

Era.

- Você… quer mesmo se matar? Ainda?

- Claro que eu não quero. E coloque aspas gigantescas em volta de “quero”.

- Mas ent…

- Eu queria envelhecer ao seu lado, seu idiota. Ter filhos. Netos. Carreira. Memórias. Realizações. Fotos. Arquivos.

- Mas ent…

- Você precisa realmente me perguntar isso? Sua memória é tão curta?

Ele fechou os olhos. Buscou se lembrar de como se sentia nos meses… não… nos anos antes de conhecê-la. No desespero constante que sentia. No vazio que o oprimia como se existisse. Na dor insuportável que o levou a publicar um chamado público para que alguém viesse ajudá-lo a se matar.

E, surpreso, percebeu que não conseguia. Sabia que havia sofrido muito, mas o sentimento parecia distante e irreal. Era como o rosto de seu avô, que ele sentia conhecer, mas cujos traços fugiam de sua memória.

Estendeu o braço e tocou o rosto da amada.

- Eu te amo.

- Eu também te amo.

- E…?

- … esta não é a questão.

O que poderia ser a questão, então? Se ela o amava, por qu…

- Você se transformou numa dessas pessoas que perguntam “por quê?”? Mesmo?

- Eu não ente…

- Eu esperava mais de você.

Ela se levantou, olhou para o namorado com desapontamento e foi para o quarto.

——————————————– x ——————————————–

Ele passou as semanas seguintes em um estado de tensão indizível. Ligava para casa a cada pausa no expediente e jamais a deixava sozinha se pudesse evitar. Voltaram a discutir “O Pacto” mais algumas vezes, mas ela finalmente parecera deixar a questão de lado.

Mais do que isso: parecera relaxar. Uma postura que ele não reconhecera na companheira mesmo em seus momentos mais felizes.

Aos poucos, ele se obrigou a assumir um otimismo inédito. Seriam felizes. Teriam filhos. Netos. Futuro. Quisesse ela ou não. Mas ela parecia querer.

Ao menos, não parecia rejeitá-lo.

Vez por outra, surpreendia a garota olhando para o vazio.

- Não é nada. – ela o tranquilizava.

- Mesmo?

- Sim. Mas não me apresse.

Ela não queria ser empurrada em direção ao futuro que nunca cogitara existir.

——————————————– x ——————————————–

Certo dia, quase dois anos depois daquela dolorosa conversa, ela o abraçou subitamente e disse em seu ouvido:

- Obrigada.

Ele a apertou longamente. Se a conhecesse menos, perguntaria “por quê?”, mas precisava apenas fazer outra indagação:

- Mesmo?

- Mesmo.

Beijou a moça longamente.

E pela primeira vez sentiu que envelheceriam juntos.

——————————————– x ——————————————–

Quando a encontrou, após voltar de uma semana de viagem de trabalho, ela estava começando a cheirar mal.

Ao abrir a porta da frente do apartamento, percebeu o odor, mas supôs se tratar de lixo acumulado, de um ralo entupido ou de sabe-se lá o quê. Cinco passos, porém, despertaram seu alarme interno. Aquilo não era lixo.

Largou a mala no corredor de entrada e gritou o nome da mulher. Duas vezes. Três. Cinco, já com a voz trêmula.

Disparou na direção do quarto.

Vazio.

Gritou novamente. Nada. Nada. Nada.

O banheiro.

Abriu a porta.

Seu futuro era um cadáver roxo que fedia.

——————————————– x ——————————————–

Ela parecia… em paz? Não, essa não era a palavra adequada. Seu rosto revelava dor e angústia. Os olhos abertos, embaçados e sem vida, continham a dor do mundo. Ainda assim, ela parecia…

Descansar. Isso. Estava descansando.

Pela primeira vez, não parecia exausta.

Ele a chamou pelo nome mesmo sabendo que não responderia. Queria apenas ouvir aquela palavra que, em poucas sílabas, passara a representar seu mundo.

Não. Não, não, não.

Seu amor não era mais um ser que existia.

Ela havia cortado os pulsos. Verticalmente, como antes. Desta vez, porém, sabia que nenhum primo chegaria. Sangrara até perder a consciência e a vida. Escorregara levemente para dentro da banheira, mas os olhos ainda se encontravam alguns centímetros sobre a superfície. Não mergulhara totalmente. Não havia se afogado.

