Forma e Estilo – 4a. Edição – Brasília

postado em by Pablo Villaça em Curso | Comente  

Depois de três edições do Forma e Estilo em sequência, fiquei um mês fora e retornei temendo estar enferrujado. No entanto, embora estivesse lidando com uma turma grande, as aulas fluíram bem e os alunos de Brasília – como sempre acontece na cidade – se mostraram simpáticos e divertidos. Revi vários velhos conhecidos (mesmo que alguns deles fossem jovens, como João Golin) e conheci vários novos cinéfilos (mais da metade da turma não havia cursado o Teoria, Linguagem e Crítica). Ganhei livros, camisas e até um beijo agradecido da aluna Aline Crivelari – que agradecia justamente por ter conhecido o namorado, Carlos, indiretamente por minha causa (ele também estava na sala e não quis me agredir após o bem comportado beijo). Ri e brinquei com a inteligente Luísa (dona de três belas tatuagens) e pude conversar mais com Clarissa e Kacau, produtoras da Mostra BO (da qual sou curador) e agora alunas (Clarissa já havia feito o módulo 1).

E ainda pude passar uma semana em Brasília com minha irmã, meu cunhado e – mais importante! – minha sobrinha/afilhada Alice. Delícia.

Fiquei feliz também com o resultado da pergunta (que estou incluindo nas primeiras edições do Forma e Estilo) que pede que os alunos digam se consideraram o novo curso “inferior, similar ou superior” ao Teoria, Linguagem e Crítica: daqueles que responderam (ou seja: que fizeram ambos os módulos), 97,4% consideraram “similar ou superior”.

Como já fazia antes, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,41 (Terceira); 4,38 (Segunda); 4,54 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,75
Conteúdo: 4,67
Didática: 4,8
Estrutura do curso: 4,47

Média geral: 4,42

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,76.

Para concluir, a foto tradicional de formatura (clique para ampliar).

Bolsonaro no Cinema

postado em by Pablo Villaça em Brincadeiras, Política, Twitter | 25 comentários

Jair Bolsonaro entrou com um mandado de segurança para, acreditem ou não, ter o direito de pescar em uma estação ecológica. Se este sujeito fosse um vilão do Cinema, eu provavelmente o consideraria caricatural, undimensional demais para funcionar. Bom, ao menos ele é consistente: não tem respeito por nada nem ninguém, homem ou animal.

Sua visão de mundo é tão deturpada que acabei brincando no Twitter de imaginar sua percepção acerca de certos filmes e mesmo sua participação em alguns deles – e se quiserem deixar suas contribuições nos comentários abaixo, fiquem à vontade.

  • Bolsonaro, Malafaia e Feliciano teriam sido expulsos da Sonserina. “Há limite para tudo!”, protestariam os demais alunos.
  • Dizem que Sauron, ao receber a ficha de alistamento de Bolsonaro, a recusou por temer que ele trouxesse má fama ao seu exército de orcs.
  • Há alguns anos, Bolsonaro foi infectado pelo embrião do Alien. O bichinho morreu envenenado lá dentro.
  • Certa vez, Bolsonaro pediu uma audiência com o Imperador Palpatine. Após o encontro, este comentou com Vader: “Aquele cara é louco!”.
  • Bolsonaro ficou chateadíssimo quando os brinquedos foram resgatados da fornalha em Toy Story 3.
  • Até hoje Bolsonaro acha que A Lista de Schindler é uma comédia.
  • Bolsonaro desistiu de jogar Mario Bros quando descobriu que não havia a opção de selecionar o vilão Bowser como seu personagem.
  • Bolsonaro até hoje não entende por que Star Trek é narrado a partir do ponto de vista da Federação e não dos Borgs.
  • Bolsonaro acredita que Seven é um drama sobre um herói justiceiro perseguido por dois detetives psicopatas.
  • Bolsonaro acha que A Família Addams é um documentário sobre seus parentes.
  • Toda vez que Jason é morto ao final dos filmes Sexta-feira 13, Bolsonaro começa a chorar.
  • Uma vez, Freddy Krueger sonhou com Bolsonaro e molhou a cama.

