Aos Companheiros de Depressão

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 9 comentários

Praticamente todos os dias recebo mensagens de leitores que, lutando contra a depressão, manifestam uma profunda insegurança com relação à própria capacidade de seguir adiante, expressando também uma frustração óbvia diante da força da doença. Como já escrevi várias vezes sobre minhas próprias experiências como depressivo crônico, creio ser natural que acabe sendo o destinatário de mensagens do tipo – e procuro respondê-las na medida do possível.

Aliás, parte da motivação destas pessoas – desconfio – reside na oportunidade de se abrir sobre o que sentem sem o receio de serem julgadas, já que sabem estar “conversando” com alguém que divide sua ansiedade. Há, infelizmente, um estigma persistente relacionado à depressão. “Por que você não faz um esforço?”, “Será que não percebe como tem tudo pra ser feliz?”, “Você se entrega demais” – frases assim trazem um julgamento implícito, por mais bem intencionadas que sejam, já que dão a entender que, de certa forma, o depressivo “permite” sê-lo.

Além disso, a depressão, como qualquer doença, reage de maneiras diferentes aos mesmos tratamentos dependendo de cada paciente. Não é incomum que um antidepressivo que funcionou por anos de repente se mostre incapaz de conter uma crise mais forte.

E, no entanto, quando isso acontece, a perversidade da doença envolve levar sua vítima a acreditar que a falha é sua como indivíduo, não de seu metabolismo ou do remédio. E como falar de depressão permanece sendo tabu, cada um de nós sofre calado, frustrado e envergonhado.

É por esta razão que, depois de conversar com uma leitora via inbox esta semana, me senti compelido a compartilhar algo para que, no mínimo, meus companheiros de doença possam ter a certeza de que não estão sozinhos, de que não são “aberrações” ou criaturas fracas.

Não vou citar, claro, o nome da leitora, mas seu desabafo entristecido sobre o fato de lutar há 5 anos contra a depressão me comoveu. Ela parecia acreditar que suas recaídas eram uma falha de caráter que apenas a tornavam um estorvo para seus familiares e amigos.

Pois bem: eu me percebi depressivo pela primeira vez aos 15 anos de idade. Convivo com a doença, portanto, há quase 26 anos – e me medico diariamente há 12.

E em setembro do ano passado, em Porto Alegre, amarrei um cinto em torno do pescoço, prendi a outra extremidade no box do chuveiro de meu quarto do hotel e me preparei para morrer.

Não tive consciência, naquele momento, de que estava prestes a cometer suicídio. Não estava chorando desesperadamente enquanto agia, não havia escrito carta de despedida e nem planejara me matar. Estava na capital gaúcha ministrando um curso e vivia uma crise depressiva que se tornara mais grave em função de várias circunstâncias – entre elas, o fato de ter acabado de anunciar que o Cinema em Cena, que eu criara há quase 17 anos, iria chegar ao fim. O estresse havia provocado um derrame em meu olho direito, o fim do site me entristecia imensamente e a depressão me golpeava há algumas semanas insistentemente.

Sozinho em meu quarto de hotel, após voltar da aula, me entreguei aos velhos pensamentos suicidas e de repente me ocorreu “experimentar” a sensação de morrer.

Apertei o cinto, dobrei as pernas e deixei a gravidade agir. Senti a cabeça inchar de sangue, percebi a pulsação das artérias do pescoço contra o couro do cinto e me dei conta de que se permanecesse assim por mais alguns segundos, desmaiaria. E que isso seria o fim.

E imaginei meus filhos recebendo a notícia de que o papai havia morrido.

Firmei os pés, me ergui e só então, já sentado na cama, chorei de verdade.

A primeira coisa que fiz ao retornar a BH foi procurar a psiquiatra, contar o que havia acontecido e trocar meu medicamento. Aos poucos, melhorei novamente. Sim, os pensamentos suicidas continuam, mas apenas como… pensamentos. Não voltei a cogitar seriamente a hipótese de colocá-los em prática.

Há dias piores e dias melhores. Mas, desde então, não houve muitos dias desesperadores.

Pois a verdade é que a menos que você esteja lidando com uma doença incurável e fatal, o suicídio será – e busco sempre me lembrar disso – uma decisão permanente para um problema temporário. Se eu tivesse hesitado um pouco mais e morrido naquele banheiro de hotel, teria perdido momentos lindos com meus filhos. Teria perdido a reação comovente dos leitores diante do anúncio do fim do Cinema em Cena. Não teria ido à Suécia e a Cannes. Não teria rido tantas vezes com os amigos. Não teria conhecido tantos novos alunos. Não teria escrito sobre a Mulher no Livro de Granito e tantos outros textos. Não teria tanta coisa que apenas imaginar estas quase perdas me deixam agradecido por ter voltado a ficar de pé antes de perder a consciência.

E percebam que esta foi a primeira vez em que cheguei realmente perto de um ato tão extremo – depois de 25 ANOS de depressão.

Esta é a questão, não é mesmo? Um único momento de fraqueza pode ser o bastante para jogar anos e anos de luta no lixo. E é por isto que não só devemos nos manter atentos para os sinais que nossa mente nos envia (a fim de buscarmos ajuda assim que constatamos uma recaída) como também precisamos expressar o que sentimos. Esconder a depressão é como oferecer abrigo a um serial killer na esperança de que este não nos mate – ele pode até se comportar por algum tempo, mas em certo momento aproveitará a vulnerabilidade e a solidão de seu anfitrião para fazer aquilo no qual se especializou.

Portanto… fale sobre como está se sentindo. Compartilhe com as pessoas em quem confia. Ou em fóruns/sites especializados. Discuta com seu psicólogo/psiquiatra/terapeuta. Ou mesmo com um companheiro de depressão via inbox.

E o mais importante: lembre-se sempre de firmar os pés no chão. É o que eu pretendo fazer.

A Arte do Filme – 17a. Edição – São Paulo

postado em by Pablo Villaça em Curso | 1 comente

Há quase um ano eu não ministrava o curso “A Arte do Filme: Forma e Estilo Cinematográficos”, já que desde a edição ocorrida em agosto (em Porto Alegre) lancei o curso sobre O Poderoso Chefão e desaposentei o Teoria, Linguagem e Crítica.

Eu estava com saudade e nem havia me dado conta – e o bom humor da turma de São Paulo ajudou bastante. Normalmente, brinco muito nas aulas, mas acho que nesta edição devo ter rido mais do que os alunos, que estavam inspiradíssimos – até mesmo nas cortadas (em tom de brincadeira!) que davam aqui e ali. Este, vale apontar, é um dos maiores atrativos da sala de aula: a dinâmica que se estabelece com os alunos, a troca de informações, diálogos e brincadeiras. Adorei.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,64 (Décima-sexta); 4,66 (Décima-quinta); 4,55 (Décima-quarta); 4,59 (Décima-terceira); 4,35 (Décima-segunda);  4,76 (Décima-primeira); 4,22 (Décima); 4,42 (Nona); 4,64 (Oitava);  4,66 (Sétima); 4,49 (Sexta); 4,53 (Quinta); 4,42 (Quarta); 4,41 (Terceira); 4,38 (Segunda); 4,54 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,98
Conteúdo: 4,93
Didática: 4,98
Estrutura do curso: 4,79

Média geral: 4,67.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,9 (a melhor até hoje).

Para concluir, a foto tradicional de formatura. (No entanto, como por distração levei a lente de 55mm em vez de uma grande angular, tive que dividir a turma em segmentos.)

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Teoria, Linguagem e Crítica – 54a. Edição – Belo Horizonte

postado em by Pablo Villaça em Curso | 1 comente

É sempre curioso ministrar um curso em BH. Quando estou em minha cidade natal, percebo claramente que, entre outras coisas, meu sotaque se torna mais intenso, num fenômeno que não sei bem explicar. Além disso, alguns dos casos que conto em sala podem ganhar uma dimensão mais “pessoal”: ao falar sobre determinada experiência, por exemplo, posso explicar que deveria “ter ido ao Humberto Mauro em vez de ao Usina”, o que pode parecer uma bobagem, mas me agrada. Além disso, há o conforto de poder dar aula (algo que amo) sem precisar ficar longe das crianças por uma semana (o que sempre me tortura).

Em outras palavras: eu me sinto… em casa. Há outros atrativos ao ministrar os cursos em outras cidades, claro, mas o de Belo Horizonte é poder constatar como sou mais mineiro do que me lembrava.

Foi divertido, também, perceber como vários dos alunos desta edição estavam finalmente completando a “trilogia”: já haviam feito meus outros dois cursos e, com este, encerravam o ciclo. Preciso pensar em um brinde para estes alunos. Broches? Bonés? Canecas? Nude selfies? Vamos ver.

Ah, sim: com os 65 alunos que fizeram esta edição, já são 2.017 alunos apenas no Teoria, Linguagem e Crítica!

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,45 (quinquagésima-terceira);  4,43 (quinquagésima-segunda); 4,29 (quinquagésima-primeira); 4,44 (quinquagésima); 4,66 (quadragésima nona); 4,33 (quadragésima oitava); 4,48 (quadragésima sétima); 4,50 (quadragésima sexta); 4,56 (quadragésima quinta), 4,62 (quadragésima quarta), 4,51 (quadragésima terceira), 4,37 (quadragésima segunda), 4,39 (quadragésima primeira), 4,75 (quadragésima), 4,67 (Trigésima nona), 4,61 (Trigésima oitava), 4,62 (Trigésima sétima), 4,7 (Trigésima sexta), 4,53 (Trigésima quinta), 4,44 (Trigésima quarta), 4,58 (Trigésima terceira), 4,62 (Trigésima segunda), 4,54 (Trigésima primeira), 4,44 (Trigésima), 4,65 e 4,63 (Vigésima nona – Tarde e Noite), 4,49 e 4,47 (Vigésima oitava – Tarde e Noite), 4,48 (Vigésima sétima), 4,73 (Vigésima sexta), 4,51 (Vigésima quinta), 4,62 (Vigésima quarta), 4,57 (Vigésima terceira), 4,71 (Vigésima segunda), 4,64 (Vigésima primeira), 4,62 (Vigésima), 4,68 (Décima nona), 4,58 (Décima oitava), 4,20 (Décima sétima), 4,40 (Décima sexta), 4,62 (Décima quinta), 4,57 (Décima quarta), 4,47 (Décima terceira), 4,57 (Décima segunda), 4,76 (Décima primeira), 4,22 (Décima), 4,33 (Nona), 4,45 (Oitava), 4,07 (Sétima), 4,44 (Sexta) e 4,27 (Quinta). Estas avaliações incluem os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,32 (tsc. E eu gosto deste espaço. Damn.)
Conteúdo: 4,82
Didática: 4,95
Estrutura do curso: 4,52

Média geral: 4,40.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,76.

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

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Sense8 – Primeira Temporada (SEM spoilers)

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 12 comentários

Uma das características mais importantes que temos, como humanos, é a capacidade de empatia. Sem esta, somos indivíduos isolados dentro de nossas próprias mentes e experiências – e até mesmo o amor será um sentimento de puro egoísmo, que importará apenas em função de como nos faz sentir, não de como estabelece uma ligação significativa com outra pessoa. Sem empatia, encaramos o diferente com medo e, consequentemente, hostilidade, já que tememos o que desconhecemos e odiamos experimentar temor. Sem empatia, o outro é apenas… “algo”. Um algo cujos sentimentos, cujas dores, amores, vivências, sonhos, medos e esperanças não importam, pois soam como conceitos apenas abstratos, distantes e irrelevantes. A falta de empatia está na raiz da homofobia, da misoginia, do racismo e do irmão destes, a sociopatia.

Um indivíduo sem empatia é um indivíduo que enxerga o restante do mundo como algo que só interessa como forma de viabilizar seus próprios interesses ou como obstáculos a estes (e que, portanto, devem ser destruídos).

O fato de ser homem cis hetero branco não deveria me impedir, contudo, de entender que uma mulher trans homo negra é minha semelhante. Somos irmãos de espécie. Quando choro por amor, sinto a dor que ela um dia já sentiu, sente ou sentirá. Quando temo a morte, divido isto com a humanidade.

