Olhando para Você

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Vídeos | 7 comentários

O olhar para a câmera nem sempre tem um só significado no Cinema. Basicamente, podemos dividir estes olhares em três grupos principais:

1) Câmera subjetiva: a câmera assume a posição de um personagem; seu olhar é o olhar de alguém. Assim, quando um indivíduo em cena a encara, está, na realidade, encarando um personagem que se encontra no mesmo espaço que ele. Há tipos de subjetividade diferentes (algo que discuto no A Arte do Filme), mas esta é a mais simples do ponto de vista de linguagem: a perceptual.

2) O olhar para fora de campo: embora o personagem esteja encarando a câmera, esta não representa ninguém. Assim, a pessoa que olha na nossa direção está enxergando algo que se encontra em seu próprio universo diegético e que não podemos ver naquele momento. Algo, não alguém. (Se fosse alguém, claro, voltaríamos ao item 1.)

3) A quebra da quarta parede: o personagem que está olhando para a câmera não a enxerga; ele está, na realidade, encarando o espectador. Está vendo além de seu próprio universo diegético e se comunicando diretamente com o nosso mundo.

O supercut abaixo traz exemplos destes três tipos de olhares para a câmera.

 

(vídeo via Caio Berns)

Autópsia de um Boato

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 99 comentários

Durante os últimos meses, a CBF (Central de Boataria do Facebook) espalhou imagens e textos apócrifos afirmando que o Brasil comprara a Copa como maneira de manter o povo artificialmente feliz e, assim, beneficiar (claro) a presidente Dilma Rousseff. Eram boatos patéticos, obviamente fabricados por uma direita que vem se especializando cada vez mais em disseminar o ódio e a desinformação através de perfis como “TV Revolta” e de uma rede de comentaristas pagos (informação da Foxlha de São Paulo) para povoar qualquer espaço interativo com ataques ao governo federal.

Pois bem: o Brasil perdeu. E feio. E agora?

Simples: espalhem boatos de que o Brasil vendeu a Copa. 

Nas últimas 24 horas, recebi o texto abaixo através de whatsapp, facebook e email. O mais inacreditável é que, em alguns casos, leitores me enviaram o texto perguntando se a “informação” ali contida poderia ser verdadeira. Por um lado, confesso que me espantei que alguém pudesse sequer cogitar que o texto fosse verídico, tamanha sua estupidez; por outro, preciso admirar o cuidado com que as informações foram construídas justamente para tentar convencer os mais ingênuos ao criar uma plausibilidade superficial e, principalmente, ao compreender os aspectos emocionais dos leitores-alvos – algo que analisarei logo abaixo apenas como um exercício para que possamos compreender melhor a lógica por trás deste gerador de boatos.

Primeiro, o texto:

“Talvez, isso explique a razão do jogador Maxwell ter declarado a seguinte frase: ‘Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas’.

Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem sido eliminados a Copa do Mundo de futebol, no Brasil. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.

Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os jogadores titulares foram avisados, às 13:00 do dia 08 de Julho (dia do jogo contra o Alemanha), em uma reunião envolvendo o Sr. José Maria Marin (na única vez que o presidente da federação brasileira compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Scolari e o Presidente da FIFA, Joseph Blatter. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar o hexa-campeonato mundial por sediar a Copa do Mundo em 2022 novamente.

A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$700.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 vinte e três milhões de dólares) através da FIFA. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa FPAR nos próximos 4 anos, terão as mesmas bases de prêmios que os jogadores de elite da empresa, como Cristiano Ronaldo e Messi.

Mesmo assim, William se recusou a jogar, o que obrigou o técnico ‘Felipão’ a escalar o jogador Bernard, dizendo que havia escalado o jogador do Chelsea no treino apenas para confundir os jornalistas alemães.

A sua situação só foi resolvida após o representante da FPAR ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.

Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o segundo tempo, porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a Alemanha, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em sete falhas simples do time do país sede da copa.

O Sr. Joseph Blatter, presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à copa do mundo e evitou que o Brasil se distanciasse das demais seleções.

Garantiu que a seleção canarinho teria seu caminho facilitado para o hexa-campeonato de 2018. Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer a sujeira que ronda o futebol! Desde, já agradeço, Um abraço.

FONTE: Gunther Schweitzer Central Globo de Jornalismo.”

Ai, ai.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia: quem é Gunther Schweitzer? Ele existe? Trabalha para a Globo?

Sim, existe. Não, não trabalha.

O nome de Schweitzer é conhecido dos fãs de futebol por ter sido associado à denúncia sobre a final de 1998 em um email espalhado durante a Copa de 2002. Ora, então Schweitzer certamente é alguém que conhece os bastidores do futebol e já vem tentando expor seus podres há anos, correto? Errado. O sujeito é um simples personal trainer que, em 2002, recebeu um email apócrifo com a denúncia e a passou pra frente, cometendo o equívoco de deixar sua assinatura automática ao fim do texto – o que bastou para que se tornasse um funcionário da “Central Globo de Jornalismo” e fonte extremamente confiável daqueles que acreditam em conspirações. Aliás, quem conta isso é o próprio Schweitzer nesta entrevistaque levei exatamente três segundos para encontrar através do Google.

Muito bem: desmascarada a “fonte”, vamos ao texto em si para que possamos perceber como a manipulação traz uma certa “ciência” em sua construção narrativa.

Apostando já na desconfiança natural que todos temos com relação à CBF e à FIFA, o texto tem início com uma citação – um recurso dissertativo clássico para estabelecer desde o início um tom de verossimilhança: se alguém disse algo publicamente, deve ser verdade. Em outra busca rápida no Google, é fácil perceber, contudo, que a tal fala é atribuída a jogadores como Maxwell, Leonardo, Thiago Silva, Cafu, Roberto Carlos ou qualquer outro que se encontre mais célebre no momento. Mas as aspas trazem ao texto um suposto peso de denúncia por parte de quem sabe o que fala - e este é o objetivo.

A seguir, o autor usa um recurso psicológico e emocional tão básico que, confesso, me espanta que a maior parte dos leitores não perceba sua artificialidade: ao dizer que “Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por serem eliminados da Copa”, o propósito óbvio é estabelecer uma conexão, um vínculo, uma cumplicidade com o leitor. “Veja, estou triste como você. Sou brasileiro como você. Nossas emoções foram manipuladas; sofremos sem precisar, meu amigo!”. Com isso, o autor traz o leitor para perto de si, como se dividisse não só sua dor, mas fosse também uma vítima inocente que, por acaso, descobriu o que realmente aconteceu – uma informação que ele agora compartilhará, de amigo para amigo, com você, permitindo que descubra também o que se passa por trás das cortinas.