 

Os seios de Angelina Jolie

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 83 comentários

Angelina Jolie é uma boa atriz. No entanto, quando lemos seu nome, o que nos vem à mente em primeiro lugar não são suas performances ou mesmo seu ativismo político, mas sua beleza física. Não é à toa que tantas atrizes ao longo dos anos buscaram papéis nos quais pudessem se esconder sob maquiagem pesada: ocultavam sua perfeição para que pudessem, paradoxa e finalmente, ser vistas sob esta. Somos rápidos em julgar pela aparência – e as mulheres, em particular, encontram-se frequentemente no banco dos réus: belas ou não, são avaliadas pela conformação dos ossos da face, pela pele sobre estes, pelo índice de gordura e pelas curvas. Só então – e talvez – nos preocupamos com sua essência como indivíduos.

Se isto ocorre com a secretária de nosso dentista, com a caixa do supermercado, com a advogada no fórum, com a médica no consultório e com a universitária em sala de aula, imaginem o escrutínio ao qual uma estrela internacional como Jolie é submetida – especialmente se considerarmos que seu corpo é também seu instrumento de trabalho. Para boa parte dos homens ao redor do planeta, ela não é sequer um ser humano, mas um conjunto agradável de seios, pernas e lábios. Sua personalidade é um inconveniente, não um atributo. Muitos destes machos vieram parar neste post porque o Google, enganado pelo título, respondeu suas consultas movidas a hormônio com um link equivocado.

Não que apreciar a beleza seja, por si só, algo que poderíamos classificar como “errado” – somos quem somos, afinal, e buscamos o belo por natureza. O problema surge quando esta beleza inspira o que temos de mais feio: a desumanidade.

Há pouco, Angelina Jolie anunciou, num artigo publicado no New York Times, ter se submetido a uma mastectomia dupla depois de descobrir, graças a uma avaliação genética, ter 87% de chances de desenvolver o mesmo tipo de câncer que matou sua mãe, Marcheline Bertrand, aos 56 anos de idade. Beirando os 40, Jolie decidiu que o risco era alto o bastante para justificar uma medida profilática extrema e retirou os seios. Pensou em sua saúde e em sua família, não na carreira ou na vaidade. Ser um cadáver bonito não é grande consolo.

Sua decisão, porém, imediatamente inspirou machos a saírem das cavernas em postura revoltada. No portal G1, por exemplo, os comentários – invariavelmente publicados por homens – iam do adolescente “Tomb Raider ficou sem peitos!” ao profundamente ignorante “Alguns parentes meus morreram de infarto. Agora tenho que tirar meu coração?”. Entre acusações de “falta de fé” por parte de evangélicos, Jolie também foi condenada pela “automutilação”.

Porém, foi mesmo em minha página no Facebook que li o comentário mais ilustrativo:

“Coitado do Brad Pitt.”

Por que o considerei tão simbólico? Porque, ao contrário dos demais, representa a reação imediata até mesmo de muitos homens que condenariam sem hesitar os demais comentários.

Há algum tempo, escrevi sobre minhas próprias falhas ao encarar as lutas femininas – e uma destas batalhas diz respeito justamente à tendência do universo masculino de encarar as mulheres como adorno, como peças de decoração ambulantes. Angelina Jolie é mãe de seis crianças, ativista, artista, feminista e, acima de tudo, um ser humano que naturalmente quer prolongar o máximo possível a já tão curta estadia no planeta – mas para boa parte dos homens, ela é simplesmente um brinquedo sexual com o qual fantasiar e o prêmio que Brad Pitt ganhou por ser Brad Pitt. E que agora está defeituoso, perdeu o valor, partiu-se. É um troféu amassado depois de cair da estante.

Aparentemente, 13% de chances de jamais desenvolver o câncer que já lhe custara a mãe representam uma estatística boa o bastante para justificar a manutenção de seus tão cobiçados seios. E como ela se atreve a arruinar a fantasia masculina daqueles que jamais se encontrarão sequer no mesmo edifício que a atriz – e muito menos em sua cama? Cerca de 400 mil mulheres morrem em função do câncer de mama por ano (há 50 mil casos novos por ano só no Brasil), mas, para muitos machos, estes números se traduzem não em vidas perdidas, mas apenas em 800 mil seios a menos no mundo.