Sense8 é uma série construída por, com e sobre empatia. Usa o verniz da ficção científica, o entretenimento da ação, o gancho do suspense e mesmo a leveza da comédia, mas por baixo de todas estas roupagens há a alma de artistas que querem levar o público a compreender que não apenas dividimos este planeta, mas que somos os outros. O assassinato de um homossexual por amar alguém que enxerga como pertencente ao mesmo gênero não é uma tragédia individual, mas de toda a humanidade. Uma mulher torturada por um parceiro abusivo é uma falha da espécie. Uma criança negra que cresce ciente de que tem muito mais chance de ser morta pela polícia do que uma caucasiana é uma ferida profunda e infeccionada em nossa evolução.

Em 2015, porém, temos deputados que constroem a carreira a partir do ódio que alimentam e estimulam contra minorias. Temos líderes religiosos que, em vez de pregarem o “amai ao próximo como ama a si mesmo”, preocupam-se apenas em acumular dízimos enquanto vomitam intolerância e espalham a ignorância como um vírus. Temos um congresso que não hesita em exigir investigação sobre o “sarcasmo contra a Igreja” ao mesmo tempo em que realiza sessões de reza numa casa legistlativa que constitucionalmente deveria preservar a laicidade.

Mas ainda mais trágico: num mundo que estabeleceu conexões imediatas entre indivíduos espalhados por todo o planeta, vemos a mesma tecnologia que deveria nos aproximar sendo empregada para promover o dissenso e discursos de ódio que transformaram qualquer espaço de comentário na Internet em um esgoto no qual o veneno flutua livremente.

Aliás, não é difícil perceber como os irmãos Wachowski conceberam a ligação telepática entre seus oitos personagens principais como um eco da Internet e a perseguição que estes passam a sofrer como uma metáfora da intolerância, do preconceito e da ignorância destinados aos que julgamos diferentes. Não é à toa que Sense8 é uma das produções mais preocupadas com a diversidade que atingiram o grande público em um longo tempo: a galeria de indivíduos criada por seus realizadores não traz apenas caucasianos, negros, asiáticos; traz também personagens com diferentes identidades sexuais, étnicas e religiosas.

E que doem ou sorriem pelos mesmos motivos.

Adotando uma estrutura narrativa incrivelmente ambiciosa que se materializa especialmente na montagem brilhante que certamente exigiu uma preparação dificílima (mal consigo imaginar a complexidade do cronograma de filmagens), Sense8 traz conversas ambientadas simultaneamente em países diferentes e nas quais um plano pode ocorrer à noite em Seul e seu contraplano, durante o dia em Chicago – uma dinâmica que jamais soa confusa graças à clareza com que o conceito é desenvolvido. Além disso, os vários interlúdios musicais (e não só a trilha do projeto é belíssima, mas também as canções incidentais selecionadas para sequências-chave) são instrumentais ao ilustrarem a proximidade psicológica e emocional entre indivíduos com vivências tão diversas – e, claro, é emocionante perceber como todos atravessamos os mesmos dilemas por mais diferentes que nos julguemos. Aqui, um queniano sofre pela doença da mãe; ali, uma sul-coreana ressente o descaso do pai; acolá, uma indiana debate-se com relação à generosidade de um homem que merecia seu amor, mas que, por essas coisas da vida, não consegue despertá-lo. Em um instante, uma islandesa se droga para anestesiar perdas insuportáveis; em outro, uma norte-americana transforma a rejeição sofrida pela família, que não aceita sua identidade feminina, em combustível para seu ativismo a fim de audar a comunidade LGBT que a acolheu.

Enquanto desenvolve sua trama, expande seu conceito básico e investe no desenvolvimento de seus personagens de forma excepcional, Sense8 também se mostra uma série com um otimismo do qual eu gostaria de compartilhar, já que, entre outras coisas, parece acreditar que a dor experimentada por um homem ao se ver sem seu parceiro é algo que encontrará a simpatia do público em vez de despertar protestos de quem só aceita a validade do amor heteronormativo – um otimismo que as mensagens de ódio recebidas pelo Netflix já se encarregaram de provar incorreto. Aliás, se vivêssemos numa sociedade minimamente igualitária, uma atriz com a beleza, o talento e o carisma de Jamie Clayton chegaria ao fim de 2015 como a megaestrela que merece ser em vez de ser obrigada a dar repetidas entrevistas sobre por que seria capaz de interpretar qualquer tipo de personagem feminino se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Sense8 é, ao mesmo tempo, uma produção memorável e um atestado de como ainda somos atrasados. Mas é, também, um pequeno milagre apenas por existir e trazer personagens tão complexos, tão únicos, tão belos, tão… humanos.

E a falha de muitos em reconhecer a humanidade destes indivíduos é a maior justificativa para que uma travesti se represente crucificada – pois, como o personagem bíblico que interpreta, ela e todos que representa são vítimas constantes da ignorância, da crueldade e do desprezo daqueles que não hesitariam em eliminá-los se assim pudessem.

Mas não podem. E Sense8 é uma das provas de que, por mais destrutivos que sejam para evitar seu destino, os intolerantes estão fadados apenas ao desprezo da História.

A Mulher no Livro de Granito – Parte III

postado em by Pablo Villaça em Variados | 4 comentários

(Para ler a primeira parte, clique aqui.
Para ler a segunda parte, clique aqui.)

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Foi um dos anos mais longos de sua vida. Junho pareceu ter 90 dias; julho, 120. Agosto, setembro e outubro passaram um pouco mais rapidamente, mas não muito. Em novembro, com o fim do ano se aproximando, começou a pensar nos preparativos para a viagem que faria em maio. Nas festas de fim de ano, pensava apenas em Bette Michelet. À meia-noite de 31 de dezembro para primeiro de janeiro, lembrou-se de sua foto.

Em fevereiro, a ansiedade deu lugar à angústia. O que estava pensando? Como pudera acreditar que alguém iria retornar ao cemitério em 28 de maio para honrar alguma data aleatória? Quem poderia garantir que não se tratara de um ato de gentileza casual, que alguém deixara a rosa apenas por deixar? Antes de voltar ao Brasil, certificara-se de que a flor não havia sido levada por Anunciata ou por Hubert, mas eram apenas dois habitantes numa vila que certamente tinha algumas centenas de residentes – isto para não contar as centenas de turistas e milhares de pessoas que residiam na região. Por que atribuíra tanta importância a uma trivialidade?

Em março, se deu conta de que caso estivesse certo em supor que a pessoa que deixara a rosa conhecia de fato a mulher na foto, ela certamente teria mais de 65 anos – provavelmente, mais de 70. E nesta idade… não é incomum morrer ou adoecer subitamente. E um ano é uma eternidade. Assim, ainda que a pista fosse promissora, não era absurdo supor que esperaria à toa por alguém que já teria morrido ou estaria em um hospital.

Abril passou como um relâmpago.

Para evitar riscos, decidira embarcar para a França no dia 20, chegar em Saint-Paul-de-Vence no dia seguinte e montar uma vigília no cemitério a partir do dia 23. Talvez a pessoa que deixara a rosa decidisse adiantar sua visita e ele não queria correr o risco de retornar ao Brasil incerto sobre ter se desencontrado. Voltaria da França carregando certeza na bagagem: a de saber quem fora Bette Michelet ou a de que jamais saberia. Sem “ses”.

Os vinte primeiros dias de maio duraram dez anos. E, de repente, ele estava em Saint-Paul-de-Vence.

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Visitara Anunciata no dia seguinte à sua chegada e também tentara falar com Hubert, mas ele deixara o vilarejo para morar em Cannes. Em seu lugar, uma senhora com ar impaciente ocupava o lugar atrás da escrivaninha e o olhava quase com hostilidade.

Caminhou pelas ruas estreitas de Saint-Paul, percorreu suas galerias de arte e almoçou num restaurante cuja varanda se abria para o vale que cercava a vila. Sentiu-se feliz por estar ali, mas também inquieto. Um ano é muito tempo para se pensar em uma pessoa que estava morta há mais de meio século.

Chegou ao Le Hameau por volta de 19 horas, tentou relaxar na banheira por cerca de uma hora e decidiu dormir. Para sua própria surpresa, percebeu ao despertar no dia seguinte que conseguira cair no sono sem a imensa resistência que havia previsto.

Sentindo-se orgulhoso de seu planejamento, chegou ao cemitério às 10 da manhã carregando uma pequena cadeira dobrável de metal, seu notebook e um livro. Encontrou um lugar adequado entre dois túmulos que oferecia uma boa visão do portão de entrada e da sepultura de sua Bette. O que mais o agradava é que, para conseguir enxergá-lo, qualquer um que entrasse teria que olhar diretamente em sua direção e para baixo. Para todos os efeitos, estava quase escondido. Claro que se alguém passasse por aquele caminho específico o veria e estranharia a imagem de alguém numa cadeira de praia em um cemitério, mas nada podia fazer a respeito. Se questionassem sua presença ali, fingiria estar desenhando – uma das vantagens de estar num lugarejo conhecido pela abundância de artistas.

Não tinha esperança de que algo acontecesse, no entanto, e se preparava para horas e horas de tédio. Trouxera algumas baterias extras para carregar o telefone, que assumiria a função de distraí-lo com games caso enjoasse do livro, mas sabia que seriam dias de espera torturante.

E assim foram.

Isto, porém, não o impedia de experimentar uma ansiedade imensa sempre que precisava ausentar-se do cemitério por alguns minutos para ir ao banheiro ou comer algo – e sempre retornava quase correndo e com o coração disparado enquanto temia descobrir uma rosa branca sobre o túmulo e a constatação de que jogara um ano no lixo.

Mas nunca encontrava a rosa à sua espera.

Dormiu pouco mais de duas horas entre os dias 27 e 28, tamanha era sua expectativa.

Às nove da manhã, estava diante do cemitério mesmo sabendo que o portão só seria aberto em meia hora. Tinha plena consciência de que aguardara 365 dias numa aposta insana cujo resultado provavelmente conheceria dentro de algumas horas.

———— x ———–

Dez. Dez e quinze. Dez e meia. Onze. Meio-dia.

Não conseguia sequer fingir estar interessado no notebook, no celular ou no livro. Encarava o portão como se este fosse um imã e seus olhos, puro metal. Sentia a boca seca, mas não queria beber um só gole de água por temer precisar ir ao banheiro. Por outro lado, parecia imune à fome e nem sequer cogitara tocar em algum dos sanduíches que trouxera.

Nunca detestara tanto a ideia de turismo. Cada visitante que buscava o túmulo de Chagall ganhava sua antipatia imediata por provocar pequenos saltos em seu coração. Começava a duvidar que chegaria vivo ao final da tarde.

E a cada vez que consultava o relógio, experimentava a certeza de ter feito a aposta errada. Ninguém viria.

Às 14h35, notou uma figura que não se parecia com uma turista. Era uma mulher de cerca de 50 anos que, carregando uma cesta de vime, caminhava com a familiaridade de quem já estivera ali muitas vezes. Porém, o que mais o intrigou é que parecia conhecê-la. Mas de ond…?

Não.

Não, não, não, não.

Era a jovem senhora que abordara em seu primeiro dia de investigação. A que cuidava do túmulo do… marido? Pai?

Do irmão. Sim, era ela. Claro.

Como pudera se esquecer dela? Falara de sua busca, apontara o túmulo e ela chegara a caminhar até ele e a observá-lo por algum tempo. Ela havia deixado a rosa. Sem motivo algum a não ser um impulso gentil. Que acabara lhe custando um ano de ansiedade.

Observou, com vontade de chorar, a mulher caminhando em direção ao local em que Bette Michelet repousava desde 1961. Esperou vê-la tirar uma rosa branca do cesto e depositá-la diante do livro e sentiu raiva dela, de Bette e de si mesmo.

A mulher passou direto pelo túmulo e se dirigiu ao do irmão.

Óbvio. Por que iria transformar em hábito a cortesia pontual? Provavelmente não voltara a repetir o gesto e nem sequer se lembrava de tê-lo feito algum dia.

Respirou fundo, olhou para o chão e percebeu que iria mesmo chorar.

