True Detective

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Séries de tevê | 24 comentários

Em certo momento do último episódio desta primeira e fabulosa temporada de True Detective, o detetive Rust Cohle, vivido por Matthew McConaughey, comenta ter percebido que há apenas uma história a ser contada, “a mais antiga de todas: a Luz versus a Escuridão”. É então que seu parceiro Marty Hart (Woody Harrelson), até então um sujeito bem mais otimista que o outro, completa, olhando para o céu estrelado: “Parece que a Escuridão tem bem mais território”.

É um instante tematicamente apropriado – especialmente considerando a última fala da série, dita por Cohle, que revela uma visão contrastante com o niilismo que dominara sua filosofia de vida durante todos os episódios: após anos e anos de convivência, Rust e Marty parecem ter atingido algum entendimento – e até mesmo uma sobreposição/quase inversão de suas respectivas posturas diante do mundo. Seria impossível, para este último, manter sua autoimposta cegueira depois de tantas experiências traumáticas, ao passo que o primeiro, que partira de um extremo e compreensível pessimismo, parece descobrir, ao quase morrer, algum sentido que lhe permita continuar vivo e (relativamente) são.

Estas jornadas psicológicas e emocionais são, em última análise, a principal virtude uma série que, sob a estrutura de um thriller policial, exibia preocupações mais filosóficas acerca de seus personagens – e a relação entre Marty e Rust sempre foi a alma da série e o motor de sua ação. Um dos maiores atrativos de True Detective residia não necessariamente na investigação do assassinato de Dora Lange (ainda que esta fosse suficientemente interessante para prender a atenção do espectador), mas nos embates entre os dois heróis: o pragmático e hedonista Marty e o introspectivo e solitário Rust.

O contraste, aliás, encontrava reflexo até mesmo em seus históricos familiares: se Rust exibia todas as cicatrizes da morte de sua filha pequena, Marty pouco valorizava a bela família que o cercava – e é irônico que justamente este insistisse em manifestar sua crença em valores religiosos e em um “sentido” para a vida, demonstrando impaciência crítica para com a descrença do parceiro diante de credos e outros conceitos metafísicos. Ao longo dos oito episódios, os dois homens frequentemente mantiveram conversas que acabavam resultando em um acordo tácito de silêncio provisório, já que nenhum consenso seria possível entre personalidades tão opostas – e a tensão e o humor dos roteiros de Nic Pizzolatto surgiam precisamente da constatação de que aqueles discussões se repetiriam enquanto os detetives mantivessem sua parceria.

Enquanto isso, o mistério que investigavam refletia, ao seu próprio modo, o centro filosófico daquelas mesmas questões: envolvendo crimes bárbaros contra mulheres e crianças (que, no mundo masculino habitado por Rust e Marty, eram não só a única salvação possível, mas também – e talvez por isso – suas vítimas constantes), a investigação inevitavelmente obrigava os detetives a confrontar a natureza do próprio Mal e, assim, o que chocava o personagem de Harrelson era visto pelo de McConaughey como uma extensão óbvia das perversidades do Homem. Suas respectivas reações, claro, correspondiam às suas posições habituais: Marty encarava os crimes como um trabalho a ser resolvido e então esquecido, enquanto Rust via ali uma batalha clássica contra a Escuridão.

Assim, é natural que a direção impecável de Cary Fukunaga tenha extraído tensão não das sequências de ação (ainda que tenha criado algumas memoráveis, como aquela que trazia os heróis se aproximando da casa de Reggie Ledoux e, claro, outra que envolveu um sensacional plano-sequência de seis minutos de duração), mas do clima subjacente de terror que permeava a trajetória dos detetives – e não é à toa que em vários momentos a série parecia flertar com o sobrenatural. Além disso, é preciso dar créditos ao roteiro pela forma elegante com que introduz e explora a referência aos contos de Robert Chambers na antologia “The King in Yellow”, costurando o principal elemento destes em sua própria narrativa: um texto teatral quase mítico que inspira horror e loucura em que o lê.