Ler as reações à decisão absolutamente pessoal de Angelina Jolie é ter acesso a um mundo de chauvinismo e falta de empatia. É retornar não à década de 50, mas à Idade Média. É perceber a infinidade de homens que enxergam o corpo feminino como um objeto que possuem – mesmo que apenas para admiração à distância.

É esquecer que Angelina Jolie – ou qualquer outra mulher – é muito mais do que um par de seios.

Graças à Ciência, a atriz agora poderá respirar com mais tranquilidade por ter melhorado suas chances de acompanhar o crescimento dos filhos. Pena que não haja medida profilática (ou mesmo tratamento) para o câncer de caráter. Muitos homens se beneficiaram de algo assim.

Expressões de Busca (maio de 2013)

postado em by Pablo Villaça em Expressões de busca | 17 comentários

Fazia tempo que eu não publicava um post desses e estava com saudades. Então… expressões de busca atípicas que trouxeram leitores ao blog nas últimas semanas:

“curso pablo villaço” (De certa maneira, me senti mais macho com este sobrenome.)

“descreva seu pinto com o nome de um filme” (Há diversas variações desta busca trazendo visitantes para o blog. Que orgulho. )

“o que são as linguagem do cinematográfica” (Primeiro aprenda as linguagem do português. )

“7 adultos foram ao cinema e pagaram no total 30 reais p/entrar, sabendo q/algumas destas pessoas tinham mais de 60anos e por isso pagaram meia entrada quantas pessoas pagaram meia entrada?” (WTF?! )

“a fraternidade é vermelha pulp fiction” (Taí um crossover que eu quero ver. Imaginem o Juiz de Fraternidade dialogando com Jules. )

“a que horas abre a bilheteria do cinema uci new york” (10 da manhã. Horário de Brasília.)

“a vida da cantora simony” (De novo: WTF?!)

“assisitr filme dublado koringa” (Faz sentido.)

“assistirvidiosporno” (O sujeito que trata o Google como máquina de desejos.)

“ator christian bale chilique. ele pediu desculpas?” (Não.)

“baixar filme coreano dublado” (Qualquer um.)

“boas chineladas da tia” (Já vi fetiche de todo tipo. Mas este é novo. A não ser que ele queira dizer “das tia”.)

“cearence o raca insuportavel” (Seguidores de Lady Fontenelle.)

“cenas de cabelo no cinema” (Hum… preciso pensar. Estou certo de que há algumas.)

“cenas tórridas de o segredo de brokeback mountain” (Adorei o “tórridas”.)

“como convencer pais a assistir filmes legendados” (Fiquei com dó desse.)

“como escrever um email reclamando” (Oh, boy.)

“como eu me indetifico com o filme gradiador” (Nem eu nem Maximus falamos português, para começar.)

“como se diz obrigado no ceara” (“Ačiū.“)

“como surgiu opornografia no mundo ?ecomo devo acistir opornografia?” (Com as mãos odesocupadas.)

“copia da xoxotas” (Ok.)

“diario da punheta” (Querido diário, hoje me bateram.)

“festa da nina pablo villaca” (Sai fora, penetra!)

“filme de locadora de criança menino estrupando menina youtube” (Sai do meu blog. Agora.)

“porno soofilia mulheres transando com todos os tipo de animais” (Todos os tipos. TODOS. Isto, sim, é soofilia.)

“images das atris dos fiumes de roleudes” (HAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAH.)

“kero uma imposição de regras de higiene pessoal” (Credo.)

“mulher transando cmm biserro” (Esse povo.)

“nos dias de hoje de que forma os cidadaos alemães encaram a pessoa de adolf hitle?” (Não o abajur, mas a pessoa.)

“pablo villaça é gay” (Ok.)

“pergunta ou pesquisar na internete a opnião de 1 evangélico eum ateu e 1 catolico sobre o q eles axão sober a homossexualidade” (Deve ter tirado 10 no trabalho.)