Isto era uma espécie de estranho consolo que ele não conseguia justificar para si mesmo.

“Meu amor. Meu amor.”

Foi então que viu o papel na pia.

——————————————– x ——————————————–

“Meu amado,

uma carta de despedida.

Eu sei. Que clichê, não? E escrita por mim, que tanto condenava este tipo de recurso patético de autopiedade travestido de prestação de contas póstuma.

Mas o fato de escrever estes parágrafos será, espero, algum consolo. Um símbolo do quanto me importo com você. Pois me importo. Muito. É o meu amor. Aliás, amor que jamais acreditei que sentiria.

Você me fez feliz, creia. O problema é que esta felicidade tinha um máximo. Meu máximo. Um teto que eu não conseguia superar. Eu tentei, acredite. Muito. Tentei sentir uma felicidade que apenas adolescentes apaixonados sentem. Que Audrey Hepburn sentiu em Bonequinha de Luxo. Que Gena Rowlands sentiu ao reconhecer o marido através da névoa do Alzheimer em Diário de uma Paixão.

Você se lembra de como ela e James Garner terminam naquele filme, não lembra?

Pensei muito sobre isso. É o final perfeito: um casal que se ama partindo junto na viagem definitiva.

Claro, eles eram muito idosos. E doentes. Você é jovem (ok, relativamente) e saudável. Não seria justo exigir o mesmo desfecho.

Mas estou doente, meu amor. Muito. É um câncer em minha alma que já provocou metástases profundas em minha mente. Um câncer que provoca dores reais que você conhece muito bem – mas das quais você conseguiu se livrar.

Não, não sou a responsável. Você pode achar que sou, mas estará errado. VOCÊ extirpou a desesperança do seu cotidiano. VOCÊ redescobriu sua capacidade de viver, de sorrir, de sonhar. Eu fui apenas um meio. Uma desculpa, digamos. Assim como me amou, amará outra. Talvez outras. Espero que sim. Eu detestaria destruir o homem no qual você se transformou nos últimos anos.

E não se iluda: você também me transformou. Eu jamais sonharia em ser feliz como fui e como você me fez ser.

Mas há aquela dor que não vai embora. Aquele vazio. Aquela desesperança. Aquela opressão que parte de dentro e parece tentar me fazer explodir. Uma dor que fluoxetina não cura.

Uma dor que cobre a lembrança que tenho de seu rosto quando está longe. E que às vezes me faz ressentir nossa história e te culpar – injustamente – pela esperança que me trouxe.

Uma dor que me impede de continuar.

Mas vejo agora que você pode. Não: que você deve. Porque tem uma força, uma perseverança, um núcleo (na falta de palavra melhor) que me falta.

Você é meu legado.

Eu sou, em memória, o seu.

E te amo profundamente.

E agora tenho que ir.

Um beijo carinhoso e cheio de esperança para o seu futuro, meu amor.

E obrigada pelas lembranças que construímos e também por aquelas que quase construí.”

Ele deixou a carta cair.

Chorou ao lado do corpo da amada por quase uma hora e enfim ligou para a polícia.

A Arte Em Luta

postado em by Pablo Villaça em Política, religião, Variados | 6 comentários

Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica – e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível – e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

Fotografia no Cinema: O Melhor de 2014

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Vídeos | 1 comente

Melhores Momentos de 2014 (ou série Você em Cena #43)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Série Você em Cena | 21 comentários

Começando em 2009, passei a compilar uma lista daqueles que julgo alguns dos melhores momentos que o Cinema ofereceu ao longo do ano: gestos, movimentos de câmera, cenas específicas que permanecerão em minha memória mesmo quando eu já tiver esquecido todo o resto a respeito dos longas que os contêm. Nem sempre consegui manter a disciplina necessária para me lembrar de atualizar a lista (os anos anteriores: 2012, 2011, 2010 e 2009; não fiz em 2013) e, portanto, vários filmes que trazem instantes fabulosos não aparecerão abaixo – e para isso há o espaço de comentários: para que você enriqueça este pequeno compêndio.