Claro que, acostumados como estamos com os clichês do gênero policial (e sua subcorrente sobre serial killers), muitos espectadores logo se tornaram obcecado com a identidade do “Yellow King” sugerido por True Detective – e quando tuitei, há alguns dias, que aqueles que se concentravam no elemento “quem é o culpado?” estavam assistindo à série de forma errada, minha intenção era justamente a de evitar um desapontamento com o que o final da temporada prometia trazer (o que não impediu alguns de me enviarem mensagens agressivas, mas isto faz parte da natureza da Internet).

Pois o “Yellow King” era mais que uma identidade, mas um conceito. Um conceito de horror e loucura – exatamente como apresentado por Chambers -, mas também um que gira em torno da capacidade humana de inflingir mal ao próximo. O “monstro no final do labirinto” mencionado por Rust num dos primeiros episódios é ao mesmo tempo literal (no caso deste final de temporada) e metafórico, podendo representar qualquer um dos seres sádicos sobre os quais lemos todos os dias nos jornais e que vão desde estupradores e assassinos até os “justiceiros” que se conferem os papéis de policiais, juízes e carrascos nas ruas brasileiras (e que incluem apresentadores(as) de tevê que sociopaticamente incentivam o linchamento). O mundo é repleto de Tuttles, de Errol Childress e afins – e é natural que, para escaparmos do sentimento de futilidade e de falta de propósito, tantos de nós busquem uma religião ou alguma outra forma de escapismo e/ou consolo. A simbologia religiosa presente em todos os episódios de True Detective é um reflexo disso – e inclui a própria religião concebida/seguida por seu vilão principal, que tem até mesmo seus símbolos sagrados e rituais particulares.

Um escapismo que, mesmo artificial, tem seu valor – desde que não utilizado para oprimir  outros. Assim, é interessante que o mais cético dos personagens da série pareça descobrir, ao fim, um significado metafísico, uma “continuação” pós-vida.

Porque, ao fim, True Detective não é sobre mistérios ou mesmo criminosos, mas sobre seus heróis. É por isso, aliás, que sua estrutura, dividida em três tempos, é tão eficaz: quando descobrimos, no presente, que os heróis que admiramos no passado deixaram de se falar, sentimos frustração diante do rompimento – e, consequentemente, uma alegria compreensível quando retomam a velha parceria. E esta temporada da série de Pizzolatto girava em torno disso, destes homens falhos, quebrados, mas que se penitenciavam por seus erros e sonhavam em melhorar – mesmo nem sempre agindo segundo este sonho.

Basicamente, True Detective foi tão eficaz como narrativa por preparar o espectador, durante quase oito horas, para o momento em que seus heróis durões se entregariam às lágrimas e enxergariam, no outro, um reflexo de sua própria fraqueza.

Mas também de sua força.

Videocast Oscar 2014

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos, Videocast | 6 comentários

Perdeu o videocast ao vivo durante o Oscar? Então veja agora:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

RioFilme e o Cinema Pinte-com-Números

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 19 comentários

Cinema é Arte coletiva. Sempre digo isso aos alunos dos meus cursos e é também uma filosofia que empreguei nos dois filmes que dirigi. Em ambos, os créditos finais trazem os dizeres “Um filme de…” seguidos pelos nomes de todos os integrantes da equipe. Eu posso ter escrito e dirigido ambos, mas eles jamais teriam saído do papel sem a colaboração preciosa de todos aqueles profissionais talentosos. Neste sentido, o Cinema é radicalmente diferente da Literatura, por exemplo, que em último grau surge do sofrimento solitário diante da tela em branco.