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Teria que confirmar com ela, sabia. Perguntaria se ela se lembrava de ter deixado uma rosa branca naquela sepultura e, ao ouvir o “sim, ela me inspirou pena. Morrer tão jovem, coitadinha”, voltaria ao hotel, arrumaria as malas e esqueceria Bette Michelet, seu devotado George e Saint-Paul.

Tomou impulso para se erguer da cadeira metálica.

E viu uma idosa frágil atravessar o portão do cemitério.

De alguma maneira, soube imediatamente que era quem estava esperando. Sem surpresa, acompanhou seus passos lentos até o túmulo de Bette. Viu sua mão se erguer e enxergou a rosa branca. Quando se deu conta, já não respirava há quase um minuto, como se hipnotizado por aquela mulher. Ouvia o coração estourando em seus ouvidos. Se não estivesse sentado, sentiria as pernas vacilando sob seu peso.

A mulher permaneceu diante da lápide por cerca de meia hora. Não parecia rezar nem nada do gênero. Apenas passava a mão suavemente sobre a foto no livro de granito. Quando ela se virou para ir embora, ele notou que seu rosto estava coberto de lágrimas.

Saltou da cadeira e, se controlando para não assustá-la, buscou medir a velocidade dos próprios passos até interceptá-la.

- Com licença…

Ela parou e olhou para cima. Tinha olhos de um azul tão claro que flertavam com o branco. Seu rosto era o de uma pessoa acima dos oitenta anos, mas ele não tinha certeza de como transmitia esta informação, já que não era enrugado como seria o esperado. Algo em sua postura, em seu olhar, em sua… alma – diria, caso acreditasse neste conceito – passava esta impressão.

- Desculpe incomodá-la. Eu…

Havia preparado cuidadosamente sua abordagem, seu discurso, mas agora que estava diante da pessoa que esperara ver por um ano, sentia a língua travar.

- … Não sei exatamente como explicar.

Ela o encarava com uma expressão apreensiva.

- A senhora… conheceu Bette Michelet?

Os olhos da velhinha exibiram surpresa por alguns segundos. E, então, um sentimento surpreendente tomou conta de seu rosto: raiva.

- Eu conhecia Albertine. Albertine Pontier… Michelet.

“Albertine”?

- Sim, eu… estou falando da mulher na foto que aparece naquele livro. Sobre o túmulo que a senhora acabou de visitar.

- Albertine. O nome dela era Albertine.

Ela voltou a andar e, num impulso, ele voltou a se colocar à sua frente.

- Desculpe, eu… é que o livro dizia “Bette”. Eu não sabia que seu nome era Albertine. Aliás… nem o registro do cemitério informa isso, então…

- Você consultou o registro do cemitério? – agora ela parecia intrigada. – Por quê?

Ele respirou fundo. Era hora do discurso que havia ensaiado.

De forma tristemente atrapalhada para alguém que preparara tanto aquele monólogo, ele explicou de onde era, como descobrira o túmulo de Bett… de Albertine e como ficara fascinado por sua foto. Narrou sua visita aos cartórios em Nice, à administração do cemitério, à prima de George e ao filho deste. Contou da rosa. E de sua longa espera.

Concluiu o que tinha a dizer e ficou em silêncio enquanto ela o encarava. Sabia que ela o estava julgando. Avaliando se deveria confiar naquele estranho que lhe contara uma história absurda.

E, de repente, constatou que o olhar intrigado da misteriosa senhora se transformara em algo diferente. Algo que parecia… compreensão.

Ela… entendia.

- Você visitou o filho de George?

- Sim.

- George está morto?

- Sim.

Os olhos da mulher se encheram de água. Ela também conhecia a história de amor de George e Bette, a devoção daquele marido que perdeu sua amada tão precocemente. Ela sabia o quanto ele sofrera.

As palavras que ela disse a seguir vieram como uma bofetada:

- Que bom. Que ele apodreça no inferno.

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Uma semana depois, ele estava no pequeno, mas aconchegante apartamento da velha senhora em um bairro na periferia de Paris. Após seu chocante desabafo no cemitério de Saint-Paul-de-Vence, ela se recusara a dar qualquer informação sobre Bette – ou Albertine, como insistia em chamá-la. Disse precisar pensar sobre o que o brasileiro pedia e perguntou onde estava hospedado. Prometeu telefonar em dois ou três dias com uma resposta, positiva ou negativa. E exigiu que ele a deixasse partir sem mais perguntas.

Ele não tinha opção. Tentou pedir seu telefone ou endereço, mas ela se recusou. Repetiu apenas que ligaria com uma resposta.

Temendo afastá-la de vez, ele se despediu. Tinha certeza de que jamais a veria novamente.

Dois dias depois, contudo, ela ligara de Paris, lhe dera um endereço e informara que o esperaria na quarta-feira seguinte, às 16 horas.

E agora ele se sentava em seu sofá e via, na pequena mesa de centro, um antigo álbum de fotografias recheado de retratos de sua anfitriã.

Seu nome era Marguerite Labrousse. E conhecera Albertine desde a adolescência.

- Ela era adorável. Uma moça delicada, de alma inocente. Tinha o sorriso mais lindo que você pode imaginar.

- Eu notei isso na foto.

Ela empurrou um pratinho de salgados em sua direção. Ele pegou um e agradeceu.

- Para alguém que sofreu tanto, ela era incrivelmente alegre.

A sra. Labrousse virou as páginas do álbum e encontrou uma foto pequena, que apontou para o escritor.

- Aqui ela tinha cerca de 17, 18 anos. Esta ao lado sou eu. Éramos vizinhas.

- Como se conheceram?

- O pai de Albertine abandonou a família quando ela tinha cerca de cinco anos. A mãe, depois de tentar criá-la sozinha, acabou se cansando e a deixou com uma prima, que era nossa vizinha em Saint-Paul. Na verdade, num bairro que fica a poucos quilômetros do vilarejo principal. Albertine tinha então 12 anos, quase 13. Pouco tempo depois, recebemos a notícia de que sua mãe havia morrido aqui em Paris. Atropelada ou algo assim. Nunca mais ouvimos falar de seu pai.

Ela estudou a foto da amiga.

- O estranho é que Albertine parecia… grata. Não por ter sido abandonada, claro, mas por ter encontrado um lugar para ficar. A prima de sua mãe, a senhora Mercier, não era afetuosa, mas também não era agressiva. Albertine a ajudava em casa, já que ela nunca se casou, e acabou sendo quase uma filha adotiva. Digo “quase” porque elas jamais tiveram de fato uma relação de mãe e filha. Moravam juntas, mas não trocavam confidências nem nada assim. Mas acho que eram felizes. Espero que tenham sido.

A mulher suspirou.

- E então George apareceu. Suponho que tenham se conhecido no mercado ou numa feira da Igreja ou algo do gênero. O que sei é que Albertine, que já tinha 21 anos, se apaixonou. Falava deste rapaz fantástico que lhe prometia o mundo, uma família e todo o resto. E a prima de sua mãe… bom, acho que ficou aliviada por encontrar um marido para ela. Ao menos, não pareceu oferecer qualquer resistência à ideia de casamento. Seis meses depois, eles se casaram numa cerimônia civil simples e Albertine se mudou para a casa de George.

Ela fechou o álbum e recostou na poltrona.

- O que aconteceu então?

- Aconteceu que fiquei anos sem vê-la. Ela simplesmente sumiu. Não ia a eventos da cidade, a festas de conhecidos em comum ou mesmo ao mercado. Como também acabei me casando nesta época e passei a me preocupar com minha própria família, já que logo engravidei, acabei… – sua voz tremeu. – Acabei… me esquecendo de Albertine.

Ao longo das horas seguintes, Marguerite acabou contando o restante da história.

Cinco anos se passaram até que voltasse a ver a amiga. Seu marido, Jean-Baptiste, fizera uma festa para comemorar a inauguração de uma pequena mercearia que estava abrindo ao lado de um amigo e, para sua surpresa, George e Albertine subitamente surgiram à sua frente.

Marguerite mal pôde conter o choque diante da aparência da outra. Albertine estava terrivelmente magra, com olhos fundos e ar exausto. Os cabelos, antes tão bem cuidados, encontravam-se ralos e desalinhados. Sua pele trazia rugas demais para alguém com apenas 26 anos de idade.

Mas o que mais a entristecera fora perceber que o sorriso da amiga, antes sua característica mais encantadora, agora estava destruído. Seus dentes incisivos superiores já não existiam – e ela tentava despistar a falta destes cobrindo a boca, constrangida, sempre que falava. E jamais sorria.

Como ela pudera mudar tanto em apenas cinco anos?

Infelizmente, uma festa não era a melhor ocasião para que pudessem conversar com calma. Ansiosa, Marguerite perguntou se poderia visitá-la.

- Amanhã à tarde. – respondeu Albertine. – George irá a Nice depois do almoço e poderemos ficar sozinhas.

Pouco depois, George surgira com ar desconfiado e, puxando a esposa pelo braço, anunciara que já estava tarde e que deveriam partir.

———— x ———–

A vida de Albertine se transformara em pesadelo basicamente a partir do momento em que chegara ao seu novo lar após assinar a certidão de casamento. Assim que entraram em casa, George anunciara que, como sua esposa, ela deveria obedecê-lo e servi-lo sem questionamentos. Mesmo surpresa com a mudança de atitude do homem que até então a tratara com gentileza, a jovem se esforçou para racionalizar tudo como uma tentativa de estabelecer um lar tradicional. Ele proveria; ela cuidaria do lar, do marido e, logo, das crianças.

Mesmo agindo com secura, ela não a agredia fisicamente. Não a princípio. Quando ela engravidara, poucos meses do casamento, ele passara até mesmo a se mostrar mais delicado. Até que ela sofrera um aborto espontâneo por volta da nona semana. Ao vê-la sangrando e com dor, ele simplesmente virara as costas e a deixara sozinha.

Ela enterrou o feto no quintal e chorou a noite toda na casa vazia.

Ao retornar dois dias depois, George agiu como se nada houvesse acontecido e perguntou o que havia para o almoço. A antiga brutalidade retornou, mas agora mais intensa. Certo dia, quando ela atrasou alguns minutos para lhe servir o jantar, ele a atingiu com um tapa.

As agressões se tornaram recorrentes. Ela tentava ler o humor do marido e se afastar quando previa alguma explosão, mas não adiantava: ele parecia determinado a descontar sua frustração – nascida por qualquer motivo insondável – na jovem esposa. Havia dias nos quais ela já sabia, desde o amanhecer, que iria apanhar em algum momento. Só lhe restava esperar e torcer para que fosse apenas um tapa ou pontapé na perna.

Quando engravidou pela segunda vez, sentiu esperança de ver o marido voltar a exibir algum grau de doçura – ou, no mínimo, de ser poupada de novas surras. E, por algum tempo, George realmente pareceu se conter. Até que, por volta do terceiro mês de gravidez, ela não conseguiu se levantar para preparar o café da manhã por se sentir enjoada e foi retirada da cama a socos e pontapés.

Na mesma tarde, perdeu o bebê.

Estava casada há três anos e foi aí que sua existência realmente se converteu em pura tortura. Se já era impedida de sair de casa, agora chegava a passar horas como prisioneira em seu quarto, sem poder nem mesmo ir ao banheiro. George parecia se divertir ao encontrar novas formas de puni-la por sabe-se-lá-o-quê – e, em certa ocasião, tentara obrigá-la a engolir uma barata que encontrara na sala. “Vamos ver se assim você aprende a manter a casa limpa!”, dissera, desistindo apenas quando ela vomitou ao ter o inseto esfregado em sua boca.

Em determinada madrugada, ao voltar bêbado depois de uma noite ao lado dos amigos, ele a esmurrara com tanta força que acabara partindo seus dentes da frente. Ao ver o que havia feito, riu e comentou: “Ainda bem. Não aguentava mais ver aquele sorriso de cavalo”. Em seguida, virou-se para o lado e dormiu.

A consequência inesperada da perda dos dentes havia sido sua liberdade. Se antes se recusava a deixá-la sair de casa, George subitamente se mostrava ansioso para levá-la para todos os lugares.

Albertine não demorou a perceber que ele queria apenas humilhá-la ao exibir sua boca agora deformada. “Sorria, mulher!”, ele costumava berrar. “Mostre aquele sorriso que me conquistou!”.

