Analisando imagens e a diferença entre números e pessoas

postado em by Pablo Villaça em Política | 4 comentários

Como alguém que vive de analisar imagens, devo dizer que fiquei profundamente encantado com duas delas que vi nos últimos dias. A primeira aconteceu durante uma entrevista que Lula deu a Mino Carta: enquanto falava sobre como aqueles que antes só podiam viajar de ônibus agora conseguem pagar passagem de avião, Lula leva as mãos à cabeça numa empolgação tão grande, quase infantil, que expõe uma felicidade incontida diante da constatação. Isto me encantou especialmente porque sei como é raro (muito raro) ver alguém com a trajetória e a experiência dele ainda se mostrando capaz de se empolgar tanto com a alegria do homem do povo. (O momento está aos 8:35: https://www.facebook.com/video.php?v=709568759129502)

Já a imagem de Dilma foi uma foto na qual, durante um ato público, ela surge abraçada por uma senhora no meio da multidão. Aliás, “abraçada” não é o termo exato: a senhora em questão praticamente dá uma chave de braço em Dilma enquanto, com a mão livre, segura um celular para tirar uma “rousselfie”. (Quando vi a foto no Twitter, a legenda brincalhona dizia: “EU PAGO MEUS IMPOSTOS E A SENHORITA VAI TIRAR FOTO COMIGO SIM!!!”)

O que me cantou nesta foto (http://i.imgur.com/D4KERhj.jpg), aliás, nem foi a proximidade da presidenta com o povo – uma proximidade que vocês não vêm na outra candidatura -, mas um fato muito revelador: enquanto toma a chave de braço, Dilma… sorri. Não há medo ou desconforto em seu rosto, mas um sorriso por estar recebendo aquele gesto tão… firme… de carinho.

E são esses detalhes, que surgem na espontaneidade e no calor do momento, que revelam muito sobre Lula e Dilma e o tipo de líderes que são.

O que me traz a um segundo ponto.

Como alguns de vocês talvez saibam, sou filho e sobrinho de pessoas que lutaram contra a Ditadura. Cresci ouvindo as histórias das barbaridades cometidas naquele período contra jovens que lutaram para que hoje outros jovens tivessem a liberdade, inclusive, de ofender a presidenta usando termos incrivelmente baixos. Cresci vendo pessoas que eu amava carregando sequelas físicas, psicológicas e emocionais das torturas. E cresci também num país de desigualdades que trazia capas de jornais falando da fome, que era considerado um problema insolúvel, e exibindo fotos de crianças subnutridas e à beira da morte.

E lembro de minha mãe discutindo aquelas questões comigo e me ensinando algo que nunca esqueci: que, ao ler notícias falando de “milhares ou milhões de miseráveis e famintos”, nunca me esquecesse de que aquelas estatísticas representavam pessoas. Ela me ensinou que muitas vezes, quando a imprensa traz estes números, tendemos a nos esquecer de não são só números,

E é por isso que quando li a notícia de que o Brasil havia saído do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez, chorei.

Chorei de alegria por saber que aquela não era mais a realidade de milhões e milhões de pessoas.

Chorei por saber que meus filhos vão crescer num país melhor do que aquele no qual cresci.

E chorei porque lembrei do que minha mãe me ensinou e percebi que se o Brasil mudou é porque finalmente tivemos, em Lula e Dilma, presidentes que sabem que por trás de cada estatística e de cada número há uma vida, uma pessoa, um brasileiro.

Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos

postado em by Pablo Villaça em Política | 26 comentários

Uma Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos Escrita por um Tio Preocupado (Não o “Tio” do Jornal Nacional, que é Daqueles Que te Constrangem nas Festas com um Papinho Preconceituoso, mas o Tio que Usa Tênis, Calça Jeans Puída e que te Constrange nas Festas Porque Insiste em Conversar com Seus Amigos Como se Fosse da Turma.)