“porque clero estava na cabana o pai dela em lost” (Levei alguns segundos para entender “clero”.)

“punheta corda” (Alguém está entediado.)

“qual seria os desrespeito a vida” (E aproveitando o ensejo: e aos português?)

“quanto esta custando pipoca e refrigerante jo via shooppg do barreiro para ver um filme?” (Gente que conversa com o Google. E que usa o buscador pra orçar encontro.)

“quero ter meu twitter com 30.000 seguidores” (Eu também.)

“seio fartos” (Agora imaginem o sujeito digitando isso no Google e clicando no “Estou com sorte”.)

“tentando esconder ereção foto” (E veio parar aqui. Revelador.)

“um filme que descreve um dia” (24 Horas: O Filme.)

“video punheta zimbabwe” (O fetiche mais específico do mundo.)

Fotos

postado em by Pablo Villaça em Fotos | 5 comentários

A casa de memórias

postado em by Pablo Villaça em Variados | 18 comentários

Meu nome é Mauro Girroto e sou um acumulador sentimental.

Um acumulador (ou “hoarder”, no inglês) é alguém incapaz de jogar fora o que quer que seja. Sente a compulsão da posse, de manter consigo o que deveria descartar. São pessoas cuja doença, por ter como sintoma a sujeira, frequentemente encontram o desprezo, a repugnância e o escárnio no lugar da compreensão, da compaixão e do impulso de ajuda. Entrar na casa de um acumulador é mergulhar em anos e anos de memórias em refugo.

Eu acumulo amores. Externamente, portanto, mantenho a fachada da normalidade; por dentro, porém, sou um depósito assustador de sentimentos guardados ao longo das décadas.

Curioso como nunca havia notado isso. Talvez estivesse ocupado demais amando para perceber o inchaço interno – e foi apenas ao tentar depositar mais um carinho frustrado em um recesso de dores que reparei estar repleto deles, carinhos. E delas, dores.

Examinei o que guardava, canto por canto, sonho por sonho, nome por nome. Eram – são -  muitos. E, assim como um acumulador se apavora diante da fantasia mórbida de morrer e ter seu segredo subitamente exposto ao mundo, experimentei o pânico de ver todos os meus amores jorrando da minha boca ou dos meus dedos sobre o teclado. Até que concluí que talvez não devesse me envergonhar de minha fraqueza, que me impede de descartar aquelas que amei.

Abro a porta que leva ao porão, no qual atirei sem perceber as dores mais antigas. Lá estava Gabriela, que amei aos sete anos e que pedi desajeitadamente em namoro através de um bilhetinho que trazia as opções “sim” e “não” e que ela me devolveu no dia seguinte com a segunda opção assinalada ao lado da observação “Minha mãe me disse que sou muito nova para namorar”. Chorei no banco de trás do carro de minha mãe, na volta para casa, mesmo sem entender direito o mecanismo estranho que me fazia sentir tão miserável sem alguma razão física. Trinta e um anos depois, olho do alto da escada e, lá embaixo, há o bilhete com o “x” tão cruel e minha confusão infantil diante da recusa e da impossibilidade de chamar de “namorada” uma colega de sala (pois o conceito de “beijo” ainda estava alguns anos distante).

Acendo a luz do porão e, no canto do aposento, vejo a foto apagada de uma garota que vi algumas vezes em um ônibus e cujo rosto triste me encantou profundamente. Fantasiei em abordá-la por algumas semanas até que, como era inevitável acontecer, ela desapareceu. Jamais voltei a vê-la, mas ela continua em mim, no meu porão, apagada mas viva com seus olhos ainda tristes. Eu a chamo de “Garota da Barcaça” por reconhecer nela a moça do guarda-sol branco que o senhor Bernstein de Cidadão Kane vira rapidamente em sua juventude e jamais esquecera. Minha moça não trazia um guarda-sol, mas livros no braço. E lamento jamais ter me oferecido para carregá-los. Aos 16 anos, achava ter todo o tempo do mundo e me condenei apenas a imaginar sua voz.