Ela cobria a boca e tentava conter as lágrimas.

Não voltou a engravidar, mesmo sendo obrigada pelo marido a satisfazê-lo sexualmente quase todas as noites. Percebeu que ele a destruíra por dentro.

E foi então que, numa festa, reencontrou a amiga de adolescência.

———— x ———–

Ele ouvia incrédulo ao que Marguerite lhe contava. Como pudera julgar tão mal a história daquela pobre mulher e de seu marido? Como se permitira romantizar uma foto a ponto de criar um conto de fadas onde havia apenas o terror de uma jovem?

- No dia seguinte, eu fui até a casa de Albertine e ela me contou o que vinha sofrendo. Perguntei por que não abandonava aquele canalha, mas… ela tinha medo. Estava certa de que ele a mataria se ela tentasse deixá-lo. Além disso, nos anos 50, não era comum ver mulheres se divorciando. Especialmente num lugarejo como Saint-Paul.

- Mas… a senhora não pensou em avisar as autoridades? Denunciar George?

Ela encarou o brasileiro longamente.

- Eu não conseguia denunciar nem meu próprio marido.

Ficaram em silencio por um tempo que pareceu interminável.

- Ele… também…?

- Jean-Baptiste não era tão cruel quanto George, mas dizer isso é como desculpar um assassino por ao menos não ser um serial killer. Sim, ele batia em mim. E nas crianças. Tínhamos três filhos e ele não via problema em espancar até mesmo o pequeno Michel, com pouco mais de um ano de idade. Ainda assim, quando descobri o que Albertine vinha sofrendo… acredite… eu me senti agradecida por ser casada com Jean-Baptiste. Imagine isso.

Ela pegou um pequeno baú de madeira e o abriu. Sob algumas joias, um envelope amarelado forrava o fundo do objeto. Ela o puxou e o entregou ao visitante.

- Albertine e eu trocamos algumas cartas ao longo dos anos seguintes. Infelizmente, não guardei todas e me arrependo muito por isto. Mas guardei esta.

Ele pegou o papel com mãos trêmulas. Retirou o papel do envelope e viu a caligrafia cuidadosa de Albertine “Bette” Michelet. Jamais havia se sentido tão próximo da garota.

Minha querida amiga Marguerite,

sei que sente pena de mim. Não sinta. Acredite, estes últimos três anos desde que retomamos nosso contato têm sido um alívio. É como se depois de um longo período tenebroso no qual estive presa em uma solitária eu finalmente pudesse caminhar pelo pátio da penitenciária e conviver com outros seres humanos. Não, minto: em vários momentos, sinto-me livre e retorno à nossa adolescência ao rever seu rosto sempre tão terno, delicado e repleto de amor.

Além disso, sei que enfrenta suas próprias dificuldades. E vendo todo o esforço que faz para preservar seus lindos filhos, chego a agradecer a Deus por não ser capaz de trazer um descendente a este mundo. Eu não teria sua força para proteger minha família e sei que meu fracasso me destruiria. Admiro sua coragem, minha amada amiga. Frequentemente, quando George está num de seus humores destrutivos e desconta em mim as humilhações que acredita sofrer do mundo, fecho os olhos, penso em você e rezo para ter um décimo de sua força.

Lamento apenas que não possamos nos encontrar com mais frequência, mas George viaja cada vez menos a Nice e, como sabe, ele teria uma síncope caso descobrisse que mantemos contato. Assim, estas nossas correspondências clandestinas terão que continuar servindo como bálsamo provisório até que encontremos outra solução (aliás, não sabe como sou grata por seu esforço em buscar estas cartas e por deixar as suas em nosso pequeno esconderijo; sinto-me envergonhada por obrigá-la a tanto sacrifício, mas se antes George se divertia em expor o estrago que fez em meus dentes, logo passou a sentir vergonha por ser casado com uma mulher banguela. E, em vez de reconhecer que isto era culpa exclusivamente sua, agiu como sempre age: punindo sua fonte de embaraço).

O estranho é que ele surrou a raiva que eu sentia para fora de mim. Já não consigo odiá-lo. Ou temê-lo. Se sinto algo, é pena. George é um homem quebrado e, por saber disso, parecer querer ao seu lado uma mulher igualmente partida. (Não se preocupe: não estou romantizando o Sr. Ogro – como rio ao lembrar deste apelido que você cunhou, minha amiga! -; apenas concluí que investir qualquer tipo de sentimento em meu marido é perda tola de energia.)

E enquanto eu tiver meus livros, tenho para onde escapar. E estou certa de que um dia esta sombra se apagará. George não é o tipo de homem que atravessa a vida sem ofender alguém disposto a matá-lo. Durmo pensando que estou a uma briga de bar da liberdade.

(É horrível desejar que ele morra, eu sei. Mas também acredito que Deus perdoará esta minha fraqueza.)

Um dia, querida Marguerite, vamos passear juntar em algum lugar maravilhoso. Eu, você e seus lindos filhos, que me chamarão de tia Albertine.

Até lá, aguardo suas cartas com a ansiedade de sempre.

Sua,

Albertine. 11/07/1961”

———— x ———–

Colocou a carta sobre a mesa, olhou para Marguerite e só então percebeu que chorava.

- Ela morreu três meses depois. – disse a velha senhora. – Esta foi a última carta que escreveu.

Ele esfregou os olhos, tentando interromper as lágrimas, mas não conseguiu.

- Como… ela morreu?

Marguerite respirou fundo e estendeu as mãos num gesto de impotência.

- O que eu sei é que certo dia recebemos a notícia de que ela havia sido levada para o hospital. Segundo George, ao chegar em casa ele a encontrou inconsciente e, quando não conseguiu despertá-la, pediu ajuda. Depois, ele explicou que uns dois dias antes ela havia caído da escada, mas que insistira não haver se machucado, recusando-se a visitar um médico.

- A causa descrita na certidão de óbito foi “edema cerebral”. – ele conseguiu dizer, quase num sussurro.

- Eu sei. Disseram que a queda provocou o edema, mas que, por recusar a oferta de George para buscar ajuda, ela acabou se condenando.

- O desgraçado ainda conseguiu culpá-la pela própria morte.

Ela pegou a carta, devolveu-a ao envelope e guardou tudo no baú.

- Nunca vou me esquecer do rosto de Albertine no caixão. Minha querida amiga, tão adorável, tão linda, tão alegre, era uma massa inchada de golpes. Era possível enxergar a dor em seu rosto.

O escritor olhou para Marguerite, esperando ver lágrimas, mas percebeu que ela já chorara todas nos últimos 55 anos. Sua voz ainda registrava raiva pelo destino da amiga, claro, mas o pranto ficara no passado.

- Pobre Bette. – ele suspirou.

- Não a chame assim! – gritou Marguerite com um ódio que o surpreendeu.

- Eu… desculpe… eu…

- Por que você repete o insulto que a torturava tanto? Já não bastava aquele… demônio humilhá-la? Você precisa insultá-la décadas depois?

Ele não conseguia compreender.

- Ins… insulto? Eu não… Não é o apelid…

- George não se contentava em machucar o corpo de Albertine; ele sentia prazer em destruir sua autoestima. Isso garantia que ela permanecesse sua prisioneira, sempre subjugada, sempre insegura. Isso fazia parte do prazer que aquele psicopata extraía do sofrimento de minha doce amiga.

- Mas… não entendo…

A mulher voltou a encará-lo.

- A Bela e a Fera. O filme de Jean Cocteau. George adorava aquele filme. Ou fingia adorar. Desconfio que o que ele realmente amava era usá-lo para humilhar Albertine. Depois de partir seus dentes incisivos, ele dizia que ela se tornara idêntica à Fera do filme, que tinha os caninos projetados para fora da boca. Ele passou a chamá-la apenas assim.

A Bela e a Fera. La belle et la bête. “Bête”. Besta. Fera.

Bête.

Lembrou de Louis, filho de George, e da raiva que exprimira ao dizer que a mãe chorava ao ser “insultada” daquela maneira. Eram palavras que soavam idênticas, “bête” e “Bette”.

George não poderia ter colocado “Besta” na lápide de Albertine, claro. Então mandou escrever “Bette” como uma agressão final, uma humilhação sádica que resistiria ao tempo.

“A mon épouse chérie. Votre mari dévoué.”

Que tipo de pessoa seria capaz de algo tão perverso?

- Eu odeio aquela lápide. – ouviu Marguerite dizer baixinho, como se para si mesma.

Percebeu que precisava sair dali. Sentia-se sufocado. Mas tinha uma pergunta final:

- Por que 28 de maio?

- Como?

- Por que uma rosa branca no dia 28 de maio?

A velhinha sorriu pela primeira vez desde que a conhecera.

- Alguns meses depois da morte de Albertine, cheguei à conclusão de que precisava romper com aquele ciclo de violência. Se não por mim, ao menos por meus filhos e em honra à memória de minha amiga. No dia 28 de maio de 1962, enquanto Jean-Baptiste estava no trabalho, peguei as crianças, vim embora para Paris, contratei um advogado e consegui minha liberdade. E devo isso a Albertine. Ela me deu a coragem necessária para fazer o que deveria ter feito anos antes.

- E a senhora… não voltou a se casar?

- Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes, meu filho.

———— x ———–

Na noite de 7 de junho, ele saltou o portão do cemitério de Saint-Paul-de-Vence por volta das 23 horas. Como demorava a escurecer naquela região, ele fora obrigado a aguardar mais do que esperado. Com a luz do celular apontada para o chão de cascalho, orientou-se até encontrar o túmulo de Albertine Michelet.

Num salto, subiu na sepultura. Avaliou como deveria proceder e posicionou os calcanhares de cada lado da página que trazia a foto de Albertine a fim de protegê-la, deixando exposta apenas aquela que trazia a mensagem de seu “devotado marido” e o insulto que este incluíra.

Segurou com as duas mãos a barra de ferro que trouxera, prendeu a respiração e atingiu com força a escultura. Parte do bloco de pedra se desprendeu e rolou para o lado. Desferiu mais dois golpes e viu, com prazer, o livro se partindo ao meio. Afastou as pernas e certificou-se de que a metade dedicada à foto e às datas de nascimento e morte de Albertine permanecia intacta. Em seguida, recolheu os fragmentos do sadismo de George e os atirou no vale abaixo do cemitério.

Não podia reescrever a trágica história da mulher de olhos tristes – embora fosse passar os meses seguintes preparando-se para colocá-la no papel -, mas podia ao menos apagar a mentira daquela página de granito que, décadas depois, ainda pesava sobre o que restava de seu corpo já tão machucado.

Beijou as pontas dos dedos e tocou a foto da moça. Depois de alguns segundos, afastou-se rapidamente.

A Mulher no Livro de Granito – Parte II

postado em by Pablo Villaça em Variados | Comente  

(Para ler a primeira parte, clique aqui.)

Acordou várias vezes durante a madrugada. Estava ansioso pelo dia seguinte e, quando conseguia dormir, tinha sonhos nervosos. Em um deles, viu-se caminhando por uma plantação de arroz (sabe-se lá por quê) e encontrando a sepultura de Bette Michelet no meio de uma pequena clareira. Inclinava-se para limpar a lápide quando sentia a presença de alguém ao seu lado. Com o mesmo véu da foto que o capturara, a jovem Bette o encarava.

- Vá embora. – dizia, em português.

- Mas eu quero ficar.

- Vá embora.

- Por quê?

Em vez de responder, ela girava o rosto para o granito.

- A moça da foto não é a mesma que você criou em sua mente.

- Quem é ela, então?

Subitamente, seus olhos eram substituídos por dois buracos escuros e ameaçadores.

Acordou com o coração aos saltos.

Tinha que descobrir quem foi aquela mulher.

———— x ———–

Às dez da manhã, entrou no cemitério de Saint-Paul-de-Vence. Depois da noite inquieta, precisava rever o local no qual Bette Michelet havia sido enterrada e se certificar de que era real, de que estava lá. Viu o livro de granito, a foto da moça sorridente sob o véu aberto e pousou a mão sobre o mármore da sepultura. Pensou que deveria ter trazido alguma flor.