Li esta semana que Aécio tem tido uma boa votação entre os jovens de 18 a 25 anos de idade e fiquei espantado. A juventude é a época do pensamento no coletivo, do idealismo, da generosidade. É a época em que tendemos a pensar mais no mundo do que no umbigo. É a época em que o sofrimento daquele mendigo pelo qual passamos na rua dói e sentimos o impulso de erguê-lo, de alimentá-lo, de agasalhá-lo. É só com o passar dos anos que começamos a tender a um foco mais individualista: pensamos nas nossas contas bancárias antes de fazermos uma doação. Nem todos passam por esta transformação (felizmente), mas a tendência geral é esta.

Assim, como é possível que tantos de nossos jovens já estejam iniciando a idade adulta com um pensamento tão conservador? O pensamento de que o “mercado” importa mais do que as pessoas? O pensamento de que o conteúdo do iPod é mais importante do que o conteúdo da alma (e uso alma como metáfora)? O pensamento de que poder escolher o tipo de iogurte é… nem sei como completar esta frase. Que tal… “minimamente relevante”?

E aí fiquei pensando. O que pode ter acontecido pra que esse conservadorismo aparente tivesse tomado conta da juventude? Seriam os novos jovens mais egoístas do que os da minha época?

Claro que não. A juventude respira generosidade se tiver permissão e contexto.

É isso. Faltam permissão e contexto.

Um tiquinho de paciência e já explico.

A falta de “permissão” vem da mídia e da despolitização. Os jovens abaixo de 25 anos cresceram com uma mídia cujo conservadorismo já resultou em críticas até do Reporters Without Borders (1) e que insiste em transformar qualquer denúncia, por menor que seja e por menos provas que tenha, em um escândalo inquestionável. Às vésperas da eleição de 1989, por exemplo, os jornais relacionaram o PT ao sequestro de Abílio Diniz, comprometendo a vitória da esquerda, mas mais recentemente, na última eleição presidencial, podemos encontrar um exemplo claro no caso Erenice Guerra, próxima de Dilma, que foi massacrada pela Globo e pelos jornais durante semanas, acusada de todo tipo de ato de corrupção imaginável. Erenice que depois foi, vejam só, inocentada. O mesmo ocorreu com o ex-ministro Orlando Silva. E com Luis Gushiken. E, ESTA SEMANA, com José Luis Dutra, que a Folha acusou numa matéria de ter sido “denunciado” por Paulo Costa apenas para, no dia seguinte, publicar uma pequena errata dizendo que haviam errado e que Dutra nada tinha a ver com o caso.

Com isso, a mídia criou uma impressão de corrupção generalizada – mas só do lado que a interessa, já que sempre ignora qualquer denúncia contra a direita (cartel do metrô em SP, falta de planejamento da SABESP, mensalão tucano, compra de votos da reeleição de FHC, máfia dos sanguessugas, etc.). Aliás, quando noticia algo, é pra aliviar a barra: esta semana, o Jornal Nacional anunciou que a Procuradoria Geral da República arquivou denúncias contra Aécio no caso do aeroporto em Cláudio – mas deixou convenientemente de informar que a PGR disse apenas que não havia indícios de ilícito em esfera FEDERAL e que, por isso, encaminhou a denúncia pra Procuradoria Geral do Estado por ver indícios de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA por parte do governo de Aécio.(2)

Assim, como a juventude pode se sentir livre para defender o projeto do governo se este é constantemente rotulado pela mídia brasileira como “o mais corrupto da história”? Um governo que, vejam só, criou diversos mecanismos justamente para investigar, coibir e punir a corrupção? (3) Com isso, só resta a opção de defender a oposição, cujos desmandos são varridos para debaixo do tapete, embora sejam inúmeros, de vulto infinitamente maior e, ao contrário do que ocorre com o governo Dilma, JAMAIS investigados apropriadamente.(4)

Isto tem um nome: despolitização. A mídia atira termos como “bolivarianismo” e “Foro de São Paulo” na cabeça do público e passa a vê-lo reproduzi-los sem terem ideia do absurdo que dizem. Como aqueles que afirmam, sem hesitar, que o filho de Lula se tornou multimilionário e é dono da Friboi, duas mentiras que, de tanto serem repetidas, se tornaram mantra de vários eleitores da oposição.