Há, ainda no porão, um sem-número de pequenas paixões do ensino fundamental: Alessandra, na 6ª. série; Renata, na 7ª.; Silvia, Rebecca e metade das garotas da sala na 8ª. Todas inevitavelmente fascinadas pelos rapazes do ensino médio e cegas para o garoto magrelo que as amava do fundo da sala.

Fecho a porta e vou até o quarto. Suelen, a primeira namorada, ocupa uma prateleira ao lado da janela. O primeiro relacionamento sério e a primeira traição. Foi minha por três meses; deixou cicatrizes que duram vinte e dois anos. Nas três prateleiras acima, vejo Janaína, a segunda namorada. Há caixas e caixas de histórias. Em uma, a foto de nosso primeiro e desajeitado beijo em um ponto de ônibus. Em outra, um breve vídeo do dia em que me deu um tapa no rosto por achar que eu tinha beijado uma outra garota (não tinha). Reparo em um papel embolado e, para minha surpresa, leio sem dificuldades a poesia que escrevi inspirado por seu amor e que, pateticamente, trazia versos cujas letras iniciais formavam a frase “Eu amo você, Janaína”. Rio ao recordar as rimas pobres e óbvias e sinto ternura pela versão adolescente de mim mesmo.

Abro o armário e vejo caixas e caixas que trazem o nome “Keyla”. Melhor não investigá-las.

Dou meia-volta e tropeço num pequeno pacote. Não há rótulo que identifique seu conteúdo e, curioso, investigo o que há lá dentro. Borrada e amarrotada, a foto de uma garota de aparelho nos dentes e covinhas. Como um relâmpago, memórias difusas de beijos intensos, mãos ocupadas e grama atravessam minha mente e recupero por alguns segundos a rápida paixão de uma festa em uma cidade do interior.

Sou um acumulador de amores. Não jogo fora as mulheres que me fizeram feliz, mesmo que por alguns momentos.

Volto para a sala e, espantado, tento imaginar como caixas tão grandes e tão numerosas cabem ali. “Priscila”. Claro. Ela merecia ocupar todo o espaço do mundo. Deu-me anos. Deu-me apoio. Deu-me companhia e maturidade. Deu-me, de certa forma, tudo que tenho. Não preciso investigar os caixotes para saber que há vidas ali dentro. Acaricio e beijo o papelão, sussurro “obrigado” e vou à cozinha.

E paro, assustado. Rafaela sai das gavetas, dos armários, da geladeira, do forno e da torneira. Inunda a pia e cobre meus pés. Fecho a torneira e percebo que já repeti o gesto inúmeras vezes. Inicialmente, Rafaela era apenas meia dúzia de caixas sobre a mesa; com o tempo, multiplicou-se, dominou o ambiente e começou a vazar para a sala. Como uma infecção de afeto, empurrou as mochilas que traziam Márcia, Bárbara e Dulce para a despensa. E não dava sinais de que pararia de se espalhar.

Fechei a porta sobressaltado, mas não sem notar algo intrigante que se opunha ao fenômeno protagonizado por Rafaela: sob a mesa da cozinha, uma pequena caixa de sapatos trazia um rótulo prestes a se descolar e no qual o nome “Fabrícia” podia ser lido. Como podia ser? Ao guardá-la ali pouco antes, ela ocupara alguns bons metros de espaço e agora surgia surpreendentemente frágil. Sabia que ela não sumiria, pois sou, afinal, um acumulador, mas ainda assim lamentei o encolhimento de uma memória que fora tão feliz. Mas desisti de tentar compreender o mecanismo que expandia um afeto e diminuía outro e apenas celebrei tê-los ainda comigo.

Caminhei cuidadosamente pelos demais aposentos e me certifiquei de ter ali Letícia, Cláudia, Vitória e Lúcia – em pacotes que variavam de tamanho e que exalavam perfumes envolventes e surgiam ainda quentes ao toque.

Olhei para o alto e vi a portinha do sótão. Sabia que, caso a abrisse, Giulianna cairia sobre mim e me soterraria. Estendi a mão e toquei a pequena maçaneta.

Mas a deixei em paz. Cedo demais para abri-la.