“O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.”

Aqui há um misto de esperteza e profunda tolice. A “esperteza” é citar órgãos de imprensa conhecidos e respeitados, conferindo credibilidade à confidência (tudo bem que “dello” é grafado incorretamente, mas ignoremos). A tolice é tentar convencer o leitor de que este lerá “em primeira mão” algo que está sendo “investigado”. Ora, o princípio mais básico de uma investigação jornalística é o sigilo: apure, comprove e depois publique. Acreditar que uma investigação tão grave quanto esta seria publicada em forma de denúncia “em primeira mão” exige não só ingenuidade, mas desconhecimento total de como o jornalismo opera.

Por outro lado, é preciso aplaudir a construção da frase “assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos”, já que esta planta, de maneira relativamente sutil, a ideia de que estamos lidando com fatos e de que é uma questão de tempo até que as “provas” os comprovem.

“Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa.”

Afirmação veemente. Não duvide. Está escrito, então é verdade. (Vocês se surpreenderiam com o número de pessoas que aceitam algo como verdade apenas porque leram.)

A partir daí, a “denúncia” traz detalhes da negociação – e ao envolver nomes como os de Marin e Blatter, que já despertam suspeitas em função das várias denúncias reais ligadas às suas ações, o texto pega emprestada a credibilidade das investigações verídicas feitas sobre ambos. E isto é de uma imensa canalhice, já que, por tabela, acaba fragilizando-as com a própria mentira.

Os elementos que se seguem beiram o ridículo: os reservas foram mantidos à distância, os titulares inicialmente se mostraram “muito contrariados” e… ah! Jogada ao acaso, quase que como um detalhe, a motivação para que vendêssemos a Copa: a possibilidade de sediarmos o evento novamente em 2022. Novamente o texto usa um escândalo real (a possível manipulação na eleição do Qatar como sede) para seus próprios objetivos, o que, de novo, é profundamente desonesto e ainda compromete a percepção pública acerca de denúncias reais que mereciam ser levadas a sério.

O texto, então, explica que cada jogador receberá 700 mil dólares para vender o jogo – e se considerarmos o salário médio da seleção, é divertido imaginar que os atletas aceitariam entregar a Copa por algo que, comparado aos seus ganhos normais, é quase uma esmola (daí a tentativa de tornar a coisa mais plausível através da oferta de um “contrato com a empresa FPAR”). O texto não se preocupa em explicar, porém, o que acontecerá com os jogadores que não “aceitarem o contrato”. Serão executados numa queima de arquivo?

Há, ainda, detalhes sobre uma possível recusa de William (jogando com a imagem de bom garoto que ele ganhou não só pela pouca idade, mas pelos comerciais de guaraná que narravam sua trajetória) e outras bobagens sobre como a “apatia” dos jogadores explicaria o placar final – o que, mais uma vez, é um recurso psicológico curioso ao trazer certo conforto aos torcedores inconformados com um resultado tão humilhante. “Claro que tinha que haver uma explicação para a goleada! O Brasil jamais perderia de sete a um!”.

A denúncia encerra com a “fonte” (cof-cof) e com um pedido para que as “informações” ali contidas sejam espalhadas. Não custa nada passar um email adiante, custa? Especialmente se este traz, no início, um “Será?” que indica que você não está comprando totalmente a ideia (claro que não! Você é um cético, é racional, questionador!), mas, como cidadão, acha importante repassar a denúncia.

O problema é que não é “importante”. Ao contrário: é extremamente prejudicial, tóxico, destrutivo. É contribuir para um clima de instabilidade que atrapalha o país como um todo, beneficiando apenas aqueles que têm a ganhar justamente com esta desestabilização. Ser cidadão não é “repassar denúncias”; é agir responsavelmente, como adulto, em vez de contribuir, através da própria apatia, para o projeto político de quem quer que seja.

E, na dúvida, vá ao Google. É fácil, te poupa do embaraço e te blinda contra a manipulação.

Passe esta mensagem para o maior número de pessoas. Desde já agradeço.

Fonte: Pablo Villaça, Cinema em Cena

A Taça Não é Nossa; a Copa, sim

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 23 comentários

Difícil resistir a fazer um breve (mais ou menos) comentário sobre o jogo e suas absurdas repercussões. Em primeiro lugar, a reação de muitos no Facebook não foi de todo surpreendente, já que o perfil daquele espaço tende a ser mais conservador do que o do Twitter, por exemplo. Observo isso todos os dias: comentários idênticos feitos em um e outro são recebidos com apoio no Twitter e repúdio no Facebook e vice-versa.

Não, o que me espanta, de fato, é perceber um salto tão súbito na atitude de tanta gente. Pessoas que às 17h cantavam o hino e diziam ser brasileiras “com muito orgulho e muito amor”, que se mostravam orgulhosas da organização da Copa (que mostrou ao mundo inteiro nossa capacidade de sediar um evento deste porte), que balançavam bandeiras e celebravam o país e que, menos de duas horas depois surgiam queimando estas mesmas bandeiras enquanto afirmavam que era por vergonha da Educação, da Saúde, etc, etc.

O viralatismo surgiu com força em um texto medíocre, com toda pinta de ter sido escrito há muito tempo e estar apenas à espera de uma derrota, no qual o autor anônimo dizia que havíamos testemunhado a derrota da “malandragem” diante da “competência”. E que isto deveria ser uma lição para um país no qual a “malandragem” impera tanto que não é nem preciso “estudar para ser presidente”.

Vamos separar as coisas: a seleção brasileira perdeu. E feio. De forma vergonhosa. Houve, sim, despreparo. Até certa negligência. Mas estes meninos não são vilões – e nem mesmo Felipão ou Parreira são. Fracassaram. E envergonharam o país, mas não são vilões. Não merecem “repúdio”. E, acreditem, já estão se penalizando mais do que podemos imaginar. Dormirão hoje (se dormirem) com dor no peito e terão pesadelos – dos quais não acordarão pela manhã, que trará a consciência de que, sim, tudo aquilo aconteceu. Dito isso, compreendo a dor e a revolta como torcedor.

Mas como “brasileiro”? Ora, que revolta súbita é esta pela “Educação” que esperou convenientemente uma derrota da seleção para se manifestar? E é sério que querem usar como exemplo a Alemanha – onde o índice de analfabetismo é dez por cento e, portanto, bem maior que o do Brasil? (Até entendo: aprender aquela língua deve ser terrível!)