Já o segundo elemento que torna nossa juventude conservadora é o contexto. Ou melhor: a falta de. Quem tem menos de 25 anos cresceu num país pós-Lula. E, assim, se acostumaram a um país com problemas infinitamente menores do que aqueles que eu vi ao crescer. É uma juventude que compreensivelmente quer melhorias constantes, mas à qual falta a compreensão de que 500 anos de injustiças não são corrigidos em apenas 12 anos. É uma juventude que nunca leu nas capas de jornal que a fome estava matando um número trágico de crianças, que não viu milhares de indivíduos com curso superior fazendo fila pra um concurso de gari numa época em que o Brasil era o 2o pais do mundo em DESEMPREGO, que não viu os juros dos bancos atingirem 79% ao ano, etc, etc, etc. (5)

Infelizmente, estes jovens não se lembram de como o Brasil era antes da era Lula-Dilma. Mas eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI (6). Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz (7). Lembro da falta de oportunidades na educação pública (8). Da falta de universidades (9) (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas) (10). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).(11) Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). (12) Lembro dos grampos telefônicos na era FHC.(13) Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas.(14) Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos.(15) Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola).(16) Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000.(17) Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás.(18) Lembro da dengue descontrolada.(19) Lembro dos reajustes de 580% na telefonia.(20) Lembro do PIB ridículo.(21) Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC.(22) Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos”.(23) E o povo brasileiro de “caipira“.(24). Lembro de como Aécio, ao contrário do que afirmou recentemente, votou contra o aumento real do salário mínimo.(25) Lembro de como Aécio sabotou CPI sobre a má gestão tucana da Petrobrás em 2001, que resultou no afundamento de uma plataforma.(26) Lembro de Armínio Fraga, que Aécio anunciou como seu ministro da Fazenda, dizendo que o salário mínimo está alto demais.(27) Lembro de quando Armínio era presidente do Banco Central e elevou os juros básicos de 37% para 45%.(28)

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei. Porque acredito na generosidade da juventude e acredito que, quando forem lembrados de como este país era e do que se tornou, votarão com a consciência de que, depois de 500 anos de miséria e fome, os últimos 12 anos viram uma redução de 75% na pobreza extrema (imaginem isso!)(29), viram o Brasil sair PELA PRIMEIRA VEZ do mapa da fome da Onu (30) e também viram nosso país ser premiado por três iniciativas públicas pela mesma ONU (31).

E trazer estas informações para nossos jovens, em vez de apenas bombardeá-los com factóides e denúncias que sempre parecem surgir magicamente nas vésperas da eleição, não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