Eu sabia, porém, que ela estaria ali até o dia em que eu morresse. Ela e todos os meus amores carinhosamente acumulados.

In the Flesh – Primeira Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 18 comentários

(Tentarei evitar spoilers gigantescos, mas não queiram comer meu cérebro caso algum importante acabe escapando.)

“Esta cidade nunca vai aceitar pessoas como nós. Nunca.”

“Sim, vai. Nós podemos fazê-los mudar.”

“Não, não faremos.”

Mantida por dois personagens em um dos episódios desta primeira e excelente temporada da série britânica In the Flesh, a conversa acima poderia perfeitamente ter sido protagonizada na vida real por alguma minoria costumeiramente vitimada pelo preconceito: homossexuais, negros ou ateus, entre outras. Que tenha sido mantida por dois zumbis (ou melhor, por dois pacientes da “Síndrome dos Parcialmente Falecidos”) é apenas uma evidência do que qualquer fã de obras protagonizadas por estas criaturas já sabe: desde A Noite dos Mortos-Vivos, de 67, os zumbis vêm funcionando como fortes metáforas de uma série de grupos sociais ou etnias. É o que os torna imortais e cheios de apelo como matéria-prima para a ficção.

Encontrando uma nova abordagem para um subgênero praticamente saturado, In the Flesh imagina um mundo no qual os humanos encontraram uma cura para o “zumbinismo”, o que cria um problema inédito: a necessidade de readaptar os ex-comedores de cérebro à sociedade. (E o que diferencia a série de obras como Fido Meu Namorado é um Zumbi é o fato de não usar a comédia como fio condutor, abordando a narrativa com seriedade absoluta.) Assim, passamos a acompanhar o jovem Kieran (Luke Newberry), que, depois de tratado, volta a morar com os pais em Roarton, um pequeno vilarejo que se tornou famoso por dar origem à primeira milícia dedicada a exterminar zumbis – e que ainda enxerga o retorno das criaturas ao lar como uma ameaça. Liderados pelo vigário Oddie (Kenneth Cranham) e pelo paramilitar Bill Macy (Steve Evets), os habitantes de Roarton representam um perigo constante às vítimas da Síndrome, o que se torna ainda mais complicado quando descobrimos que a irmã caçula de Kieran, Jem (Harriet Cains), se tornou uma das voluntárias mais eficazes da milícia.

O propósito de In the Flesh não é difícil de identificar: vistos como minoria agora oprimida e encarada como ameaça por uma maioria raivosa, os zumbis são avatares de qualquer grupo vitimado pelo preconceito – e para tornar as coisas ainda mais claras (e complicadas), não demora muito até percebermos que Kieran já era visto com intolerância antes mesmo de se tornar um morto-vivo. A razão? Seu interesse homossexual pelo melhor amigo Rick (David Walmsley).

Fotografado em tons constantes de cinza que conferem uma atmosfera nublada, triste e opressora ao universo da série, In the Flesh é habitada por personagens amargos e raivosos – e mesmo que aqui e ali os episódios apostem em rápidos momentos de alívio cômico (bastante eficazes, por sinal), o tom que permeia a série é de desesperança e dor. Sem receio de se entregar a cenas absolutamente agoniantes em sua crueldade (como aquela envolvendo um casal vizinho à família de Kieran), a produção parece piscar também de forma irreverente à sua “prima” norte-americana ao batizar o protagonista com o sobrenome Walker, numa referência à maneira com que os personagens de The Walking Dead tratam os zumbis, desumanizando-os completamente já que, lá, o foco reside nos conflitos entre os vivos.

Imaginando seu universo pós-apocalíptico com divertida atenção para os detalhes (como os panfletos protagonizados por zumbis sorridentes), a série é rica também em sua abordagem temática – e quando um paramilitar agarra uma “ex-zumbi” que se recusa a usar a maquiagem e as lentes que a tornam mais apresentável, sujando seu rosto com batom e agredindo-a, fica fácil perceber que o motivo de sua raiva não se encontra na natureza de morta-viva da garota, mas no fato de encará-la como uma ameaça por se comportar como uma mulher forte e independente. Neste sentido, o sujeito nada mais é do que um representante convincente de um tipo (infelizmente) comum de macho-alfa que sente a constante necessidade de diminuir as fêmeas ao seu redor a fim de certificar-se de sua masculinidade e dominância.