Ora, o Brasil acabou de aprovar uma medida para investir nada menos do que dez por cento do nosso PIB apenas em Educação! Apenas quatro outros países no mundo inteiro investem tanto – e nenhum tão grande quanto o Brasil.

E fora dos campos, o Brasil venceu a Copa. A imprensa internacional é unânime em dizer que esta é a melhor de toda a História – e as matérias não se limitam a falar dos jogos, mas da infra-estrutura, dos estádios, dos aeroportos que funcionaram (uma média de atrasos de 7,5% quando até 15% são considerados aceitáveis pela aviação em todo o mundo), da hospitalidade desse povo maravilhoso que se apaixonou pelos visitantes e inspirou a paixão destes.

A Copa foi tão bem sucedida que o próprio Aécio Neves, candidato da oposição, manifestou receio de que ela ajudasse a presidente nas eleições – e é justamente por isso que não fiquei surpreso ao perceber que Alvaro Dias, senador tucano, compartilhou o tal texto sobre nossa “malandragem”.

“MALANDRAGEM”? Fale por você, senador.

O Brasil não é perfeito e o governo federal tampouco. Mas não se esqueça de que o tal cara que foi eleito presidente “sem ter estudado” deixou o posto como o governante com a maior aprovação da História desse país. E que sua substituta gozava de igual aprovação até as manifestações de junho passado, que foram disparadas por um aumento nas passagens de ônibus que – vale lembrar – contavam com um subsídio do governo federal para que não fossem tão elevadas e que mesmo assim, por ganância das empresas, foram reajustadas.

Mas paro por aqui, pois sei que, nos dias de hoje, ninguém lê texto extenso ou que contenha dados que possam ser confirmados no Google. O texto que ganha compartilhamentos no Facebook e no Whatsapp é aquele curtinho, com ofensas e acusações sem prova e uma frase de efeito que, mesmo reduzindo o próprio leitor ao posto de “malandro”, é passado adiante pelo choque artificial que provoca.

Assim, publico este texto para mim mesmo. Como um lembrete de que, vergonhosos 7 a 1 à parte, essa Copa FOI DO CARALHO. AINDA ESTÁ SENDO.

E é um imenso motivo de orgulho para todos os brasileiros diante de todo o mundo. Mesmo para aqueles que, num impulso tolo e inexplicável, decidiram queimar a bandeira da pátria que lhes trouxe esse presente de Copa.

A Copa das Copas

postado em by Pablo Villaça em Variados | 2 comentários

Nesta Copa…

… a Costa Rica, considerada como a seleção que iria apanhar de todos os demais integrantes de seu grupo (que incluía três campões mundiais), terminou em primeiro lugar da chave e eliminou Itália e Inglaterra. E já chegou às quartas-de-final.

… a seleção de Camarões ameaçou não participar da competição caso não recebesse determinada quantia de sua federação.

… Gana e Argélia ameaçaram não jogar caso não recebessem prêmio de suas federações, o que resultou em aviões chegando ao país com milhões de dólares.

… a Holanda meteu 5 gols na Espanha logo na estreia de ambas as seleções.

… Portugal, Itália, Espanha e Inglaterra foram eliminadas logo na primeira fase, enquanto Grécia, Costa Rica, Nigéria e Argélia passaram.

… Argélia, Nigéria e Suíça deram uma canseira tremenda na Alemanha, na França e na Argentina no primeiro jogo do mata-mata.

… o Chile quase eliminou o Brasil nas oitavas, com uma bola no travessão a um minuto do fim do jogo e com duas defesas de pênalti de Júlio César.

… Luis Suárez, depois de se recuperar de uma lesão grave a algumas semanas da competição e com a ajuda do preparador que suspendeu o próprio tratamento de câncer para auxiliá-lo, simplesmente mordeu um jogador italiano e foi suspenso por quatro meses do futebol.

… James Rodriguez fez um golaço espetacular no Uruguai e levou a Colômbia às quartas pela primeira vez na História.

… O Uruguai foi eliminado no Maracanã por uma seleção que jogava com camisa amarela.

… os zagueiros brasileiros fizeram mais gols que o centroavante do time.

… Neymar teve uma vértebra fraturada e teve que sair da competição graças a uma jogada irresponsável (e mesmo desleal) de um jogador colombiano.

… David Luiz abraçou o jovem James Rodríguez após a eliminação da Colômbia e pediu que a torcida o aplaudisse enquanto este se encontrava em lágrimas.

… continua.

Maratona Rob Schneider

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Twitter | 16 comentários

Já aviso que as próximas 5-6 horas trarão tweets sobre os filmes de Rob Schneider como parte da promessa que fiz de vê-los. Os links trazem capturas de tela relacionadas aos tweets.

E… Play.  http://t.co/WsZkE7Golg

Oh, boy. http://t.co/ZZTkid9nn4

Ok, eu ri do terceiro “thank you for last night”. Talvez não seja uma experiência tão ruim.

Mas é claro que Schneider ainda não tinha aparecido.

Aí Schneider apareceu e um golfinho mordeu o penis de um cara. Claro.

Maravilha. Uma “piada” envolvendo pedofilia.

Agora uma piada xenófoba. E outra objetificando mulheres. Enquanto Schneider fala sozinho.

Ok, cadê aquele golfinho? Preciso de uma mordida. Seria mais divertido, aposto.

HAHAHAHAHA. Piada sobre como asiáticos têm pênis pequenos! Que original!!!

Faltava uma piada homofóbica. Não falta mais.

Deveria ser proibido um filme com Rob Schneider usar uma música como Nights in White Satin.

Ah, Jeroen Krabbé. O que está fazendo nesse filme?

Mais piadas homofóbicas. Schneider não é só sem graça; é também um babaca.

Hahaha. Ele está usando uma peruca engraçada inspirada em Don King! Que hilário! Nunca ri tanto! http://t.co/74fYsZ9ecM

Segunda piada envolvendo asiáticos e penis pequeno. Porque a primeira foi tão boa.

Norm McDonald parodiando Robert Shaw em Tubarão. Gosto de McDonald, mas o texto é horrível.

Caretas. Se você não é Jerry Lewis, nem tente. http://t.co/knMtUCGq1j

Agora fazendo graça de uma mulher obesa. E a chamando de “baleia”. Uau.

Um gato abocanhou o penis de Eddie Griffin. Apenas para este gritar “Bad pussy!”. Inacreditável.

Schneider atacando quem critica a política externa dos EUA. E retratando todo estrangeiro como caricatura grotesca.

É por isso que detesto Adam Sandler e Rob Schneider. Comediantes sem graça são toleráveis; quando também canalhas, não dá pra perdoar.