Escutou o som agradável do cascalho e girou a cabeça para ver, a cerca de uns 20 metros, uma jovem senhora caminhando ao redor de outro túmulo e retirando a terra dos vasos que se encontravam sobre este. Observou seu trabalho por algum tempo e percebeu que talvez ela pudesse representar um primeiro passo em sua busca.

Aproximou-se lentamente.

- Bom dia. – cumprimentou, em francês.

- Bom dia. – ela respondeu, após olhá-lo por alguns segundos. Retomou o que fazia.

- Parente seu?

- Meu irmão.

- Sinto muito.

- Obrigada.

Permaneceu em silêncio enquanto pensava em como prosseguir.

- Eu estou fazendo uma pesquisa genealógica sobre uma família que tem alguns de seus membros enterrados aqui. – falou, surpreendendo-se com a história que havia inventado num impulso.

- Ah, é?

- Michelet. Conhece?

Ela interrompeu o que fazia enquanto parecia buscar algo na memória. Finalmente, sacudiu a cabeça:

- Não, acho que não. Qual é a sepultura?

Ele apontou para o pequeno monumento cinzento. Sem dizer uma palavra, ela foi até o túmulo e leu o que o livro dizia.

- Meu irmão se mudou para Saint-Paul em 1983 e eu vim em 87. Ela morreu em 1961. Acho que não posso te ajudar.

Ela sorriu e começou a se afastar. Então, parou e se voltou para ele:

- Você tentou perguntar na administração do cemitério?

- Na realidade, não. Sabe me dizer onde fica?

- Ao lado da igreja, bem no centro da vila.

De onde estava, ele conseguia enxergar a torre do relógio que marcava a posição da igreja. Apertou a mão suja de terra da simpática mulher e se afastou rapidamente.

Cerca de 15 minutos depois, encontrava-se diante do templo católico. Alguns turistas tiravam fotos de seu interior, do mármore que marcava o lugar no qual um religioso fora enterrado há alguns séculos e do belo altar. O que não havia ali, porém, era alguém que pudesse lhe oferecer alguma informação.

Saiu da igreja e viu uma sorveteria italiana a alguns passos. Talvez ali alguém pudesse ajudá-lo.

- Bonjour. – disse para a bela mulher que se encontrava atrás do balcão.

- Buongiorno!

Por alguns milissegundos, pensou se deveria continuar a conversa em italiano – até se lembrar de que não falava aquela língua.

- Estou procurando a administração do cemitério.

- Ah. – ela saiu de trás do balcão e foi até a porta do estabelecimento. – Está vendo aquela porta? É ali.

Estava fechada.

- Não está funcionando?

- Hubert teve que viajar. Volta semana que vem.

Merde.

Anotou mentalmente o nome do responsável pelo cemitério, agradeceu e saiu da sorveteria.

E agora?

———— x ———–

A França começara a registrar oficialmente todos os nascimentos, casamentos e mortes em 1792. Até então, qualquer documento sobre estes eventos era criado pela Igreja, mas após a Revolução o governo decidira que esta tarefa deveria ser desempenhada pelo Estado e passou a se organizar para garantir que nenhum cidadão se mantivesse fora dos registros.

Uma rápida pesquisa revelou que todos os arquivos civis relativos a Saint-Paul-de-Vence estariam em Nice, localizada a alguns quilômetros dali. No entanto, não conseguiu identificar o cartório que guardaria estes registros, o que o obrigaria a visitar vários deles para conseguir a informação que buscava.

Na quarta tentativa, encontrou um funcionário disposto a ajudá-lo. Infelizmente, a ajuda era desanimadora:

- Ela morreu em 1961? Então sinto muito, mas mesmo que encontre o cartório que arquiva os registros de Saint-Paul-de-Vence (e não sei dizer qual é), as informações não serão liberadas. Os únicos registros públicos são aqueles com mais de cem anos; se estiver querendo algum com menos de um século, precisará provar que é descendente direto da pessoa. O senhor é parente dessa… Bette Michelet?

- Na realidade, não.

- Então sugiro que encontre algum parente dela. É a única forma de ter acesso aos registros. Isto caso existam.

Pela segunda vez no mesmo dia, soltou um “merde” mentalmente.

———— x ———–

Encontrava-se num beco sem saída. Tentou se convencer de que aquela busca era uma insanidade. Que Bette era provavelmente uma mulher absolutamente comum que não justificaria todo aquele esforço. Que vivera uma vida prosaica. Que…

Ele precisava continuar.

Só restava esperar pelo retorno de Hubert. Certamente os registros do cemitério trariam alguma informação.

Precisaria adiar o retorno ao Brasil mais uma vez. Concluiu que o melhor seria deixar a data de volta em aberto.

- Estou louco. É isso.

———— x ———–

Nos dias seguintes, tentou relaxar e explorar a região como um turista qualquer. Sabia que a única esperança de encontrar qualquer forma de prosseguir em sua busca residia na administração do cemitério e, até que o tal Hubert retornasse, estaria de mãos atadas. Fez uma pequena lista do que deveria perguntar ao sujeito, incluindo uma informação crucial que, só percebera depois, não aparecia no livro de granito: o nome do devotado marido de Bette.

Todas as manhãs, visitava o cemitério e deixava uma pequena rosa vermelha diante da foto da moça. Se fosse religioso, faria uma breve prece – mas não era. Em vez disso, pegava-se imaginando a jovem mulher em seu dia-a-dia. Tentava visualizá-la gargalhando, olhando apaixonada para o marido (e, às vezes, se colocava na posição deste, o que o envergonhava imensamente) e, vez por outra, chorando por algum motivo.

Estava romantizando a garota cada vez mais e transformando-a numa personagem. Ao se dar conta disso – e de como comprometia sua objetividade -, tentava se conter, mas nem sempre com sucesso.

Também criou o hábito de passar em frente à administração do cemitério ao menos duas vezes por dia, pela manhã e ao final da tarde, mas sempre via a madeira marrom da porta interrompendo seu avanço. Acabou se tornando cliente regular da sorveteria e confidenciou sua busca a Anunciata, dona do estabelecimento (e ao descobrir seu nome, tentou encará-lo como uma espécie de sinal positivo).

No quinto dia, assim que acabou de subir a escadaria de pedra que levava à rua da Igreja, foi surpreendido ao não conseguir enxergar a porta que sempre buscava – e levou alguns instantes até perceber o que isto significava. Hubert estava de volta.

Inconscientemente, acelerou os passos e entrou quase correndo no pequeno escritório. Esperara encontrar um balcão e, atrás deste, mesas e arquivos velhos de metal comandados por um senhor de bengala e vastos cabelos brancos. Em vez disso, deparou-se com um ambiente bem mais moderno do que havia imaginado: sofás confortáveis em cada canto do aposento e, ao fundo, uma escrivaninha enorme atrás da qual um homens de uns trinta e poucos anos se sentava enquanto consultava um computador obviamente recém-instalado.

- Ah… bom dia.

- Bom dia! Estava esperando por você!

Confuso, teve uma breve sensação de estar em um sonho. Não fazia qualquer sentido o que o sujeito acabara de diz…

- Você é o escritor brasileiro, não é? Que está buscando informações sobre uma sepultura?

- Como…

- Anunciata. Quando passei na sorveteria ontem à noite, ao chegar de viagem, ela saiu feito uma maluca para me segurar e contar tudo ao seu respeito.

- Ah… espero que ela não tenha me feito parecer um louco.

Hubert se levantou e estendeu a mão.

- De forma alguma. Ela disse que você é um romântico. Está comovida com sua busca.

- Mas realmente não há nada de românt…

- Tanto que, para ser sincero, normalmente eu não poderia ajudá-lo. Os dados relativos às sepulturas são confidenciais, como deve imaginar. Mas Anunciata me mataria se eu não o ajudasse. E como adoro o sorvete que eles fazem…

Ele riu amigavelmente. Em seguida, estendeu a mão para a cadeira diante de sua mesa.

O escritor sentou-se ainda aturdido com a velocidade com que as coisas haviam começado a se mover de repente.

- O nosso sistema de arquivos é organizado não pelo nome dos ocupantes das sepulturas, pois isto seria confuso demais. Temos, por exemplo, um túmulo da Ordem dos Franciscanos que já foi ocupado por quase 20 religiosos ao longo dos últimos 120 anos. Em vez disso, catalogamos tudo a partir dos números de cada local de repouso. Hoje de manhã, para adiantar, passei no cemitério e busquei o de sua Bette – não sei se você sabe, mas Anunciata já foi visitá-lo e me explicou exatamente onde ficava. Ela realmente ficou impressionada com sua história.

O brasileiro permaneceu em silêncio e apenas sorriu levemente. Hubert voltou-se para o monitor à sua frente.

- Bom, o túmulo é o de número 260687. Há apenas uma pessoa enterrada ali: Bette Michelet. Nascida em primeiro de março de 1932 e falecida em 13 de outubro de 1961. Causa mortis: edema cerebral ocorrido em função de um acidente. O proprietário da sepultura é George Rouveron Michelet, que a adquiriu também em outubro de 61. Suponho que seja o marido da morta.

O jovem administrador do cemitério inclinou-se para trás na cadeira.

- E isso é tudo que temos sobre ela. – e, sorrindo, completou: – Além, claro, do endereço do senhor George aqui mesmo em Saint-Paul-de-Vence. Ao menos, até 1982, quando foi atualizado pela última vez.

Ele estendeu um papel no qual já havia anotado a informação.

- Uau. Nem… nem sei como agradecer.

Hubert fez um gesto descartando a necessidade do “obrigado”.

- Que tipo de acidente a matou?

- Não sei dizer, infelizmente. Procurei uma cópia física do atestado de óbito, mas não encontrei. Você teria que ir até o cartório em Nice para achar o original, mas não o liberariam sem um comprovante de que é parente do falecido.

- É, eu sei. Já tentei isso.

Olhou o endereço no papel e o digitou no GPS de seu celular. Estava a dez minutos de caminhada da casa na qual o viúvo de Bette Michelet morava. Ou morara até 1982.

- Muito, muito, muito obrigado por sua ajuda. De verdade.

- Ei, os franceses adoram romance, não sabia? Apenas dê um jeito de me contar como a história acaba e ficarei satisfeito.

Apertaram as mãos.

O escritor saiu dali direto para a residência de George Rouveron Michelet.

———— x ———–

Ele já não morava em Saint-Paul-de-Vence há pelo menos 30 anos. Na realidade, não morava em lugar algum, pois morrera em 2002.

Na velha casa indicada por Hubert, encontrou uma senhora de uns 80 anos que se identificou como parente distante de George, de quem comprara o imóvel em 1985. Inicialmente desconfiada, ela suavizou um pouco as feições ao descobrir que o estranho buscava informações sobre a falecida esposa de Michelet. “Pobrezinha”, dissera apenas.

- Ele saiu de Saint-Paul e se mudou para Nice. Ele se casou por lá, mas já morreu há muito tempo. Há mais de dez anos, no mínimo.

- A senhora sabe me dizer algo sobre a esposa dele? A primeira, digo. Bette.

Ela franziu a testa, o que parecia um milagre considerando que a quantidade de dobraduras em sua pele envelhecida não parecia capaz de comportar mais rugas ou vincos.

- Ela se chamava Bette? Engraçado. Não me lembrava disso. Achava que era algo como Alfonsine. A memória já não funciona mais como antes, sabe?

Ele sorriu com compreensão e aguardou enquanto ela organizava os pensamentos.

- Não me lembro de muita coisa. Eu não era próxima deles naquela época. Fui ao casamento dos dois e me recordo de que minha mãe sempre falava dela aos sussurros, mas não sei bem por quê. Bom, mas quando comprei essa casa, George fez um preço muito bom. Parecia ansioso para se ver livre disso. Ele não era um homem feliz, acho. Você quer um biscoito?

- Não, não, obrigado. A senhora por acaso saberia o endereço dele em Nice?

Para sua grande felicidade, a adorável velhinha disse apenas um “Eu tenho na minha agenda” e se afastou para buscá-la.

———— x ———–

- Meu pai não era um homem particularmente amoroso.