Nem preciso dizer que há SPOILERS a seguir, né?

Alguns dos Melhores Momentos que o Cinema Ofereceu em 2014

A princesa Elsa celebra a liberdade que a solidão lhe confere, em Frozen, e constrói seu palácio de gelo enquanto canta “Let it Go”.

Ao despedir-se da filha, em Pelos Olhos de Maisie, Beale é abraçado pela garota e exibe um raro momento de compreensão acerca do próprio egoísmo antes de partir.

Val Kilmer imita Marlon Brando por alguma razão misteriosa em Virgínia.

Inutilizado pelos efeitos das drogas que havia tomado, Jordan Belfort tenta chegar ao seu carro em O Lobo de Wall Street.

Depois de chamar o agente Patrick Denham para uma conversa em seu iate, O “Lobo de Wall Street” tenta criar uma ligação cordial com o sujeito, mas o papo eventualmente se torna hostil e amplifica o embate entre os dois.

Ao se ver trocada pela amante do marido, a Sra. H acompanha o homem até a casa da garota, em Ninfomaníaca, levando os três filhos para conhecer o apartamento da moça.

Em pânico ao ver que Samantha desapareceu de seus equipamentos, Theodore dispara numa corrida desesperada pelas ruas, em Ela.

Após ouvir com expressão enlevada enquanto o personagem-título canta uma música, o empresário Bud Grossman faz um comentário inesperado em Inside Llewyn Davis.

Logo no início de Trapaça, vemos Irving, gordo e careca, compondo a aparência vaidosamente antes de sair do quarto para ajudar a incriminar o prefeito Carmine.

Em Tudo por Justiça, Russell Baze agacha ao lado de Harlan DeGroat, assassino de seu irmão, que se encontra baleado na grama. Depois de dizer quem é, ouve DeGroat responder sobre seu irmão: “Garoto durão”.

Em Philomena, a personagem-título diz perdoar a freira que a manteve separada do filho, sendo seguida pelo jornalista Martin Sixsmith, que, por sua vez, afirma ser incapaz de fazer o mesmo.

Num supermercado, em Clube de Compras Dallas, Ron Woodruff obriga um velho amigo homofóbico a apertar a mão da travesti Rayon, que se espanta com o gesto do outro.

Em 12 Anos de Escravidão, Solomon tenta se manter equilibrado na ponta dos pés, para evitar o estrangulamento, enquanto os demais escravos e seus mestres caminham ao seu redor.

Em um longo plano, o “mestre” Epps obriga Solomon a açoitar Patsey em 12 Anos de Escravidão.

Diante do espelho, Alex Murphy descobre o pouco que restou de seu corpo em Robocop.

Do bote salva-vidas, o Homem vê, em triste silêncio, seu barco afundar lentamente em Até o Fim.

A queda brutal dos quatro soldados em O Grande Herói em um imenso declive.

A discussão no quarto do hotel, em Ninfomaníaca Volume II, que deixa Joe cercada por dois pênis raivosos.

O confronto final na pizzaria em Alemão.

A sequência da Criação em Noé.

Ignorando que o documentário Em Busca de Iara deveria ser sobre sua tia, a fascinante Iara Iavelberg, a diretora Mariana Pamplona ouve sua mãe narrar uma passagem da vida da irmã e, então, pergunta: “Você estava grávida de mim, né?”.

O olhar dolorido de Carolina Dieckmann em Entre Nós.

Embora alcançada pela teia do Homem-Aranha, Gwen Stacy ainda atinge o chão com força suficiente para matá-la em O Espetacular Homem-Aranha 2.

Depois de brincar com a resistência de Léo em tomar banho nu ao seu lado, Gabriel se mostra constrangido diante da própria excitação quando o rapaz se despe em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho.

Gregório Fortunato penteia o cabelo de Vargas em Getúlio.

Durante uma discussão entre Donato e Konrad, em Praia do Futuro, uma tempestade de neve começa a cair subitamente.

A sequência final da projeção nas pedras em Uma Passagem para Mário.

A introdução de Branco Sai Preto Fica, quando vemos Marquim contar na rádio sua última noite no Quarentão.

Os olhos serenos de Tato Gabus Mendes em A Grande Vitória.