O filme é tão picareta que uma personagem com traqueostomia que usa eletrônico para falar em certo momento fala sem usá-lo.

Mais homofobia. E quantos atores ruins. Alguém me mate.

Uma mulher com um penis no lugar do nariz e que espirra sêmen. Ah, o humor sofisticado de Rob Schneider.

Piada com anão. Claro.

Ah, promessa desgraçada. Ah, promessa sem jeito.

Trocadilhos com nome: Bundapopoulos. Nível Casseta & Planeta. Schneider seria PERFEITO para o grupo.

Uma ponta de Adam Sandler. Estava faltando. Oh, Deus.

TERCEIRA piada envolvendo asiáticos e penis pequeno.

Agora o filme diz que é preciso tratar as mulheres com sensibilidade em vez de encará-las como objeto. Depois de fazer isso por 80 minutos.

Opa, ainda deu tempo de encaixar uma QUARTA piada sobre asiáticos e pênis pequenos.

Fim do primeiro. Faltam dois. Não acho que vou conseguir.

Não tinha cena pós-créditos. Vamos ao segundo: http://t.co/gyrvXMsxp5

(Já perdi 9 followers.)

Um minuto de filme e Napoleon Dynamite come uma meleca.

Dois minutos e um personagem peida na cara de outro. Que maravilha de experiência, essa maratona.

Três minutos e uma piada envolvendo diarreia. Estes serão os 85 minutos mais longos da minha vida.

PQP, David Spade. Tudo pode ficar pior.

Outra “piada” envolvendo meleca.

Agora fazem piada com um garotinho obeso. Observem os padrões no “humor” de Schneider.

Segunda vez que um personagem peida na cara do outro. Em DOZE minutos de filme.

Assim como em Gigolô 2, o filme acredita que perucas podem gerar boas piadas. Mais padrões. http://t.co/3HdhZks83p

Agora “piadas” envolvendo nomes de personagens. Mais padrões. http://t.co/Jd1QDldVux

Jon Lovitz. PQP. A quadrilha está quase completa. Faltam Sandler e Kevin James.

Em Gigolô 2, Schneider leva um chute no saco. Em Benchwarmers, Spade leva pedrada no saco. Padrões.

Piada homofóbica. Rob Schneider é mesmo um AUTOR.

Benchwarmers tem um personagem que, quando irritado, aperta os mamilos dos outros. HILÁRIO. Estou com dores de tanto gargalhar.

Tim Meadows. Todos os refugos do Saturday Night Live estão no filme.

Um ator mirim pavoroso. Claro. Por que fazer algo que respeite o espectador?

UOU. O diretor dessa porcaria saltou o eixo umas 300 vezes agora numa única cena. Não sabe o BÁSICO de direção.

Mais uma piada homofóbica. Fuck you, Rob Schneider.

Há uma piada recorrente em Benchwarmers envolvendo Jon Heder arremessando tacos de baseball. Não funcionou na 1a vez e já repetiram umas 10.

Terceira piada homofóbica do filme. E eu sigo perdendo followers. #injustiça

Ha! Velhinhos frágeis são ridículos e engraçados! Vejam o velhinho com seu andador e falando bobagem. HAHA! http://t.co/3MjcTGS3iT

Pra mostrar que há muitas crianças empolgadas com o time, o diretor usa tela dividida. Mas vejam a preguiça: usa o mesmo cenário para varias crianças (reparem o fundo vermelho) e REPETE varias crianças só mudando o ângulo. Picaretagem. http://t.co/Hf3cLvknkI

Com quase UMA hora de filme, roteiro sugere segredo no passado do protagonista pela primeira vez. Uau. Que estrutura bem montada.

Ok, ri uma vez quando o sujeito apresenta carteira de identidade falsa dizendo que tem 12 anos.

Brian Doyle-Murray. Outro refugo do SNL (e irmão menos conhecido de Bill).

E como a piada da carteira de identidade funcionou, repetiram um minuto depois. Mas aí não dá.

Terry Crews. Nem ele funciona. E quando nem Terry Crews funciona, não há esperança.

Piada de anão. Assim como em Gigolô 2. A autoralidade de Schneider é inquestionável.

Com uma hora de filme, roteiro sugere segredo na vida do protagonista. Quinze minutos depois, revelam o segredo. Estrutura ZERO.

Outra piada de anão. Aliás, nem é piada. Apenas colocam um anão em cena e esperam que o espectador comece a rir.

Piada com Campo dos Sonhos. Ok, a questão agora é pessoal.

Caramba, estou sangrando followers. Rob Schneider é tóxico. Eu avisei para filtrarem a hashtag. Tsc.

“A vida é muito curta pra guardar rancor”, diz um personagem. Provavelmente se desculpando pelo filme.

“Também quero um anão”, pede um personagem. E alguém lhe entrega um como se fosse um objeto de cena.

O pior é que dá pra ver claramente que o ator anão se encontra desconfortável em cena. Terrível.

Segundo filme terminado. Falta um. Mas antes vou comer uns pães de queijo pra ver se o enjoo passa.

Vou de Big Stan, estrelado, produzido e DIRIGIDO por Rob Schneider. Antes do título aparecer, o filme já fez “piadas” racistas e misóginas. Um recorde. http://t.co/awEVEw2jpI

Assim como em Benchwarmers, a esposa de Rob Schneider em Big Stan insiste em ter filhos enquanto ele tenta evitar.

Porque mulheres são criaturas que só querem saber de bebês e de tentar tirar a liberdade dos pobres homens com os quais se casaram.

Ah, piada envolvendo estupro. Que assunto divertido.

E pelo terceiro filme consecutivo, “piadas” homofóbicas. Rob Schneider, o autor.

Os 15 primeiros minutos de Big Stan são dedicados quase exclusivamente a referências sobre estupro e sexo anal. Comédia 10!

Adivinhem só o que apareceu com 18 minutos de filme? Um ator anão. Três filmes consecutivos, três anões. Rob Schneider, o autor.

Jennifer Morrison e David Carradine. Pobrezinhos.

Ri mais lembrando de como o pobre David Carradine morreu do que dos três filmes vistos até agora. (Foi uma risada de pena, juro.)

Uau. Nem a infalível “That’s what she said” funciona quando saindo da boca de Rob Schneider.

Depois de 30 minutos de piadas sobre estupro, Rob Schneider passa simplesmente a gritar “Estupro!” várias vezes. Juro. Mesmo.

Vejam o cuidado de Schneider como diretor: nem se preocupa com a qualidade da mão falsa usada em cena. http://t.co/eJZLffaGZd

Sem qualquer motivo, Rob Schneider move a câmera para mostrar uma estátua chinesa. É tão ruim como diretor quanto como comediante.