No entanto, há uma diferença gigantesca entre “Arte coletiva” e “Arte em comitê”. Na primeira, há colaboração, troca de ideias, visões pessoais que se concretizam a partir da cooperação; na segunda, há o dever de ajustar-se a uma decisão arbitrária ou burocrática que parte não da inspiração ou da motivação interna e criativa do artista, mas da necessidade de chegar a um consenso. E no consenso reside, por natureza, o lugar-comum.

Recentemente, li em algum lugar (perdoem o lapso; realmente não me lembro a fonte) as considerações de um jornalista sobre por que os roteiros das superproduções tendiam tanto à mediocridade. A constatação óbvia: como os longas devem atrair público dos mais diversos países, que, por sua vez, têm especificidades culturais contrastantes, estes roteiros não podem se arriscar em criar personagens e tramas que tragam sutilezas e subtextos, pois estas seriam inevitavelmente perdidas e ou mal compreendidas por espectadores de algum lugar do mundo. A solução, claro, é permanecer no meio-termo, no menor denominador comum.

Este é o Cinema em Comitê por excelência.

Um conceito que, inacreditavelmente, a RioFilme parece interessada em abraçar.

Em artigo recente de O Globo, o diretor comercial da RioFilme, Adrien Muselet, revelou os resultados de uma pesquisa encomendada pelo órgão para avaliar o gosto cinematográfico do carioca. Que surpresa: embora apenas 5% e 3% apreciem dramas e documentários, respectivamente, nada menos do que 24% surgem como “fãs incontestes” dos filmes de ação. As comédias ficam em segundo lugar, com 22%.

Claro. Óbvio. A RioFilme nem precisava ter desperdiçado dinheiro com esta pesquisa; bastava perguntar a qualquer um com dois ou três neurônios funcionais e uma mínima experiência com Cinema.

O que espanta, portanto, não é o resultado obtido, mas as conclusões às quais chegaram Muselet e Sérgio Sá Leitão, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro: a RioFilme deve investir mais em filmes de ação e menos em dramas e documentários.

Ok, esqueçamos, por um segundo, que a RioFilme é uma empresa que trabalha com recursos públicos e nasceu justamente com o propósito de incentivar o Cinema carioca. Voltarei a esta questão daqui a pouco. Antes, permitam que eu cite uma passagem específica da matéria de O Globo:

“Sá Leitão e Muselet concordam ainda em outro ponto: acreditam que, se o cinema nacional apostar na produção de filmes de ação, poderá abocanhar um mercado que hoje perde para filmes estrangeiros. Muselet lembra que os filmes de ação costumam ter mais potencial de exportação do que os de comédia.”

Hollywood deve estar tremendo de medo.

Ora, “abocanhar” mercado é algo importante, sem dúvida, mas deve ser um objetivo secundário de uma empresa que nasceu, segundo seu próprio site, para atuar na “revitalização do Cinema Brasileiro” – algo que, em 1992, era o mesmo que dizer “ressuscitar”, já que nosso Cinema havia sido basicamente destruído por Fernando Collor e pelo cineasta Ipojuca Pontes quando decidiram extinguir a Embrafilme. Revitalizar, contudo, implica justamente na necessidade de estimular a linguagem, não de engessá-la com determinações prévias sobre o que o público quer ou não ver.

Assim, é com espanto e mesmo com repugnância que vejo Muselet, importante executivo de uma empresa voltada para a criação cinematográfica, dizer algo como “Quem faz cinema faz aquilo que gostaria de ver, e não aquilo que o grande público espera.” – uma frase que soaria belíssima caso não fosse uma reclamação, uma crítica.

Fazer algo diferente do que o grande público espera é justamente o que empurra o Cinema para o futuro. É o que dá origem a obras como TatuagemElaSinédoque New YorkAcossado Cidadão Kane em vez de manter a Arte se repetindo com Até que a Sorte nos Separe 2Transformers 4 Jogos Mortais 21.