Estava diante de um rapaz de 28 anos de idade, filho único do casamento de George Michelet e Marie Dorat. Esperara três dias para visitar a antiga residência do viúvo de Bette enquanto tentava pensar na melhor maneira de abordar sua família. Finalmente, decidira que o melhor caminho seria a mais pura honestidade e, assim, depois de tocar a campainha do pequeno prédio localizado no centro de Nice e de se apresentar para o atual ocupante do apartamento – Louis Michelet -, explicara exatamente como chegara até ali.

- Eu realmente não sei como posso ajudá-lo.

Estava sentado na minúscula sala que Louis herdara dos pais após a morte de George, em 2002, e de Marie, há poucos meses.

- Seu pai nunca falava sobre a primeira esposa?

- Não que eu me lembre. Ele não costumava compartilhar muito do que se passava em sua mente.

George começara a trabalhar como taxista ao se mudar para Nice, em 1985, e assim permanecera até morrer em função de um enfarte fulminante. Casara-se com Marie em 86, tornara-se pai em 88 e vivera uma vida desinteressante até cair morto no chão de um restaurante chinês há mais de dez anos.

- Ele nunca me passou a impressão de ser um homem feliz. Às vezes, eu sentia como se minha mãe e eu fôssemos algo ao qual ele se resignou ao não conseguir nada melhor.

Ou talvez ao ter perdido algo melhor. Ou algo que assim considerava.

- Você acha que ele falou para sua mãe sobre a primeira esposa?

O rapaz pensou por algum tempo.

- Talvez. Eu não saberia dizer. Ela certamente nunca me contou nada. Mas também não acho que ele tenha feito minha mãe muito feliz. O mesmo distanciamento que tinha comigo se repetia com ela.

Tentou colocar-se na posição de George: depois de casar-se com a mulher que amava, fora obrigado a enterrá-la precocemente graças a um acidente. A natureza humana, porém, levara-o a buscar uma nova companhia, a construir uma família. E isto só ressaltara o que havia perdido.

- Qual era o nome dela, aliás? Da primeira esposa do meu pai?

- Bette.

O jovem empalideceu.

- Filho da puta.

O escritor se surpreendeu diante da raiva que leu no rosto do outro.

- O que f…

- Eu nem sei dizer quantas vezes vi minha mãe chateada ou mesmo chorando por causa desse insulto.

- Insulto…?

- Meu pai sempre a chamava de “Bette”.

———— x ———–

Estava de volta ao hotel em Saint-Paul-de-Vence. Deitado na cama de casal do confortável quarto do charmoso Le Hameau, repassou tudo o que havia descoberto nos últimos dez dias. Lamentava por Marie Dorat, que se casara com um homem sem saber que este carregava uma ferida que se recusava a fechar. Não deve ter sido fácil passar tantos anos com alguém que insistia em chamá-la pelo nome da esposa falecida.

Pensou em George. Em sua dor. Em como, mais de quarenta anos após a morte de Bette, mantinha a amada tão presente em sua mente que não conseguia deixar de chamar sua segunda esposa com o nome da primeira.

“A mon épouse chérie. Votre mari dévoué”.

Devotado, de fato. Até demais, diria seu ressentido filho.

Por um lado, sentia-se satisfeito por ter descoberto como a história de George continuara e terminara; por outro, lamentava não ter conseguido saber mais sobre Bette. No entanto, não sabia mais como buscar informações sobre a garota. Todas as suas investigações levaram ao viúvo e só; não encontrara um só parente da mulher enterrada sob o livro de granito.

Teria que ser realista e desistir da busca.

Na manhã seguinte, iria ao cemitério uma última vez (já não o visitava há pelo menos três dias), despediria-se da foto, de Bette, de sua obsessão. Ela permaneceria como um destes vazios que se recusam a ser preenchidos.

Dormiu frustrado e teve uma noite sem sonhos.

———— x ———–

Estava a poucos metros do túmulo quando viu a rosa. Não uma rosa vermelha como aquelas que ele havia se habituado a levar – e como a que carregava naquele momento -, mas uma branca. Como a da foto no livro.

Aproximou-se lentamente e com a respiração pesada. Quem…?

Olhou ao seu redor. O cemitério estava vazio.

Tocou as pétalas da flor e percebeu que estavam levemente murchas. A rosa fora deixada ali no dia anterior. Alguém visitara a sepultura de Bette Michelet há menos de 24 horas. Alguém que se importava o suficiente com sua memória para, 54 anos depois de sua morte, homenageá-la com a mesma flor que ela usara em seu casamento. (E por que ele mesmo não pensara em levar rosas brancas em vez de vermelhas?)

Passou os olhos pelos túmulos vizinhos para ver se por acaso alguém havia deixado rosas sobre todos eles. Não. Apenas sobre o de sua Bette.

Concluiu imediatamente que havia sido presenteado com uma nova pista. Um novo caminho. Alguém ainda se lembrava de Bette Michelet.

Tomou a decisão mais prática – ainda que exaustiva – e passou a semana seguinte praticamente acampado no cemitério de Saint-Paul-de-Vence. Chegava assim que o portão se abria, às nove da manhã, e saía apenas quando se fechava no final da tarde. Leu três livros, adiantou sensivelmente o novo original no qual trabalhava e teve queimaduras quase de segundo grau nos braços em função da exposição contínua ao sol.

E ninguém se aproximara novamente da sepultura.

Já temia aquilo. Que a rosa houvesse sido deixada em lembrança de uma data específica – no caso, 28 de maio. O que era estranho, já que não se tratava nem do dia de nascimento ou de morte de Bette. A rosa branca celebrava algo, isto era claro. Mas o quê?

Então se deu conta de sua única opção restante.

Teria que voltar dali a um ano e esperar pela pessoa que deixara a rosa branca.

Retornou  ao hotel para arrumar a mala.

(fim da segunda – e penúltima – parte.)

Projeto Breaking Bad – S01E01 – Piloto

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Críticas, Séries de tevê | 24 comentários

(Fuck you, Bogdan! Fuck you and your spoilers!)

Piloto

Dirigido e roteirizado por Vince Gilligan. Fotografia: John Toll. Montagem: Lynne Willingham. Música: Dave Porter. Design de produção: Robb Wilson King. Direção de arte: James Oberlander. Figurinos: Kathleen Detoro.

Com: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, R.J. Mitte, Steven Michael Quezada, Max Arciniega, John Koyama, Marius Stan.

“A Química é o estudo da mudança”, diz Walter White no episódio piloto de Breaking Bad, completando pouco depois: “É como a vida. (…) Crescimento, decomposição, transformação”.

Numa visão superficial, o personagem interpretado por Bryan Cranston poderia estar simplesmente cumprindo seu papel como professor da disciplina diante de um bando de alunos desinteressados; um olhar mais atento, porém, imediatamente perceberia que naquela fala estava contida a temática da própria obra criada por Vince Gilligan e que fascinaria espectadores durante os cinco anos seguintes ao enfocar a transição de Walter de um pacato e fracassado educador colegial até se tornar o cabeça cruel e implacável de um império das drogas.

s01e01-01

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A Mulher no Livro de Granito

postado em by Pablo Villaça em Livros, Variados | 1 comente

O som do cascalho sob seus pés era um de seus favoritos no mundo. Respirou fundo, fechou os olhos e ergueu o rosto para sentir o calor do sol. Sorriu e voltou a caminhar.

O cemitério era lindo.

Já estivera em muitos cemitérios. Sempre que visitava uma cidade nova, fazia questão de conhecer dois lugares: o mercado público e o cemitério. No primeiro, testemunhava a cor local, entreouvia sotaques em conversas animadas e sentia os cheiros particulares do lugar; no segundo, mergulhava um pouco em seu passado, via rostos que já não existiam e imaginava a vida que deixara de ser.

E ao longo dos anos, constatara que não havia dois mercados ou dois cemitérios iguais. Ainda assim, nada o preparara para o de Saint-Paul-de-Vence.

Localizado na Riviera francesa, o vilarejo datava da Idade Média e se tornara uma atração turística precisamente pelo charme das pequenas edificações que, situadas no alto de uma montanha e ladeadas pelos grossos muros do que fora uma fortificação, vigiavam todo o imenso e belo vale ao seu redor. Boa parte dos espaços havia sido ocupada por pequenas galerias de arte e por charmosos restaurantes, mas ainda era possível perceber que muitas famílias ocupavam as antigas casas de pedra – e, o mais importante para ele, mantinham o velho cemitério ativo.

Situado ao sul do vilarejo, este se projetava sobre o vale abaixo, trazendo antigas sepulturas que pareciam equilibradas à beira de declives que ofereceriam aos seus ocupantes uma vista invejável caso não estivessem presos em suas residências de cimento e cegados pelo inconsciente eterno.

Mais comprido do que largo, o cemitério se estendia por cerca de duzentos metros a partir da muralha de Saint Paul de Vence e podia ser dividido em três níveis separados por uma pequena escadaria e por uma inclinação natural do terreno, trazendo lápides que iam de conceitos elaborados (e caros) a outras surpreendentemente simples e que traziam apenas os nomes dos falecidos em alto relevo sobre uma placa plana de cobre.

Ele se aproximou do pequeno portão de metal verde, no qual um mapa rudimentar do local era exibido, e notou que este destacava a localização do túmulo de Marc Chagall: a partir da entrada, deveria virar a primeira à direita e depois à esquerda. Embora seu interesse por cemitérios nada tivesse a ver com o local de repouso de nomes famosos, percebeu que gostaria de ver onde o pintor estava enterrado.

Considerando a relação problemática que Chagall mantinha com a própria herança judaica, ficou surpreso ao perceber a quantidade de pedras deixadas por visitantes sobre sua sepultura; por outro lado, a abundância de moedas de um centavo norte-americano não o espantou: turistas vindos dos Estados Unidos tinham o hábito de deixá-las em qualquer túmulo famoso que visitassem ao redor do planeta. Hesitou sobre a possibilidade de abaixar-se e pegar uma pedra para colocá-la ao lado das demais, mas decidiu que respeitaria a indefinição do morto sobre sua religião e abandonou a ideia. Notou, então, que um grupo de turistas japoneses se aproximava para visitar o artista e se afastou rapidamente.

Fez, a seguir, o que costumava fazer nestas visitas, passando a ler os nomes e datas de nascimento e morte presentes nas lápides. Interessava-se principalmente por aquelas que traziam pequenos retratos de seus ocupantes, pois sentia que isto conferia maior realidade às suas histórias, transformando aqueles nomes em pessoas de carne e osso. Conseguia imaginá-los sorrindo, chorando, vivendo. Às vezes, chegava mesmo a derramar algumas lágrimas diante de certas fotos, dependendo do que lia em suas expressões.

Questionava-se se aquele era um exercício saudável, mas convencia-se de que, como escritor, extraía no mínimo alguma inspiração da experiência.

Sob a sombra de uma sebe, viu a sepultura da família Maeght e admirou sua simplicidade. Mais cedo, estivera na fundação que levava o nome do casal formado por Aimé e Marguerite e lera, num painel, como haviam decidido criar aquele espaço após a morte do filho Bernard, aos 11 anos de idade – mas, de alguma forma, ver seus nomes inscritos em mármore e ler suas datas determinantes era algo que os tornava mais palpáveis.

Este era um efeito colateral inevitável de suas visitas a cemitérios, aliás: ler epitáfios como “Ao nosso pequeno filhinho Remi” trazia a tragédia da vida de desconhecidos que vieram em outra época para perto de seu próprio cotidiano – e isto o ajudava nas projeções de seus textos e, gostava de crer, o tornava mais humano.

Nada, porém, que o preparasse para a descoberta que faria em alguns minutos e que ocuparia boa parte de seus pensamentos nos dois anos seguintes de sua vida.

Afastou-se do túmulo da família Maeght e desceu os degraus para o segundo nível do cemitério. Decidira visitar o vilarejo num impulso ao descobrir que, por engano, marcara seu retorno ao Brasil com um dia de atraso, prendendo-o a Nice por mais 24 horas. A passagem por Saint-Paul-de-Vence, contudo, estava se revelando um dos pontos altos de sua viagem.

Família Papillon. Lorious. Goletto.

E então viu a foto.