Uau! Schneider bateu recorde agora. Num plano, ele diz “Why?”. Corta. O plano seguinte repete só o FINAL da pergunta “…ai”?

Nem a MIXAGEM de Big Stan presta.

E o pobre M. Emmet Walsh também está nessa merda.

NUNCA MAIS PROMETO NADA NESSA VIDA.

“Piada” envolvendo peido. Ha-ha-ha.

Não!!!! Scott “Hershel” Wilson, não!!!! :( ((( Por que está nesse filme, Hershel?!?!

Poxa, Henry Gibson. Como é triste ver tanta gente boa nessa merda.

Rob Schneider não consegue fazer nem uma piada sobre a Cientologia, um alvo facílimo, funcionar. Que gênio.

Um nazista usa a palavra “crioulo” e Schneider o nocauteia pelo racismo. Em seguida, é atacado por e nocauteia uns 20 negros. Juro.

E nem se dá conta do racismo da cena que acabou de dirigir. Inacreditável.

Estava faltando a cena em que alguém é atingido no saco. Claro.

Ah, o velho e bom estereótipo racial. Big Stan tem tudo para o fã de Danilo Gentili.

70 minutos de filme e o papo ainda gira em torno de estupro. E agora tenta fazer piada com molestadores de criança. Juro.

O mais ofensivo é que Schneider faz um discurso sobre respeitar mulheres e gays. Enquanto fazendo piadas misóginas e homofóbicas.

“Bom discurso” “Você achou? Acho que deveria ter incluído uma piada ou duas”. Poderia ser um diálogo metalinguístico de Big Stan.

“Piada” envolvendo pedofilia. E, de novo, estupro.

Minha parte favorita de Big Stan: Rob Schneider levando uma surra. Se o filme tivesse só isso, seria perfeito.

90 minutos de filme alcançados. E adivinhem o que surge? Uma piada envolvendo tentativa de estupro!

Agora dois personagens apertam os mamilos um do outro. Tinha isso também em Benchwarmers. Schneider, o autor.

Rob Schneider fez Big Stan só pra poder aparecer como durão, aposto. As cenas de luta nem TENTAM fazer humor.

Ah, uma piada final envolvendo estupro. Por que o filme não foi intitulado apenas como The Rape?

E, com isso, termino de pagar minha promessa. Perdi 39 followers no processo. Peço desculpas aos demais.

A Carta

postado em by Pablo Villaça em Variados | 35 comentários

“A depressão é a mais persistente das amantes. Depois de anos e anos de convivência, ela parece ainda determinada a permanecer na vida de seu companheiro por mais que este a rejeite, a tema e a combata. Mesmo quando se afasta por um longo período, insiste em manter os olhos sobre o amado esperando qualquer sinal de hesitação para retornar e envolvê-lo num abraço inesperado, intenso e saudoso. Por outro lado, sua partida jamais é tão facilmente conquistada: ela se debate, se revolta e finge que vai apenas para voltar durante a madrugada e te surpreender quando, ao acordar, se descobrir abraçado a ela.

Abrir os olhos e constatar o retorno daquela amante é um choque que, de tão comum, deveria deixar de ser choque e se transformar em resignação – caso resignar-se não fosse também condenar-se.

‘Por que você quer dormir tanto?’, já me perguntaram inúmeras vezes. O que não entendem é que não quero dormir; apenas não quero permanecer acordado. Cada minuto de consciência são 180 segundos de dor – e se a matemática parece incorreta, é porque não conhece a lógica temporal da depressão.

‘Mas por que você se entrega?’ ‘Faça um esforço.’ ‘Olhe as coisas boas da vida.”

Não me entrego, faço e olho. A depressão não é uma escolha maior do que a orientação sexual. Ninguém escolhe ser hetero, homo ou bi; você olha para alguém e sente tesão. Ninguém escolhe ser deprimido; você se olha e sente-se vazio. Oco. Mas um oco inflamado, de carne viva, supurante.

As frases se tornam incompletas, mas revelam o mundo em sua insistência em transformar transitivos diretos em indiretos, em interromper sentenças que deveriam continuar. Não sei se, mas queria que. Ponto.

A própria vida, aliás, é repleta de pontuações. Já tive amores que foram vírgulas, reticências, pontos de interrogação ou exclamação. Todos doeram igualmente até que me convenci de que deveria buscar pelo calmo e definitivo ponto final. O ponto final não tenta chamar a atenção sobre si mesmo e nem complica, tentei me convencer. É forte, encerra a sentença, mas é sereno em sua simplicidade. Eu poderia passar algumas noites com dois pontos, sem dúvida, mas perseguia o ponto final. Que sempre ficava para o parágrafo seguinte, a página seguinte, o capítulo seguinte. E quando parecia surgir, logo revelava-se um ponto-e-vírgula que desafiava e feria.

Se a vida é um livro, como insistem alguns, tive páginas viradas, páginas iniciadas, páginas relidas e páginas arrancadas. Mas sempre me redescobria relendo passagens doídas e revisitando frases que considerava lidas e esquecidas.

Da mesma maneira, há amores que são incuráveis. Podem permanecer assintomáticos por um longo tempo, mas vez por outra entram em fase aguda novamente. Por um bom tempo, acreditei que estas reincidências ocorriam graças ao HIV da depressão, que me tornava imune a amores oportunistas, mas depois percebi que esta é uma síndrome comum a todos que já amaram.

Já a depressão é uma aflição ímpar. Muitas vezes, ao ver uma imagem particularmente melancólica retratada em preto-e-branco e exibindo figuras em um passado inespecífico, mas claramente dolorido, senti que haviam fotografado meu coração. Não sei se este é um sentimento comum e duvido que seja. Se for, lamento por todos; se não for, lamento por mim.

Caso ainda não tenha percebido, esta é uma carta de despedida. A assinatura que a encerrará é a de um suicida, a de alguém que não estará mais respirando quando você a ler. Os músculos empregados para grafá-la já se encontram rígidos e em breve serão destruídos pelo fogo do crematório.

Sim, eu sei. Que ato covarde. Não me iludo quanto a isso. Não me verá defendendo o suicídio como algo que exige “coragem”. O suicídio de um indivíduo deprimido não exige mais coragem do que a eutanásia de um paciente terminal. Pelo contrário, penitencio-me por minha covardia. Minha desistência diante da dor deixará, atrás de si, um rastro de novas dores. Mas como esta dor irá torturar outros que não eu, posso viver com isso. Com o perdão do mórbido trocadilho e do egoísmo reprovável.