No entanto, mais importante do que isso é observar que estes últimos filmes, justamente por atraírem um público maior, já contam com a força do mercado. São precisamente aqueles primeiros que precisam do apoio de empresas como a RioFilme e das verbas públicas que trazem. A RioFilme não tem a obrigação do lucro recorde e é isto que a torna tão importante para projetos que se arriscam. Prendê-la ao formulaico, a filmes criados como resposta a um “X” marcado em um formulário de pesquisa, representa condenar inúmeros artistas, narrativas e histórias ao limbo do mercado.

A Argentina, que Muselet classifica como sendo “boa naquilo que também fazemos”, alcançou um sucesso internacional maior do que o nosso – embora produzindo bem menos filmes por ano e tendo uma linguagem menos diversificada – não por tentar se ajustar a interesses do mercado, mas por desenvolver uma linguagem própria que esconde, na aparente simplicidade de suas produções, uma riqueza tocante de temas e histórias. Gastamos infinitamente mais para produzir algo como Até que a Sorte nos Separe 2 do que os argentinos gastaram para fazer uma obra como Medianeras, O Filho da Noiva ou Leonera. 

Nossos cineastas estão entre os melhores e os mais criativos do mundo. Não me canso de dizer isso. Mas Cinema é uma arte cara.

Cara demais para que desperdicemos tempo e dinheiro no lugar-comum e deixemos de investir naqueles que querem torná-la melhor, mais rica e mais complexa.

Críticas dos Indicados ao Oscar 2014

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 5 comentários

Para facilitar, seguem abaixo os links para as 17 críticas que escrevi dos indicados ao Oscar 2014 (não, não escrevi sobre todos):

Ela
12 Anos de Escravidão
O Lobo de Wall Street
Trapaça
Clube de Compra Dallas
Gravidade
Nebraska
Blue Jasmine
Frozen
Os Suspeitos
O Grande Gatsby
Alabama Monroe
A Grande Beleza
A Imagem que Falta
O Hobbit 2
Homem de Ferro 3
Antes da Meia-Noite

Por que o Oscar parece amar filmes medianos?

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Premiações e eventos | 87 comentários

Todos os anos, ao escrever sobre o Oscar e sobre as disputas envolvidas, busco lembrar os leitores de que se trata de uma eleição – e que, como tal, é influenciada pelo orçamento disponível para as campanhas feitas pelos estúdios, que investem pesado em seus candidatos promovendo festas especiais com exibição dos longas e presença do diretor e do elenco. Quando Tom Hooper venceu por seu trabalho pavoroso em O Discurso do Rei, apontei que ele, um britânico, havia se mudado para Los Angeles por três meses para fazer campanha.

Além disso, os estúdios cada vez mais se dedicam a fazer campanha negativa contra seus principais concorrentes – e este ano o principal alvo tem sido O Lobo de Wall Street.

No entanto, há uma outra questão importante que devemos considerar ao avaliar os vencedores na categoria de Melhor Filme: o fato de que raramente um filme que desafia o público costuma vencer. Não é à toa que produções que fogem do lugar-comum em termos de linguagem ou que abordam temas particularmente polêmicos jamais vencem. Quando apontei, por exemplo, que O Segredo de Brokeback Mountain, considerado favorito absoluto por muitos, tinha um caminho mais difícil do que se imaginava rumo à vitória, indiquei sua temática justamente como seu maior empecilho: era um filme importantíssimo, belíssimo, sensível, mas que abordava um tema que simplesmente incomodava muitos eleitores da Academia – que, demograficamente, vem envelhecendo rapidamente por ter membros vitalícios e só incorporar algumas dezenas de novos integrantes por ano.

Pois a questão principal que devemos levar em consideração na categoria Melhor Filme é a seguinte: filmes que dividem o público sempre perdem, mesmo tendo boa parcela de defensores radicais. Para vencer o Oscar, não adianta ter muitos defensores; é imperativo ter poucos detratores. Na realidade, a categoria principal da premiação tende a favorecer o lugar-comum, o café-com-leite. Filmes simpáticos, que não ameaçam, mesmo sendo medíocres ou irrelevantes como Arte.