Mas é por jamais se esquecer de desenvolver com delicadeza seus arcos dramáticos que In the Flesh acaba realmente funcionando – e quando o gesto desesperado de um pai com as mãos estendidas subitamente se transforma em um abraço, percebemos como a relação entre aqueles personagens foi construída com eficiência ao longo de uma temporada que, mesmo resolvendo boa parte de suas tramas, certamente ainda deixa espaço aberto para que seus roteiristas desenvolvam novos temas e conflitos em novos episódios.

É surpreendente constatar como esta bela produção conseguiu encontrar calor humano em seus acinzentados zumbis.

Participações no Ebertfest

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos | 6 comentários

Aos interessados, minhas participações no Ebertfest 2013 podem ser conferidas online no site do evento clicando aqui. Para assistir ao momento em que entreguei a Chaz as mensagens dos leitores sobre Roger, clique no vídeo “Kumare Introduction”. Já os outros dois são “The Art of the Video Essay: How to Speak Through Movies” e “Blancanieves Q&A”.

Espero que gostem.

Ebertfest 2013

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos | 3 comentários

Champaign-Urbana se tornou uma espécie de lar para a família que formei ao longo dos últimos três anos. Chegar à pequena cidade (duas, na realidade – mas a fronteira entre ambas é indiscernível) que abrigou a gênese da carreira de Roger Ebert é sentir-me em casa. Já conheço suas ruas, seus prédios, seu clima frio de abril. Já bati papo com seu prefeito, já compareci a três festas na casa do presidente da Universidade de Illinois, já fui a outras tantas na residência da velha amiga de Roger (a simpática Betsy Hendrick) e o magnífico Virginia Theater, o mais belo cinema que já visitei, já não guarda segredos, embora continue a encantar com sua tela gigantesca e sua imponente cortina vermelha.

Passei a tratar Nate Kohn, o diretor do festival, pelo primeiro nome; tornei-me fã da incansável Mary Susan Britt, que faz o evento funcionar; e já reconheço os rostos de vários espectadores que comparecem ao Ebertfest ano após ano.

Senti a alegria habitual ao reencontrar Chaz, esposa de Roger, sempre divertida e calorosa, e pude abraçar meus irmãos “correspondentes estrangeiros”: o mexicano Gerardo (e sua esposa Monica), a sino-canadense Grace Wang, o indiano Krishna Shenoi e, claro, meu brilhante e querido Omer Mozaffar (e, juntos, lamentamos a ausência de nossos colegas Michael Mirasol, Olivia Collette, Ali Arikan, Anath White, Wael Khairy, Scott Jordan Harris, Michal Oleszczyk e Seongyong Cho).

Mas, acima de tudo, estar no Ebertfest é sentir a presença de Roger.

Presente em cada centímetro do Virginia Theater (especialmente em sua ampla poltrona de couro ao fundo do cinema), Roger permanece vivo neste festival. Seu nome é citado a cada dez segundos, seus textos e livros podem ser vistos nas mãos dos espectadores, sua voz ecoa em cada debate e discussão.

Além disso, apenas no Ebertfest você tem a oportunidade de bater papo descontraidamente no almoço com uma lenda como Haskell Wexler, o diretor de fotografia duplamente Oscarizado (e primeiro profissional a usar a steadicam em um longa) e, no corredor, trocar abraços e lembranças com Michael Barker, co-presidente da Sony Classics, e comentar a beleza da cópia em 35mm de Cinzas no Paraíso que acabáramos de ver. Este é um festival como nenhum outro: não há competição, não há pressão, não há rivalidade; há apenas o amor profundo de uma imensa comunidade pelo Cinema.

E por Roger Ebert.

Estou feliz por me encontrar aqui mais uma vez – mesmo que entristecido por saber que não poderei abraçar ou conversar com Roger uma última vez.

De costas para a câmera

postado em by Pablo Villaça em Vídeos | 6 comentários

Supercut.