Sempre encarei a vida como uma rua sem saída de mão única. E repleta de frequentes quebra-molas. Neste aspecto, digamos apenas que passei por um deles mais rápido do que deveria e quebrei algo fundamental para a continuação da jornada. Se a altura deste quebra-molas tornou-se maior em função da deficiência de um neurotransmissor específico ou de minhas fragilidades como indivíduo, não sei. Possivelmente uma combinação de ambas. Mas o estrago revelou-se irreparável. Cada novo quilômetro percorrido foi vencido às custas de um esforço avassalador. A depressão não tem pit-stop – ainda que, mantendo a metáfora atrapalhada, constantemente erga uma bandeira amarelada que grita para que todos ao redor do corredor acidentado caminhem mais devagar e prestem atenção à colisão.

As lágrimas constantes são, de certa forma, esta bandeira amarela. O choro, aliás, é um mecanismo curioso: por que nossos olhos vertem água quando estamos tristes? A explicação biológica é a de que as lágrimas provocadas por um choro dolorido trazem constituição química diferenciada, eliminado hormônios relacionados ao estresse e, consequentemente, aliviando o organismo daquele fardo em nível molecular. Já psicólogos encaram o choro como um pedido de atenção e socorro – algo corroborado por evolucionistas, que o estabelecem como um mecanismo empregado para deixar clara a submissão dos frágeis diante dos predadores, o que tornaria mais provável sua sobrevivência em função da falta de perigo sugerida pelo choro.

Já minhas lágrimas são habitualmente reveladas quando estou sozinho. Não são, portanto, um mecanismo de sobrevivência; apenas uma constatação de minha falta de preparo para a mesma. Se eliminam químicos relacionados ao estresse, falham em descartar também aqueles ligados à autopiedade e ao desespero.

Ou talvez eu esteja sendo condescendente comigo mesmo. Muitos perderam pais, amores, carreiras e sobreviveram. Minha incapacidade de fazer o mesmo é um reflexo inclemente de meu caráter, temo.

O que me traz aos comprimidos que acumulei ao longo dos últimos dez meses e que, calculo, serão o bastante para me libertar. Há algo de belo nesta rima, convenhamos: a mesma química que me condenou irá possibilitar minha fuga. Não uma fuga graciosa ou elegante, reconheço. Ser descoberto como um cadáver frio num quarto de hotel em uma cidade distante é algo que exclui dignidade – e aqui aproveito para desculpar-me, penitente, à camareira ou ao gerente que, movidos pela inexplicável ausência de respostas, abriram a porta e se descobriram diante de um pedaço de carne antes ocupado por uma personalidade: espero que possam eventualmente esquecer o choque. Consolem-se sabendo que pouparam dor pior a um policial anônimo que eu intencionava levar a me assassinar diante da sugestão de estar armado e pronto a matá-lo.

Tsc.

Não pensem que não percebo a tolice de tudo que eternizei nos parágrafos anteriores. Percebo. E saibam que reli cada frase na esperança de que a vergonha por redigi-las me demovesse do que vem a seguir. Mas a dor é maior que o embaraço – e isto deveria ser o suficiente para que constatasse a dimensão do vazio que move minha mão até o frasco e deste à minha boca. Dez comprimidos. Vinte. Trinta. Quarenta. Se uma pílula garante oito horas de sono atipicamente tranquilo, cinco dezenas asseguram o fim do tormento que retorna assim que o sono chega ao fim. A escolha é óbvia, não?

A vida é como uma viagem de avião: sempre amei a decolagem, considerei o voo em si entediante e temi o pouso depois de ler que era a parte mais perigosa da jornada – e o paralelo é claro, já que a parte inicial de nossa passagem por este planeta é excitante e repleta de descobertas à medida em que vemos o mundo a partir de uma nova perspectiva que, com o tempo, se torna monótona e cansativa até culminar num desfecho que traz a possibilidade cada vez maior de uma destruição iminente e súbita.

A diferença é que, aqui, sou o único piloto e o único passageiro – e o compartimento de bagagens traz apenas malas e malas de memórias que insistem em corroer a fuselagem do avião, garantindo a impossibilidade de um pouso doce.

E o que me dói é saber é que há pessoas que amo esperando minha aterrisagem. A estes, peço sinceras desculpas e espero que compreendam que tentei, por mais de quatro décadas, encontrar uma maneira de me manter voando.

Lembrem-se, meus amores: saudade é algo que não se mata; se abraça.

Abracem-me. Abracem os risos que experimentamos, as graças que fizemos e as conversas que tivemos. Lembrem-se do meu rosto sorridente, não daquele que infelizmente viram na maldita caixa de madeira que emoldurou meu cadáver. Lembrem-se da minha voz, dos meus escritos, dos meus tweets, dos meus posts estúpidos no Facebook e de cada like que dei nas bobagens que vocês escreveram e que, sim, me divertiram por segundos passageiros.

E compreendam que eu teria permanecido presente caso enxergasse alternativa ao que farei assim que dobrar esta carta e acondicioná-la no envelope que será descoberto ao lado do meu cad…”

 

O toque do celular quebrou o fluxo da escrita.

Ele olhou para o aparelho e viu o retrato da filha mais nova que ilustrava seu contato. Por vários segundos, debateu internamente sobre atender ou não a chamada.

- Alô.

- Papai?

- Oi, meu amor.

- Tudo bem?

- … Tudo, princesa.

- Como está a viagem?

- … Como sempre.

- Liguei só pra dizer que te amo muito. E que estou com saudades.

Ele sentiu os olhos se encherem d’água, liberando a química do estresse e seu reconhecimento de vulnerabilidade.

- Também estou com saudades, meu bem.

Silêncio.

- Bom… era isso. Vejo você sábado, né?

- Papai?

- Sim, linda. Você me vê sábado.

- Então tá. Beijo.

- Um beijo.

Desligou o telefone.

Diante de si, quase 1.500 palavras de despedida e justificativas doloridas. E um frasco com 70 comprimidos.

Olhou para o teto do quarto do hotel e respirou fundo.

Seria tão fácil desistir. Tão fácil.

Ah.

Encostou o queixo no peito e fechou os olhos.

Merda.

Pegou as folhas de papel e, depois de quase rasgá-las, optou por dobrá-las e guardá-las no bolso interno do casaco. Cerrou o frasco que encontrava-se sobre a mesa, segurou-o com força e, depois de alguns  segundos, o retornou ao forro da maleta que sempre o acompanhava.

Concentrou-se no rosto dos filhos, embriagou-se e desmaiou sob o chuveiro.