Filmes como O Discurso do ReiGladiadorQuem Quer Ser um Milionário?Shakespeare ApaixonadoO Paciente InglêsConduzindo Miss Daisy e tantos, tantos outros.

A razão para isso reside no sistema usado pela Academia para definir o vencedor. É um sistema que favorece não exatamente aquele filme amado por certos grupos, mas aquele que inspira um sentimento de “É bonitinho” por parte da Academia como um todo. Para ilustrá-lo, recomendo o vídeo abaixo (em inglês, mas é fácil entender) e sugiro que jamais tentem usar o Oscar como sinônimo de qualidade. É um prêmio divertido e relevante do ponto de vista comercial e, sim, histórico (especialmente por ser tão antigo e por ser definido por membros da própria indústria).

Mas não se trata de uma Palma de Ouro, de um Urso de Ouro nem nada do gênero no que diz respeito ao seu valor artístico. Ao menos, não necessariamente, embora aqui e ali as duas coisas coincidam e provoquem um prazer inesperado nos cinéfilos dedicados.

Telas partidas

postado em by Pablo Villaça em Cinema | 21 comentários

A primeira vez que notei Philip Seymour Hoffman, ele vivia um estudante riquinho cuja arrogância era evidenciada quase por subtexto: na superfície, ele se mostrava simpático ao seu humilde colega de turma, dizendo que este “precisava” vir esquiar ao seu lado, mas seus modos, seu sorriso e seu olhar exibiam um sadismo sutil enquanto se divertia por saber que o pobre rapaz não tinha como acompanhá-lo. Era 1992 e o filme em questão se chamava Perfume de Mulher. Sim, Al Pacino era o filme e Chris O’Donnell assumia o papel de protagonista, mas quando Hoffman encontrava-se em cena, tornava-se difícil não prestar atenção em sua composição cuidadosa que, a partir de certo ponto, passava a incluir uma complexa culpa diante do que estava obrigando o colega a sofrer. Ao final, fiz questão de decorar seu nome ao ler os créditos.

E há dois anos, me certifiquei de incluir o espetáculo A Morte do Caixeiro Viajante ao viajar para Nova York a fim de conferir os filmes do Oscar. Meu objetivo, claro, era assistir aos candidatos da Academia, mas considerei que ver Hoffman na Broadway era tão importante quanto conferir Pacino nos palcos – e trata-se de uma curiosa coincidência, considerando o que narrei no parágrafo anterior, que eu tenha assistido a ambos na mesma semana.

Ao ler sobre sua morte hoje, possivelmente por overdose, senti-me arrasado. Hoffman estava em seu auge criativo e possivelmente entrando numa fase na qual papeis fascinantes surgiriam em sua trajetória – como se já não bastassem suas atuações em obras como Sinédoque, Nova York, Boogie NightsMagnólia, O Mestre Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, para não citar diversos outros.

Enquanto tentava processar a notícia, a bomba: meu amado Eduardo Coutinho, o maior dos documentaristas que o Cinema já produziu e responsável por aquele que é meu filme brasileiro favorito (Cabra Marcado para Morrer) estava morto. Não, pior: havia sido assassinado. E, como se testando os limites do horrível, a informação final: a facadas e pelo próprio filho.

Não, Coutinho. Por favor, não assim.