Envolvido por uma moldura oval prateada, estava o retrato de uma mulher jovem e sorridente. Vestindo um terninho cinzento (ou que parecia cinza, já que a imagem estava em preto-e-branco), ela olhava para a câmera enquanto trazia sobre a cabeça uma espécie de véu branco que se abria para lhe revelar o rosto. Talvez aquela imagem fosse da cerimônia civil de seu matrimônio, já que não usava o vestido tradicional – embora a grande rosa branca sobre o terno, acima do seio esquerdo, sugerisse alguma formalidade.

Seus lábios eram finos e abriam espaço para os dentes que tornavam seu largo sorriso tão encantador e que levava suas maçãs do rosto a se projetarem e a exibirem um rubor que era perceptível mesmo em tons de cinza. O cabelo, preto e curto, surgia numa franja encaracolada sobre a testa, ao passo que as sobrancelhas bem delineadas protegiam seus olhos escuros.

Foram os olhos que o capturaram. Ladeando o nariz estreito, quase classicamente grego na forma como se encurvava sobre a boca, seus olhos eram expressivos como poucos – e se evocavam algum sentimento, era o de tristeza, embora sorrissem.

Olhos tristes tendiam a ser os mais belos. E os dela eram, neste aspecto, maravilhosos.

Estudou a pequena escultura sobre a lápide que, feita em pedra de granito, exibia o formato de um livro aberto que trazia as palavras “A mon épouse chérie. Votre mari dévoué.” em uma página e a foto da garota na outra sobre seu nome e suas datas de nascimento e morte:

Bette Michelet
1932-1961

29 anos tinha Bette ao morrer. E morrera 13 anos antes de ele nascer. Não chegaram a coabitar o planeta, mas ele agora a conhecia. Observou pensativo o retrato por alguns minutos e, sentindo-se triste, decidiu retornar ao hotel.

Despertou no dia seguinte pensando em Bette. Tomou o café da manhã e passou cerca de duas horas na piscina tentando se distrair. No banho antes do almoço, descobriu-se sob a ducha depois de meia hora distante no passado ao imaginar o cotidiano da moça.

Retornou ao cemitério naquela tarde e tirou algumas fotos do túmulo. Precisava saber mais sobre aquela jovem esposa morta tão precocemente e também sobre o marido que a chamara de “querida” no granito.

———— x ———–

Digitou “Bette Michelet” no Google, entre aspas, para garantir o nome exato seria investigado pelo buscador. Pensara em incluir “Saint-Paul-de-Vence” na busca, ou sua data de morte, mas desistiu: queria encontrar a maior quantidade possível de resultados.

Descobriu apenas cinco – e obviamente nenhum deles era sobre “sua” Bette. Havia uma norte-americana com este nome na Flórida que aparecia sob o título “Wonder who’s calling you?” – um site que aparentemente oferecia o serviço de revelar os titulares de contas de telefones celulares. Além disso, o Google trouxe duas listagens que incluíam “Le cousin Bette”, de Balzac, ao lado de “Le peuple”, de Jules Michelet. Em compensação, falhara em encontrar uma única menção à Bette Michelet enterrada no sul do vilarejo medieval mais famoso da Riviera.

Suspirou, frustrado, e tentou buscar “Bette” e “1961”. Nada.

A Internet, em suas quase 50 bilhões de páginas indexadas pelo Google, se recusava a reconhecer que a moça existira.

Olhou para o relógio e constatou que, se quisesse pegar o avião, deveria se apressar. Jogou na mala as duas camisas que usara em sua rápida passagem por Saint-Paul e guardou os objetos de higiene pessoal na mochila. Sentou-se na beirada da cama e encarou o chão.

E percebeu que não podia partir sem tentar descobrir mais sobre Bette Michelet, que morrera há 54 anos.

Pegou o telefone para ligar para a companhia aérea e sentiu um frio na barriga ao olhar pela janela do quarto e notar que conseguia divisar, ao longe, a silhueta borrada do cemitério no qual se encontravam os restos de sua nova e inesperada obsessão.

(fim da primeira parte)

A Arte de The Last of Us

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Variados | 28 comentários

A discussão sobre a natureza artística dos games é tola. Qualquer obra criada por um humano (ou uma equipe) que vise provocar uma reação emocional/psicológica em outras pessoas é, por definição, Arte. Podemos discutir o grau de maturidade no qual os games se encontram como forma de expressão artística – e certamente podemos abordar a questão da autoralidade em um jogo criado dentro de um conceito industrial (como no próprio Cinema), mas descartar seu valor intrínseco é algo que só pode ser fruto de puro preconceito.

E digo isso como alguém que raramente joga, já que o tempo exigido para se alcançar o final de uma história normalmente é contabilizado na casa das dezenas de horas – e como minha forma predileta de Arte é o Cinema seguido pela Literatura, não consigo deixar de ficar frustrado ao imaginar quantos filmes ou livros teria conseguido consumir no mesmo período.

Nos últimos dois dias, porém, permaneci mergulhado em um título que diversos leitores insistiram para que eu jogasse: The Last of Us. E a experiência me despertou algumas reflexões que considerei estimulantes sobre a narrativa dos games.

Em primeiro lugar, é preciso definir o que é narrativa – um conceito que muitos confundem com “história” e algo que discuto amplamente em meus cursos.

Segundo uma definição clássica, “narrativa é o enunciado em sua materialidade”. Trocando em miúdos, é basicamente tudo o que vemos e ouvimos na tela e que envolve todas as escolhas que um realizador faz ao empregar os recursos à sua disposição para envolver o público. Se no Cinema a narrativa envolveria, portanto, a fotografia, a montagem, o som, o roteiro, os atores e assim por diante, nos games modernos (como The Last of Us) a narrativa emprega tudo isto, mas também alguns recursos particulares e intrigantes.

De acordo com Christian Metz, tudo que é exclusivo do Cinema é “cinematográfico” (outro termo que muitos usam incorretamente, portanto). Assim, como confesso não ter conhecimento sobre literatura teórica sobre games, não sei se há um termo similar para este tipo de obra – mas deveria existir. Assim, me permito brincar de Metz e usar a expressão gametográficos (sim, sou absurdamente criativo) para definir alguns destes elementos que não têm similares em outras formas artísticas e que discutirei daqui a pouco.

Antes, um pequeno resumo do que se trata The Last of Us (e este texto trará spoilers): roteirizado por Neil Druckmann (e trazendo uma trilha melancólica do fantástico Gustavo Santaolalla), ele tem início em um mundo que está começando a viver os efeitos de uma epidemia zumbi. Na noite final de paz da humanidade, conhecemos Sarah (Hana Hayes), uma adolescente que, vendo o pai preocupado em uma discussão ao telefone com o tio, presenteia o sujeito com um relógio por seu aniversário. Logo em seguida, o homem, Joel (Troy Baker), é atacado por um vizinho contaminado e parte em fuga com a menina e com o irmão Tommy (Jeffrey Pierce). No entanto, Sarah acaba sendo baleada e morta por um militar – e quando voltamos a encontrar Joel, vinte anos se passaram e ele se tornou parceiro de Tess (Annie Wersching), comercializando armas em troca de cartões de ração alimentar. Depois de terem parte de seus produtos roubados, os dois aceitam, contrariados, a tarefa de transportar a jovem Ellie (Ashley Johnson) até um laboratório controlado pelos rebeldes Vaga-Lumes, já que a menina, imune à epidemia, pode representar uma possibilidade de cura.

Nada original, é verdade. Um mundo pós-apocalíptico tomado por zumbis e no qual os humanos se mostram tão perigosos quanto os mortos-vivos já foi retratado em inúmeras histórias – bem como o velho clichê da “última esperança da Humanidade”. Porém, o que torna The Last of Us memorável não é a originalidade de sua trama, mas o envolvimento que promove entre o jogador e os personagens.

E aqui começo a discutir os elementos narrativos “gametográficos”.

O primeiro deles é a opção que um jogo tem de permitir ou não que o jogador controle este ou aquele personagem. Se as narrativas convencionais empregam recursos clássicos para provocar uma identificação entre o espectador e os indivíduos na tela (usando as situações vividas por estes como intermediárias, naquilo que chamamos de “identificação cinematográfica secundária”), um game tem um recurso adicional e instigante: levar o espectador/jogador a assumir a responsabilidade pelas ações dos personagens.

Observemos, por exemplo, o que ocorre em The Last of Us: assim que o jogo tem início, o primeiro rosto que vemos é o de Sarah num primeiro plano – e, portanto, não ficamos surpresos quando passamos a controlá-la, o que desperta a conclusão óbvia (mas precipitada) de que ela será nosso avatar naquele universo. Assim, estabelecemos uma ligação emocional instantânea com a personagem sem que saibamos nada sobre ela ou sua situação – o que seria um pré-requisito habitual na narrativa cinematográfica.

O curioso é que, como criança, Sarah logo passa a ser protegida pelos adultos – e ainda assim o jogo nos mantém presos a ela numa sequência na qual o máximo que podemos fazer é, do banco de trás de um carro, mudarmos o ponto de vista da câmera, impotentes, enquanto Joel dirige o veículo em fuga.

Até que, claro, passamos a controlar o sujeito num momento-chave e imediatamente “permitimos” (um verbo injusto, já que não há como evitar o que ocorre) a morte de Sarah.

Há algo de brilhante nesta estratégia: não só a personagem com a qual nos identificáramos inicialmente morre, provocando um choque emocional instantâneo pela surpresa do rompimento da ligação, mas esta morte ocorre, de certa forma, por nossa responsabilidade enquanto comandávamos seu pai, levando-nos a experimentar o peso que este vive por fracassar em proteger a filha. Caso comandássemos Sarah rumo à morte, a sensação seria simplesmente a de que estávamos trocando o controle de um personagem por outro em função da necessidade da história, mas como isto ocorre enquanto controlamos Joel, a sensação de insucesso se soma ao da perda.

Neste aspecto, The Last of Us é um jogo que compreende muito bem algo que muitos contadores de história falham em entender: o espectador só lamenta a morte de um personagem fictício se foi capaz de estabelecer, com este, algum tipo de ligação – e continuamente, ao longo do game, somos torturados com a perda de pessoas com as quais passamos a nos importar.

Observem, por exemplo, o que ocorre com os irmãos Henry (Brandon Scott) e Sam (Nadji Jeter): tornando-se companheiros de jornada por algum tempo, eles espelham a dinâmica entre Joel e Ellie, já que temos um adulto se empenhando para manter um adolescente vivo. No entanto, em certo momento, o game separa as duplas, mas de forma inesperada, obrigando Joel (ou seja: o jogador) a cuidar do bem-estar de Sam por algum tempo. Em outras palavras: ao mesmo tempo em que sentimos a ansiedade que a distância de Ellie provoca (ela é nossa responsabilidade, afinal), somos estimulados a estabelecer uma ligação com o outro garoto.

E se seu destino nos afeta, é por que o jogo se certificou de que nos afetaria ao nos obrigar a cuidar do menino.

Já o outro elemento narrativo gametográfico que merece atenção são as cut scenes. Numa visão superficial, elas teriam o mero propósito de avançar a trama, oferecendo informações adicionais, trazendo elipses e usando o diálogo e ação para aparentemente devolver um pouco do controle aos realizadores (e uso o “aparentemente” porque obviamente eles jamais cedem o controle; só podemos influenciar o curso da ação dentro de limites pré-estabelecidos por eles mesmo que acreditemos estar no controle). Porém, as cut scenes fazem mais do que isso: criam expectativas.

De modo geral, quando o jogador percebe o início de uma cut scene, sua tendência é a de relaxar momentaneamente: parte da trajetória foi concluída e podemos largar um pouco o controle. Contudo, como um game que reconhece as regras do gênero “terror”, The Last of Us usa pontualmente esta reação previsível do jogador para surpreendê-lo: em certos momentos, logo depois de cortar para uma cena de transição, o jogo introduz um choque (alguém que ataca o protagonista, por exemplo), devolvendo o controle para o jogador quando nos julgávamos temporariamente dispensados daquela obrigação. Já em outros instantes, a cena nos frustra ao recompensar todo nosso esforço com a captura do personagem que lutáramos tanto para libertar, o que, do ponto de vista emocional, torna a experiência menos previsível e, consequentemente, mais interessante.