Arte e Humanidade

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Variados | 13 comentários

A Arte pode ter natureza estética, pode ser pessoal ou ambas. A primeira tem, como foco, a experimentação com a linguagem e/ou com a plástica. A segunda se concentra na humanidade do artista e daquele que contemplará a obra criada. Criar é compartilhar. Sentimentos, ideias, ideologias, amores ou memórias, mas compartilhar. A mais pessoal das experiências pode ser surpreendentemente universal quando dividida com desconhecidos. Sofri por amor. Temi a morte. Estranhei o indivíduo no espelho. Odiei a mim mesmo.

Você também.

Um bom filme, um bom livro, uma boa música, um bom poema, uma boa peça, uma boa ópera, uma boa performance merecem este adjetivo por tocarem o outro. O que é estéril é esquecível; a boa Arte fecunda pensamentos, emoções e ideias. O sorriso da Gioconda é icônico não por ser antigo, mas por ser instigante. Ela sorri de mim, para mim ou comigo?

O artista se rasga por completo para a apreciação alheia. Expõe a mesma vulnerabilidade que todos tentamos esconder.

Mas há ramos na Arte e níveis de exposição. Um escritor, por exemplo, se expõe profundamente, mas à distância. Cada conto, crítica, livro ou roteiro que escrevo revela muito sobre mim, mas permaneço protegido pelo escudo desta tela ou do papel: fui ouvido sem ser visto. Tenho uma imensa cicatriz no abdômen e esta me constrange (embora represente a memória de minha quase morte), mas você não a enxerga. Acabei de expô-la, é fato, mas sem ter que erguer a camisa. Este é meu limite e, neste sentido, ter escolhido a escrita para me expressar é sintoma também de minha covardia.

Um ator não conta com esta proteção. Um ator expõe seu rosto e seu corpo ao lado de seus sentimentos. Vejo sua lágrima e entendo seu sofrimento. Enxergo suas rugas e reconheço sua mortalidade. O único filtro é o personagem, mas mesmo este habita um corpo real que está ali para nosso consumo. É preciso uma coragem infinita para se expor assim. E uma generosidade idem.

E há, claro, aqueles que se expõem na escrita e no corpo. Louis C.K. é um destes artistas.

Quando comecei a assistir a Louie, série escrita, montada, estrelada e dirigida por ele, esperei ver uma extensão de suas fabulosas performances como comediante stand-up. Esperava rir de experiências cotidianas que, trabalhadas no texto de um cômico talentoso, divertiriam com sua natureza prosaica e tola. Contudo, ao longo dos últimos quatro anos, Louie se tornou muito mais do que uma versão de sitcom; estabeleceu-se como um tratado filosófico sobre a condição humana. Sobre nossas fragilidades e nossas belezas. Sim, ri muito com Louie, mas também chorei. E, nesta quarta temporada, refleti muito sobre quem sou e como experimento certas ansiedades e sentimentos. Aliás, alguns episódios doeram tanto que, confesso, passei a temer pelo próprio Louis C.K.. “Não se mate, por favor”, me vi pensando ao final de certas cenas. E estava implorando isto ao artista, não ao personagem.

Não é à toa que, ao contrário de minhas explorações narrativas sobre Breaking Bad ou True Detective, me vejo com dificuldades de discutir Louie como experiência artística: ao falar sobre certo episódio desta temporada, por exemplo, me flagrei discutindo seus temas e as ideias inspiradas por estes, mal tocando em seus aspectos técnicos e narrativos – e agora, ao assistir aos dois episódios finais da quarta temporada, volto a me surpreender movido a escrever sobre… sentimentos.

Dividindo a cena com a excelente Pamela Adlon, C.K. converte esta hora final em um pequeno estudo sobre como nos entregamos ao outro quando nos apaixonamos e como expomos nossos medos justamente àqueles que detêm, naquele instante, o maior poder de nos ferir. Aliás, se há um tema que unifica este quarto ano de Louie é a busca pelo amor, pelo sentimento compartilhado, e os riscos que esta procura envolve – mas também suas recompensas. Há três ou quatro episódios, por exemplo, ao ter o coração partido pela namorada húngara que retornou ao seu país natal, Louie confidencia sua dor ao médico vivido de maneira estupenda por Charles Grodin e, em vez de ser consolado, ouve um discurso inesquecível sobre a beleza de um sentimento frustrado:

Dr. Bigelow (Grodin): Isto é que é amor. Sentir a falta dela e desejar morrer. Você tem tanta sorte; é um poema ambulante. Você preferiria ser algum tipo de… fantasia? É isso que você quer? Você não percebe que esta é a parte boa, que é isto que tem procurado esse tempo todo? Finalmente você conseguiu o que queria, este doce… pedacinho de amor. Doce, triste amor. E você quer jogá-lo fora. Você entendeu tudo errado.

Louie: Eu achei que esta fosse a parte ruim.

Grodin: Não! A parte ruim é quando você a esquece, quando você deixa de se importar com ela, quando deixa de se importar com tudo. A parte ruim ainda chegará, então aproveite seu coração partido enquando pode. Seu sortudo canalha, eu não tenho meu coração partido desde que Marilyn me abandonou, desde que eu tinha 35 anos de idade. O que eu não daria para ter meu coração partido de novo… Olha, eu não sei bem qual é seu nome, mas você deve ser a pessoa mais entediante que já conheci.”

Que passagem linda. E tão verdadeira. Sofrer por amor é viver. Há algo de terrivelmente comum na felicidade estável. Lembro de meus amores adolescentes e invejo meu eu de 15 anos de idade. Penso em nomes como Alessandra, Fernanda, Bruna, Laura, Luciana, Giovanna e Mariana e percebo que escrevia com mais vigor ao sofrer por elas. Todas marcaram de maneira diferente e permanecem comigo, mas aquela intensidade da dor por perdê-las dissipou-se. Percebo isto e me entristeço.

Assim, ver Louie se apaixonar por Pamela diante da câmera enquanto esta o desafia como homem, profissional e namorado é algo que me encanta. Vê-lo se abrir a ela com sua desajeitada declaração de amor me comove. Vê-la lutar contra os próprios bloqueios para explicar que não consegue verbalizar o que seu coração experimenta me toca.

Mas C.K. vai além. Há muitos episódios, ele explicou sua insistência em manter-se de camisa perto das namoradas, mesmo durante o sexo, por ter vergonha de seu corpo. Havia, ali, algo de claramente autêntico. C.K., o homem, é gordo e desajeitado. Sua sensibilidade e seu caráter não o tornam mais rijo ou musculoso. Doce ou não, sua barriga permanecerá flácida e caída. E ele seguirá embaraçado por isso.