Eduardo Coutinho era um cineasta de alma gentil. Ao mesmo tempo em que mantinha uma distância cuidadosa de seus entrevistados, permitindo que sua equipe fizesse as entrevistas preliminares e apenas se aproximando dos personagens no momento das filmagens, era também um diretor que rapidamente se apaixonava pelos donos das histórias que ajudava a contar – e, se não se apaixonava, ao menos os respeitava. Enquanto outros (fantásticos) documentaristas frequentemente encurralam, alfinetam, julgam e até podem se mostrar superiores aos entrevistados (estou pensando em Marcelo Masagão, Errol Morris em um ou outro momento e, claro, Michael Moore – todos diretores que admiro), Eduardo Coutinho era incapaz de preparar armadilhas para aqueles que enfocava. Aliás, não era este tipo de Cinema que ele fazia: o do tabloide, do espetáculo, do “te peguei!”. Em vez disso, Coutinho gostava de estudar a natureza humana, de buscar a beleza no prosaico, de extrair poesia do cotidiano de pessoas absolutamente comuns.

Seus documentários frequentemente usavam um ponto central que pudesse estruturá-los (religião, ativismo social, canções favoritas ou simplesmente um prédio) e, a partir daí, ele cavava narrativas. Aqui, comovia ao simplesmente revelar o sentimento de nostalgia e de perda trazido por uma música brega; ali, permitia que uma entrevistada expusesse todo o absurdo de sua crença, mas sem sentir o impulso de diminui-la por isso. No processo, costurava uma tapeçaria de folclores individuais.

Criava uma relação tão próxima dos entrevistados – e, de novo, logo após conhecê-los – que frequentemente podíamos ouvir seus personagens chamando-o carinhosamente de “Coutinho”, com uma intimidade que parecia sugerir anos e anos de cafezinhos compartilhados enquanto o diretor soprava a fumaça de seus inevitáveis cigarros.

Eu amava Eduardo Coutinho por me fazer amar tantos estranhos. Eu amava Coutinho por ser capaz de me fazer enxergar com doçura alguém que parecia sentir orgulho de ser ignorante. Eu amava Coutinho por me tornar mais humano.

Em 20 anos de carreira, encontrei com o mestre em três ocasiões: em 2002 ou 2003, durante o Festival de Tiradentes, quando o entrevistei para meu extinto programa na TV Horizonte em uma longa conversa de quase uma hora que cobriu toda a sua carreira. Alguns anos depois, voltei a vê-lo na Mostra de São Paulo e falamos por dez minutos. Finalmente, há cerca de dois meses, fui ao lançamento do livro sobre sua obra e, pudemos conversar brevemente (a foto abaixo ilustra este último encontro). Ali, repeti o que fizera nas duas vezes anteriores: disse a ele o quanto o admirava e amava por me fazer um ser humano melhor através de seus filmes. Disse a ele que Cabra era meu filme brasileiro favorito – e um de meus filmes prediletos, ponto. E completei declarando que sua humanidade era um privilégio de se testemunhar.

Naquela ocasião, diga-se de passagem, comprovei mais uma vez seu amor por histórias e por indivíduos: antes de assinar cada livro, ele pedia que a pessoa à sua frente falasse um pouco sobre si mesma, já que ele não podia dar um autógrafo sem conhecer brevemente quem o receberia. Isto provocou uma fila imensa, mas que acabava sendo recompensada pelo olhar atento e interessado do senhor de fofos cabelos brancos que, rouco pela idade e pelo cigarro, ouvia com a atenção fascinada de alguém que sabia que o próximo integrante da fila poderia conter a semente de um novo filme.

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“Hiroshima, Meu Amor”, meu amor

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos | 4 comentários

Revi hoje, depois de muitos anos, o lindo Hiroshima, Meu Amor, longa de estreia de Alan Resnais. Trata-se de um filme absurdamente influente e no qual o cineasta emprega vários dos recursos de montagem vanguardistas que usara em seus trabalhos em curta e média-metragem – especialmente Noite e Neblina (aliás, uso cenas de ambos em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos – não à toa, na aula sobre Montagem). A arte da montagem, diga-se de passagem, é ilustrada de maneira brilhante em Hiroshima – e não só nos cortes em si, mas nos momentos em que o cineasta decide empregar, no lugar do corte seco, fusões lentas. O que me encanta nestas últimas é a capacidade não só de tornar o tempo em algo fluido, saltando da memória para o presente (os resultados das lembranças em quem a personagem é hoje), mas também nas associações emocionais e psicológicas que a fusão, com a sobreposição momentânea de imagens, cria.