A lágrima que escorre do olho esquerdo de Céline, em O Passado.

Dois homens se contemplam assustados sob a superfície aquosa na qual mergulharam ao seguir a criatura vivida por Scarlett Johansson em Sob a Pele.

A sequência do tiroteio na cozinha envolvendo Mercúrio, em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

O grito chocado e dolorido de Malévola ao despertar e descobrir que suas asas foram arrancadas.

As duas crianças enxergam os espíritos de todos os antigos donos dO Espelho.

O plano final de O Homem Duplicado.

Surpreendido por dois humanos em O Planeta dos Macacos: O Confronto, Koba, inicialmente com expressão raivosa, finge ser um macaco comum para enganar os inimigos.

Peter Quill e Gamora flutuam no espaço, à beira da morte, em Guardiões da Galáxia.

Feliz com os resultados de seu plano para destruir a vida do marido, Amy dá um pulinho de alegria e estala os calcanhares em Garota Exemplar.

Frustrado diante do desfecho de seu cuidadoso plano, o agente vivido por Philip Seymour Hoffman grita enfurecido em O Homem Mais Procurado.

Mason leva os filhos para roubar propaganda de campanha de McCain, em Boyhood.

Katniss canta à beira de um lago em Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1.

As experiências de Judite ganham vida em uma animação no terceiro ato de Boa Sorte.

Os elfos saltam sobre a barreira de escudos formada pelos anões e partem em direção aos orcs em O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos.

Lou Bloom entra em uma casa na qual um massacre ocorreu e registra a tragédia em vez de solicitar ajuda, em O Abutre.

Moisés e Ramsés se encaram enquanto o Mar Vermelho se fecha sobre eles em Êxodo: Deuses e Reis.

Homens Negros Não Podem Correr

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Um deles vestia uma camisa do Atlético; o outro, uma camiseta cinza. Ambos usavam bonés. Tinham em torno de 30 anos. Caminhavam por uma rua do Caiçara, em Belo Horizonte, quando viram o ônibus que iriam pegar se aproximando e, num impulso, dispararam em direção ao ponto.

Mal tinham corrido quatro metros quando foram abordados por um camburão da PM e viram armas saindo da janela do veículo e apontadas para suas cabeças.

Eles haviam se esquecido de uma regra básica de nossa sociedade: homens negros não podem correr.

Ao menos, não em público.

Quatro policiais desceram e, com as armas ainda apontadas para os dois amigos, puxaram seus braços com força – braços que os dois sujeitos já haviam levado automaticamente para trás da cabeça.

O motorista do ônibus parou atrás do camburão enquanto os aspirantes a passageiros eram revistados com brutalidade.

Do meu carro, assisti atônito à cena. Inicialmente assustado – não em função dos “ameaçadores” corredores, mas ao ver armas apontadas em público -, logo vi o susto ser substituído por imensa revolta. Era patente o racismo envolvido: fosse eu o homem correndo pela rua, os PMs dificilmente me abordariam daquela maneira.

No entanto, o que mais me doeu não sequer o ato da polícia, mas a reação dos dois amigos: ao verem armas apontadas para seus rostos, eles simplesmente fizeram um aceno negativo resignado com a cabeça, como se dissessem “Não é possível; será sempre assim?”, e assumiram a postura para a revista sem que ninguém ordenasse.

Revistados, entregaram os documentos e apontaram para o ônibus, explicando por que haviam corrido. Os policiais se entreolharam, fizeram um comentário inaudível e atiraram os documentos de volta, quase com desprezo.

Do ônibus, o motorista acenou para os dois amigos num gesto de “venham!” e abriu a porta. Havia esperado por eles ao perceber o que ocorrera.

Também era negro.

Segui com o carro e passei ao lado da viatura. Havia esquecido de prender o cinto de segurança, mas ninguém me incomodou.

O Cinema em 2014

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Vídeos | Comente  

Como foi 2014 no Cinema:

Melhor que o Filme

postado em by Pablo Villaça em Livros | 1 comente

(Esclarecimento ético: Fernando Ceylão é um amigo. Dito isso, como verão abaixo, seu livro é muito foda – algo que pretendo discutir com adjetivos mais elegantes e convincentes do que o que acabei de empregar.)