Mas há mais: graças ao cuidado dos realizadores, The Last of Us é repleto de detalhes secundários que, mesmo não influenciando o desenvolvimento da trama, permitem uma imersão maior no universo criado pelo jogo. Frequentemente, enquanto percorremos os extensos mapas, temos a opção de revistar os cenários, encontrando pequenas evidências de histórias que enriquecem a narrativa: fotos de desconhecidos, bilhetes deixados para pessoas amadas, rabiscos na parede que tentam guiar parentes perdidos para algum lugar e assim por diante. O mais fascinante, porém, é que o empenho inicial que o jogador demonstra ao ler aquelas notas e vasculhar os ambientes aos poucos vai se tornando menos intenso. Sim, parte disso se deve ao cansaço com o passar das horas e à vontade de chegarmos logo ao final, mas o curioso é que, de certa maneira, isto reflete também uma certa “dormência”: por que deveríamos perder tempo e investir emoções em histórias que não só se repetem em suas tragédias como nos atrasam?

Uma “dormência” que, quando reencontramos Joel vinte anos depois da introdução, estranhamos em seu comportamento.

Em outras palavras: a narrativa leva o espectador a assumir, aos poucos, a mesma postura do protagonista, permitindo que compreendamos exatamente porque se encontra emocionalmente anestesiado depois de passar duas décadas naquele mundo.

O que nos traz, claro, a Ellie.

Do ponto de vista de trama, o que The Last of Us faz é seguir um recurso dramático clássico: retrata uma perda do herói apenas para levá-lo a viver a possibilidade de recuperar-se daquele trauma ao ganhar uma “segunda chance” – e não é à toa que Ellie tem o mesmo sexo e a mesma idade de Sarah. Ainda assim, a construção da dinâmica entre os dois é feita com paciência pelo jogo, permitindo que percebamos como Joel realmente faz o possível para não se deixar envolver emocionalmente – uma tarefa na qual também falhamos graças a pequenos detalhes da história da adolescente, cuja vulnerabilidade constante (sempre uma maneira infalível de gerar identificação) é também refletida em sua incapacidade de nadar ou mesmo de assobiar. Ellie é frágil e isso nos comove. Depois que esta ligação é formada, no entanto, a garota começa a se tornar cada vez mais forte e independente, o que auxilia a mecânica do jogo (tornando as tarefas mais fáceis graças à cooperação), mas também reflete a influência de Joel sobre ela – até que passamos a nos preocupar menos com sua fragilidade física e mais com os efeitos psicológicos que tudo aquilo terá sobre ela.

Finalmente, um elemento que me deixou particularmente fascinado foi a impressão de livre-arbítrio.

A princípio, se há algo que diferencia um jogo de um filme é o fato de termos controle sobre a ação dos personagens. Isto, porém, é uma ilusão em qualquer game que queira contar uma história com o mínimo de estrutura. Sim, é possível que existam três, quatro ou quinze finais diferentes, mas todos estes foram concebidos pelos realizadores dentro de parâmetros estruturais definidos com antecedência. E em The Last of Us, isto é ainda mais limitado, já que conhecemos a jornada que temos que viver e sabemos para onde temos que ir  - por mais que talvez queiramos fazer algo diferente.

À medida que me aproximava do hospital que serve de cenário para o clímax do jogo, por exemplo, percebi que algo pouco promissor me esperava. Pior: esperava por Ellie, que, afinal, estava sob minha responsabilidade e com a qual estabelecera uma ligação forte. Assim, me peguei ansioso e com o desejo de voltar atrás, de não concluir a viagem – e aí é que entra a inevitabilidade do game: minha única opção seria parar de jogar (o que traria a frustração incontornável de não conhecer o fim da história), já que não havia alternativa.

Isto, porém, não é demérito de The Last of Us. Ao contrário: não só é fundamental para que uma história tenha estrutura, mas provoca uma ansiedade eficaz do ponto de vista dramático e mesmo um suspense crescente, já que sabemos que algo nos aguarda, mas ainda assim somos obrigados a prosseguir.

O que nos traz ao final do game (que deve muito a O Poderoso Chefão ao trazer Joel contando uma mentira que permitirá que sua relação com Ellie prossiga): emocionalmente satisfatório ao concluir o arco de Joel – que finalmente atinge algum grau de paz com seu passado ao abraçar seu sentimento por Ellie (e é belo perceber como ele toca levemente o relógio quebrado presenteado por Sarah ao tentar convencer a garota a seguir ao seu lado) -, o desfecho de The Last of Us ainda prova a elegância narrativa com que foi concebido ao empregar uma rima encantadora, já que, depois de abrir a experiência permitindo que controlássemos Sarah, encerra a jornada levando o jogador a guiar as ações de Ellie.

Aliás, se reconhecemos a importância destas duas pontas nas quais guiamos as jovens protegidas e amadas por Joel, isto ocorre porque, entre elas, nos empenhamos para que pudessem formar este espelho dramático tão apropriado.

E observar toda esta construção tão cuidadosa e ainda negar que há Arte na concepção de um game é algo absolutamente impossível.

O Amor nos Tempos do Chat

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 3 comentários

Viu a luz verde surgir na janela de chat do Facebook e congelou.

Na verdade, sabia que não era uma luz verde; apenas um círculo colorido indicando que a outra pessoa encontrava-se online e não havia bloqueado a possibilidade de ser chamada para uma conversa – e embora o verde tivesse um significado universal de “siga em frente”, ele experimentava um sentimento de quase pânico diante da possibilidade de dar o passo seguinte.

Era mais velho. Anacrônico, de certo modo. Mesmo na juventude, flertar era uma dificuldade constante. Não que fosse inseguro ou tivesse algum complexo, pois não se tratava disso. Tinha apenas um imenso receio de constranger o alvo de sua atenção.

Sabia que as mulheres eram constantemente empurradas contra a parede – e se esta fosse apenas metafórica, já seria um alívio. Na rua, eram importunadas sem qualquer consideração por sua privacidade; online, eram “fair game”. A última coisa que queria era ser mais um da matilha e perturbar a garota enquanto esta navegava pelo Facebook em busca de atualizações dos amigos, de links interessantes ou de conversas casuais sobre esportes, séries ou livros.

Mas a luz verde o atraía como se fosse uma mariposa prestes a se eletrocutar numa lâmpada.

A lâmpada, claro, era adorável. Ele conversara com ela algumas vezes pessoalmente, mas só amenidades. Nos dias seguintes, porém, havia agido como um adolescente impulsivo e stalkeado suas redes sociais: lido atualizações, clicado nas músicas que compartilhava, visto algumas fotos. E a julgava cada vez mais encantadora.

Deveria ter exercido alguma autodisciplina. Ela certamente o consideraria velho demais, invasivo demais, sem noção demais.

Fechou a aba do navegador e foi ao Netflix. Vá assistir a algum filme. Ou talvez a um episódio de Demolid…

Estava novamente no Facebook.

Porra. “Controle-se!”.

A luz verde continuava acesa.

“Não é um sinal de avance. É um aviso de que ela pode ser chamada para conversar. Só isso. Mas talvez não seja uma boa id…”

13 de abril. 00:22.

Ei. Obrigado por aceitar.

Hein? Por que mandara a mensagem? Não, não, não.

13 de abril. 00:39

De nada! :)

Dezessete minutos para responder. E ela estava online o tempo todo. É claro que ela não tem interesse algum. Óbvio. Pare por aqui.

13 de abril 00:40

Você está na faculdade ainda?

“Você percebeu o que acabou de perguntar? Se ela está na faculdade? Só por ter que perguntar isso, você já deveria se envergonhar. Quinze anos de profissão, o senhor tem. Quinze. É um homem de quase meia-idade. Ela está começando a vida. Não seja um clichê.”

“Mas ela é tão adorável. Será que isso deveria ser mesmo um empecilh…”

Agora estava agindo como Gollum.

13 de abril 00:47

Não, me formei há dois anos. Trabalho com jornalismo e faço pós.

Respirou aliviado. Ela não é uma criança.

O que deveria escrever a seguir? Pressionou algumas teclas, iniciando a frase seguinte, mas parou ao ler

…digitando

Ela estava mandando uma mensagem. Interrompeu a digitação e aguardou.

O “digitando” desapareceu. Ela havia parado de escrever? Será que vira que ele também estava escrevendo e decidira esperar para ver que mensagem ele mandaria? Ou havia mudado de ideia e decidido não prosseguir com a conversa?

Não sabia mais como se comportar nessas situações.

Sem ter ideia do que fazer, comentou sobre a cor do cabelo da garota.

“O quê? Idiota.”

A luz verde se apagou.

————————————–

Dois dias se passaram. Ele sentia-se perdido. Nem tanto pela aparente rejeição, mas por não ter ideia de como reagir a esta. Quando jovem, o “não” era dito inequivocamente: um virar de rosto negando um beijo, um “você confundiu as coisas”, um “pare”. No Facebook, o “não” era o silêncio. Que ele temia interpretar erroneamente. E se ela estivesse apenas tentando encontrar a melhor maneira de continuar o flerte?

Alguém ainda usava a palavra “flerte” ou ele estava sendo machadiano?

Ela estava offline. Ou o havia bloqueado? Por que as coisas agora eram tão complicadas?

“Na realidade, são mais simples. Antes, você precisaria encontrar com ela em algum lugar. Uma festa, uma boate, um bar. Ou conseguir o telefone, ligar e pedir para falar com ela. Agora, o contato estava ali. Voce sabia, pela luz verde (não é uma luz!), que ela estava do outro lado da tela.”

Mas não podia ver seu rosto, ler sua expressão e avaliar sua reação.

17 de abril 01:05

Estou com a impressão de que te ofendi.

Queria pedir desculpas, mas não estava convicto de que ela havia se ofendido.

17 de abril 01:06

Imagina! Não ofendeu de maneira alguma. Considerei um elogio.

Um minuto pra responder. Significaria algo?

Riu sozinho. Em sua adolescência, jamais lhe ocorreria cronometrar o tempo de resposta para tentar mensurar o grau de envolvimento da outra parte. Será que esta era a regra nos dias de hoje ou ele estaria superinterpretando tudo?

17 de abril 01:07

Ah, que bom. Porque foi. Atrapalhado, mas foi. :)

Merda. Deveria ter esperado mais de um minuto para responder. Mas não gostava de jogar. Embora o jogo fosse excitante.

Percebeu que gostava quando sabia que havia um jogo em andamento, mas não quando estava incerto sobre a existência de um. Flertar era bom, mesmo quando havia uma negativa aparente por baixo de uma aceitação, mas era doloroso quando a rejeição era clara. Estaria envolvido no primeiro tipo ou no segundo?

No segundo. Óbvio. Você é velho. Ela tem a vida toda pela frente.

17 de abril 19:30

Trabalha onde?

De novo o trabalho. Por que perguntara aquilo?

Porque era seguro. Numa situação de emergência, poderia dizer que estava apenas curioso com relação às atividades profissionais dela. Como se ela fosse acreditar.

17 de abril 19:34

Faço freela. Estou escrevendo para duas revistas.

Queria abraçá-la. Beijá-la. Levá-la para viajar e mostrar o mundo para ela.

Iria chamá-la para jantar. Isso. Ela poderia rejeitar, claro, mas ao men…

digitando.

Prendeu a respiração. É, voltara à adolescência.

17 de abril 19:37

Bom, estou indo jantar. A gente se fala.

Não, não, não.

17 de abril 19:38

Você ficou ofendida, né? Relendo a conversa, acho que passei a impressão errada.

Patético. Ele havia passado exatamente a impressão que queria passar: a de que havia se encantado por ela. Covarde.

17 de abril 19:41

Claro que não. Achei normal.
Digo: não achei nada de mais.

Ele fracassara. Sem nem saber exatamente se ela havia realmente entendido o que ele queria ter dito. Talvez…

17 de abril 19:42

Bom… beijo. Até.

“Até”??? Não havia algo mais eloquente a dizer??

17 de abril 19:42

Até.

O círculo verde desapareceu.

E, com este, uma luz dentro dele se apagou.