Tomemos, como exemplo, duas passagens do longa. Na primeira, a atriz vivida por Emmanuelle Riva encontra-se na cama com seu amante japonês (Eiji Okada) quando rememora seu primeiro amor, um soldado alemão que encontrava-se na cidade em que ela morava.

Assim, saltamos da memória da moça…

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…até o presente, quando encontra-se deitada ao lado do novo amado:

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O brilhantismo do uso da fusão nesta transição, contudo, reside justamente na criação de uma imagem transitória que nos transporta do passado ao presente e que é representada desta maneira:

hiroshima02

Ao planejar cuidadosamente a composição dos quadros e a decupagem da sequência, Resnais cria um símbolo perfeito para a situação da garota, que não consegue se envolver emocionalmente com o amante japonês por ainda estar coberta pelos traumas deixados por seu relacionamento com o alemão – que, portanto, surge como um fantasma entre Riva e Okada.

Da mesma maneira, em outro instante, ao trazer a protagonista discutindo a morte de seu primeiro amor, o diretor salta do passado, que exibe o jardim de onde um atirador disparou contra o rapaz…

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… ao presente, no qual a atriz hesita em se entregar ao novo romance justamente por temer esquecer o anterior e provavelmente por encontrar-se amedrontada diante da possibilidade de voltar a se ferir:

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E aqui, mais uma vez, a transição através da fusão cria uma imagem intermediária de tirar o fôlego, mesmo que dure apenas um segundo, ao usar as colunas do jardim para sugerir grades que mantêm a moça aprisionada em função do trauma:

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E pensar que esta foi a estreia de Alan Resnais como longa-metragista. Não é uma felicidade que, aos 91 anos, este gênio continue em atividade?

Um presente para os leitores

postado em by Pablo Villaça em Livros | 21 comentários

Jerry Lewis não marcou o Cinema apenas graças à sua parceria com Dean Martin, às suas dezenas de comédias e ao teleton anual que criou e comandou por anos para angariar fundos para a pesquisa sobre distrofia muscular. Não. Além de tudo isso, Lewis também foi um cineasta talentoso que, entre outras coisas, contribuiu imensamente para o Cinema criando uma ferramenta que os diretores do mundo inteiro hoje consideram como algo fundamental em um set: o video-assist (ele se viu obrigado a inventar uma solução para poder assistir às próprias atuações nos filmes que dirigia). Não é à toa que sou fã incondicional do ator/roteirista/produtor/diretor, já tendo escrito sobre ele várias vezes aqui no blog.

Pois bem: no final da década de 60 e início da de 70, Lewis ofereceu diversas palestras como professor de uma universidade da Califórnia – e, em 1971, estas suas aulas foram compiladas em um livro, “The Total Filmmaker”, que logo passou a ser considerado não só um dos melhores “manuais de direção”, mas também leitura obrigatória para todos aqueles que simplesmente amavam a Sétima Arte. Infelizmente, o livro eventualmente saiu de catálogo e tornou-se indisponível, vindo a se transformar num dos exemplares mais raros da literatura relacionada ao Cinema. Para que tenham uma ideia, cópias usadas do livro podem ser encontradas na Amazon com preços que oscilam entre 394 e mil dólares. Sim, mil dólares por uma cópia nova.

Pois tenho um presente para vocês

Update: Menos de cinco minutos depois que publiquei este post, o blog caiu em função do excesso de acessos. Pelo visto, não sou o único que entendeu a preciosidade aqui divulgada.