Assim, ao vê-lo despir-se diante da câmera, testemunhei um artista que enfrentou sua maior insegurança para encontrar uma verdade universal. Um artista que se rasgou não só para me divertir, mas para me fazer refletir. E me vi comovido diante de sua coragem, de sua entrega, de sua sensibilidade e de sua honestidade.

Louie, nesta quarta temporada, deixou de ser apenas uma série; tornou-se uma terapia pública para seu criador e um espelho para seu público. Um espelho que refletiu um apelo por amor, compaixão e compreensão.

Refletiu, enfim, nossa humanidade.

Meu Pequeno Cinéfilo – Parte II

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Luca & Nina | 6 comentários

(Para conferir a Parte I, clique aqui.)

- Papai, fui ver um filme ali no Netflix, mas quando expandi a tela, ela ficou quadrada. Está estranho.

Fui ver do que se tratava e, surpreso, percebi que Deixe-me Entrar, rodado em lindo 2.35:1, estava sendo exibido num absurdo 1.33:1 no Netflix – o que, na prática, equivale a cortar mais ou menos 40% da imagem.

- O Netflix alterou a versão do filme. Mudaram a razão de aspecto. – expliquei, já ciente de que Luca, aos 11 anos, já cansou de me ouvir falar sobre formatos de tela.

- Mas por que eles fizeram isso? – perguntou o pequeno, com espanto.

- Não faço ideia.

- Que saco. – ele completou. – Assim nem vale a pena assistir.

Orgulho.

Meu Pequeno Cinéfilo (Não Mais Tão Pequeno)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Curso, Luca & Nina | 17 comentários

Neste sábado, gravei um videocast ao vivo com o objetivo de responder a perguntas dos leitores. (Para ver como foi, clique aqui: falo sobre distinção entre montagem e edição, recomendo livros sobre Cinema e falo de uma antiga promessa.) Depois de concluído o papo, repassei as várias perguntas enviadas através do Twitter e do próprio YouTube a fim de ver quais não haviam sido respondidas – e, entre estas, alguém indavaga qual era o filme favorito de Luca, meu filho de 11 anos de idade.

Esta era uma questão que eu não fazia ao pequeno há muito tempo. Porque as crianças, de modo geral, tendem a eleger como favoritos os filmes que acabaram de ver – ou quase. Nina, por exemplo, já elegeu Alice no País das Maravilhas, O Estranho Mundo de Jack, Como Treinar Seu Dragão, Frozen, A Bela Adormecida, Cinderela e diversos outros – e seu irmão, por sua vez, já se apaixonou por obras que vão de Os IncríveisAlien – O Oitavo Passageiro, passando por De Volta para o Futuro, A Casa MonstroTubarãoPredador (não necessariamente nesta ordem cronológica). Porém, aos 11 anos de idade, ele já assistiu a um número suficiente de filmes para começar a formar seu próprio gosto e, portanto, era hora de repetir a pergunta – cuja resposta me surpreendeu. Sem hesitar, ele disse:

Cães de Aluguel.

Eu havia apresentado a ele a estreia de Tarantino na direção há meses. E não fazia ideia de que o longa havia provocado uma impressão tão forte no pequeno. Depois de conversarmos um pouco sobre sua escolha, ele perguntou se eu não podia apresentar a ele um novo trabalho do cineasta (eu vinha evitando por considerá-los todos violentos demais; Cães de Aluguel era, de certa forma, o mais contido, e ele também já havia conferido Kill Bill). Assim, como eu estava interessado em rever Bastardos Inglórios há algum tempo, saquei o blu-ray do filme e fomos conferi-lo.

E Luca, mais uma vez, adorou.

- Acho que o Tarantino é meu diretor favorito.

- Ele é um bom diretor para se ter como favorito, meu filho. – comentei. – Mas você descobrirá outros que vão tornar a disputa mais apertada.

A partir daí, fiz o que sempre faço quando assistimos juntos a algum filme: discuti a obra com ele. Falamos sobre os temas, sobre as liberdades históricas (e o que Tarantino queria dizer com estas) e, claro, sobre sua linguagem. E foi então que meu filho fez uma pergunta que me pegou completamente (e mais uma vez) de surpresa:

- Tem um grito no filme que o Tarantino sempre usa. Ele é estranho. Você já notou?

Ele estava falando, claro, do Wilhelm Scream, que em Bastardos Inglórios surge quando, no filme-dentro-do-filme, o personagem de Daniel Brühl mata um soldado aliado.

- Você… reparou o grito?

- Reparei. É porque em Cães de Aluguel, quando o Sr. Pink está correndo na rua, eu tinha ouvido esse grito e achado muito exagerado. E aí, quando vi Kill Bill, no final do primeiro volume a Noiva mata um cara que grita do mesmo jeito. E hoje eu ouvi de novo.

Como pai, confesso, senti meu coração disparar de orgulho. E expliquei a ele a história daquele grito específico e mostrei a ele um clipe que costumo exibir nas aulas do A Arte do Filme: Forma e Estilo Cinematográficos, quando ilustro este efeito sonoro para os alunos. No entanto, Luca ainda tinha perguntas:

- Tá, mas por que o Tarantino usa em todo filme?

Isto nunca havia me ocorrido – e, de fato, nem sei se Tarantino usou o Wilhelm Scream em algum outro trabalho além destes três. Porém, a questão levantada por Luca me deixou feliz por denotar sua compreensão acerca de um princípio que tende a ser ignorado por boa parte dos espectadores: cada decisão tomada por um diretor, por menor que seja, tem um motivo. E ao perguntar por que Tarantino insistia em usar os gritos, Luca buscava uma explicação narrativa, mesmo sem ter consciência da natureza exata de sua inquietação.

Assim que pensei naquilo, porém, a resposta veio instantaneamente. Mas se há algo que aprendi como professor é que, muitas vezes, é melhor permitir que o aluno encontre a resposta sozinho do que entregá-la de bandeja. Com isso, perguntei:

- Lembra que papai já te explicou que todos os filmes do Tarantino são basicamente sobre uma coisa só?

- Lembro. Cinema.

- Hum-hum. E aí?

Ele me olhou por alguns segundos e sorriu.

- E aí que ele usa o grito porque acaba sendo uma brincadeira com Cinema e com a História do Cinema?

- That’s a bingo!

E lhe dei um beijo que certamente vai deixar sua bochecha com um roxo imenso.

Unboxing de Se7en

postado em by Pablo Villaça em Vídeos | 16 comentários

Melhor que uma ideia inspirada é uma ideia inspirada e bem executada. (via Anderson Galdino)