Em “Melhor que o Filme”, o ator/humorista/roteirista/diretor Fernando Ceylão consegue um feito admirável: cria um livro multifacetado que experimenta não só com diversos gêneros, saltando de textos cômicos a outros mais dramáticos, como ainda brinca com a própria linguagem, fazendo comentários pontuais sobre o próprio texto (como ao manifestar seu prazer ao usar parênteses, por exemplo) e investindo na metalinguagem. Estes exercícios, aliás, já começam na contracapa, que traz a reprodução de pedidos de frases elogiosas para a própria contracapa, e se espalha para as orelhas do volume, que oferecem um conto sobre… orelhas.

O mais notável, contudo, é observar a segurança de Ceylão como contista: aqui, ele assume a voz e a personalidade de uma camisa polo para narrar sua vida na primeira pessoa; ali, adota os clichês tão comuns em matérias “jornalísticas” de veículos como a Caras para criar uma narrativa surrealista com toques de horror existencial ao mesmo tempo em que trata tudo com a superficialidade de uma revista que insiste em informar a idade e a profissão de seus personagens-celebridades. E, no entanto, nada disso soa como experimentação gratuita, já que, alimentando o humor e a lógica dos textos, surgem observações profundamente humanas e universais sobre nossas inseguranças, aspirações e também nossos pontos cegos diante da realidade alheia. Em certo texto, por exemplo (“A Espera”), Ceylão acompanha a ansiedade crescente de uma mulher que aguarda o telefonema de um possível paquera e, num texto que representa a fluidez dos pensamentos da personagem, traz momentos de humor que surgem justamente do reconhecimento de como somos capazes de pensamentos profundamente preconceituosos – e o fato de os rechaçarmos não elimina o fato de que nos ocorreram:

“Eu vou acordar a babá da Clarinha. Vou bater papo com a babá. Perguntar se na comunidade elas fazem alguma coisa pra esperar passar o tempo enquanto o homem não liga. Na comunidade não tem essas frescuras, elas vão lá e dão. A classe média é o problema. Rico e pobre vai e dá, vai e faz o que tá a fim. Até incesto pra eles, é… Ai, que horror.”

A passagem acima é um exemplo perfeito do estilo do autor: não só o uso da palavra “comunidade” é algo empregado com inteligência ao ilustrar a arrogância com que a patroa se apropria de um termo a fim de se sentir inclusiva e tolerante (o que o pensamento seguinte contradiz) como o “Ai, que horror” final escancara sua autocrítica tardia de classe média que adora se enxergar melhor do que é.

Além disso, o livro revela Ceylão como um escritor capaz de construções que – e aqui falo como alguém que vive de escrever – despertam profunda inveja. No conto “Um Romeu Feio”, por exemplo, ele discute seu carinho por “casais feios” (algo que, acreditem, ele desenvolve de maneira tão delicada que jamais se revela ofensivo) e pontua:

“O casal feio atravessa o mundo na calma dos que estão fora da competição.”

E imediatamente entendemos o que ele quer dizer enquanto apreciamos a bela analogia. Da mesma maneira, em outra passagem, ele nos apresenta a um sujeito que, para evitar brigas, deixa a namorada acreditar estar sempre certa – um dilema que ele traduz como:

“É como se eu namorasse um ditador, mas deixasse ele pensar que estamos numa democracia.”

Mas que isto não leve à impressão de que “Melhor que o Filme” é um apanhado de histórias centradas em torno da experiência do autor como homem branco heterossexual (ou seja: um privilegiado por natureza). Sim, em certo momento ele pode discutir como ter crescido na Tijuca moldou sua persona, mas em outros ele assume com naturalidade os pontos de vista de todo tipo de personagem, tratando-os com respeito e complexidade.

Enquanto desperta o riso.

Depois deste livro, Fernando Ceylão já pode seguramente acrescentar “Autor” aos vários substantivos separados por barras que abrem este texto, pois fez por merecer.

Melhor que o Filme, Fernando Ceylão
Memória Visual, 2014
174 páginas

Interestelar e a Exploração Espacial

postado em by Pablo Villaça em Vídeos | Comente  

Supercut.