Dois casos ilustrativos sobre a dublagem

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Dublado | 44 comentários

Recebi um email sobre os bastidores da dublagem de Frozen que me irritou bastante. Não é a primeira vez que a Disney compromete totalmente o trabalho de adaptação de um de seus filmes para o português, claro – e o caso mais emblemático, para mim, permanece sendo o de Enrolados, um ótimo longa que foi simplesmente destruído pelo trabalho porquíssimo de Luciano Huck. Na época, aliás, uma das pessoas diretamente responsáveis pela versão em português me contou, durante um jantar (ou seja: não foi “ouvi dizer”; recebi a informação diretamente do sujeito), que a Disney impôs Huck para o papel de Flynn, ignorando os testes feitos pelo então diretor de dublagem, Garcia Junior – o responsável por alguns dos melhores resultados obtidos pelas animações da empresa no Brasil e que, não por acaso, abandonou a função logo em seguida.

Para piorar, Huck só ofereceu algumas horas de seu preciosíssimo tempo para a tarefa – e se um ator profissional já teria dificuldades em fazer tudo em tão pouco tempo, para um “artista” medíocre como Luciano Huck o trabalho criou um dilema impossível para Garcia Júnior. Deu no que deu: uma merda (não há outra palavra) de dimensões continentais.

Infelizmente, em vez de aprender com o desastre, a Disney só reforçou o padrão.

O que nos traz a Frozen e ao email que recebi. A pedido da pessoa que me enviou, manterei seu nome em sigilo, mas decidi passar a informação adiante por ter obtido confirmação de uma segunda fonte.

Quem assistiu ao filme sabe que o boneco de neve Olaf se revela um coadjuvante cômico importante para a narrativa. Pois inicialmente o personagem foi dublado por Gustavo Pereira, que, há alguns anos, foi o responsável por emprestar a voz ao personagem-título de Procurando Nemo. Depois que o trabalho foi realizado e Pereira foi remunerado por ele, a Disney Brasil o notificou de que sua voz seria descartada e não estaria presente nas cópias que chegariam aos cinemas. O motivo: a Disney insistia precisar de alguém que chamasse o público para os cinemas.

Porque, aparentemente, Fábio Porchat é um grande chamariz para o público infantil, já tendo protagonizado diversas produções voltadas para crianç…

Hum.

Mas não devemos culpar Porchat (assim como, em meu texto sobre Enrolados, esclareci que entendia por que Luciano Huck aceitaria um trabalho para o qual estava obviamente despreparado). Além de ser um ator e um comediante talentoso, Porchat, para seu imenso crédito, teve uma atitude incrivelmente humilde: de acordo com minha fonte, o estúdio disse a ele que deveria fazer “exatamente como estava” a dublagem de Pereira. A resposta de Fábio Porchat? “Não tenho como, porque está muito boa”.

Não que o resultado final seja desastroso como o de Luciano Huck (nem teria como), mas está bem aquém não só do que o personagem merecia, mas também do talento que o próprio Porchat demonstra em seus outros trabalhos – o que só prova que, como escrevi aqui, a dublagem deve ser deixada para dubladores.

E este foi só um dos problemas do trabalho de adaptação de Frozen, cujas canções trazem letras em português com métrica completamente equivocada e com uma mixagem tão ruim que, em vários pontos, torna-se impossível entender o que está sendo cantado. E assisti ao filme em dois cinemas diferentes – ambos excelentes.

Para completar o absurdo, das centenas de sessões do longa no Brasil, apenas uma é legendada, o que ainda elimina completamente a liberdade de escolha dos fãs da Disney.

(Para ler tudo o que já escrevi sobre os problemas da dublagem, com vários exemplos, clique aqui. E espalhe, por favor.)

Curso em Aracaju

postado em by Pablo Villaça em Curso | 1 comente

Estarem na capital de Sergipe entre 10 e 14 de fevereiro com o curso de Teoria, Linguagem e Crítica. Será a primeira visita ao estado. Informações e matrículas clicando aqui!