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FONTES:
1. http://articles.latimes.com/2013/mar/03/world/la-fg-brazil-hostile-media-20130304
2. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/pgr-arquiva-representacao-contra-aecio-por-construcao-de-aeroporto.html
3. https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/576172119154685
4. http://top10mais.org/top-10-maiores-crimes-de-corrupcao-no-brasil/
5. http://fhcnao.blogspot.pt/2014/10/como-era-o-brasil-no-governo-do-psdb.html
6.http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u53074.shtml
7.http://www.ailtonmedeiros.com.br/o-racionamento-de-energia-na-epoca-de-fhc-segundo-a-veja/2013/01/14/
8.http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Educacao-superior-em-Lula-x-FHC-a-prova-dos-numeros/13/16291
9.http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2014/05/governos-pt-criaram-18-universidades.html
10.http://www.conversaafiada.com.br/politica/2014/05/15/fim-da-universidade-publica-fhc-obedeceu-ao-fmi/
11.http://www4.cinemaemcena.com.br/diariodebordo/?p=3782
12.http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/palmeriodoria.html
13.http://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_grampo_do_BNDES
14.http://socialistamorena.cartacapital.com.br/nos-tempos-do-engavetador-geral-refrescando-henrique-cardoso/
15.http://ocarlismo.blogspot.com.br/2012/10/acm-e-o-vexame-da-festa-dos-500-anos.html
16.http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/11/513752.shtml
17.http://www.dgabc.com.br/Noticia/160639/fhc-diz-que-gasto-de-rs-10-mi-em-hannover-e-modesto-?referencia=navegacao-lateral-detalhe-noticia
18.http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3%A1s
19.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff120101.htm
20.http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/60/materia/4561
21.http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/desconstruindo-fhc
22.https://www.dgabc.com.br/Noticia/182029/fhc-extingue-sudan-e-sudene-mas-investigacao-continua-?referencia=buscas-lista
23.http://www2.uol.com.br/JC/_1998/1205/br1205n.htm
24.http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=60989
25.http://www.viomundo.com.br/denuncias/maximiliano-garcez-aecio-votou-sim-contra-aumento-salario-minimo.html
26.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/10/aecio-forca-campanha-com-petrobras-mas-abafou-cpi-do-naufragio-da-plataforma-p-36-5393.html
27.https://www.youtube.com/watch?v=kIiHuNM-jl0
28.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi05039906.htm
29.http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/09/16/brasil-reduz-a-pobreza-extrema-em-75-diz-fao.htm
30.http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/sair-do-mapa-de-fome-da-onu-e-historico-diz-governo
31.http://www.onu.org.br/tres-iniciativas-brasileiras-vencem-premio-global-da-onu-de-servico-publico/

Festival do Rio 2014 Dia #08

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Abraço aos leitores Neylan, que foi extremamente gentil ao vir conversar comigo antes da sessão de “Solness, o Construtor”, e Maurício, que me cumprimentou afetuosamente no Espaço Rio.

Dito isso, peço perdão, mas não escreverei sobre os filmes de hoje. Não fiquei particularmente empolgado com nenhum dos três que vi e, como estou bem cansado (como verão no vídeo), optei por me dar esse mimo de ir dormir mais cedo. Em vez disso, falarei sobre os três apenas no vídeo mais abaixo:

28) Acorda, Nicole (Tu dors Nicole, Canadá, 2014). Dirigido e roteirizado por Stéphane Lafleur. Com: Julianne Côté, Claudia-Émilie Beaupré, Marc-André Grondin, Francis La Haye, Simon Larouche. (3 estrelas em 5) 

29) Campo de Jogo (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Eryk Rocha. (3 estrelas em 5) 

30) Solness, o Construtor (A Master Builder, EUA, 2014). Dirigido por Jonathan Demme. Roteiro de Wallace Shawn. Com: Wallace Shawn, Julie Hagerty, Lisa Joyce, Larry Pine, André Gregory, Jeff Biehl, Emily Cass McDonnell. (3 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #07

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | Comente  

Hoje foi o dia em que fui mais abordado por leitores – e, infelizmente, o cansaço me impede de lembrar os nomes de todos. Então, deixo um carinho para a Danielle, o Renato e os dois Vitors enquanto espero que os demais me perdoem pelo esquecimento.

E os filmes…

24) Bem Perto de Buenos Aires (Historial del miedo, Argentina, 2014). Dirigido e roteirizado por Benjamín Naishtat. Com: Jonathan Da Rosa, Tatiana Giménez, Mirella Pascual, Claudia Cantero, Francisco Lumerman, César Bordón, Valeria Lois, Elsa Bois, Edgardo Castro, Mara Bestelli.

A impressão que tive ao assistir a este Bem Perto de Buenos Aires é a de que o diretor estreante Benjamín Naishtat, impressionado com o clima criado por nosso Kléber Mendonça Filho em seu magistral O Som ao Redor e intrigado por seus temas, resolveu transformar em um longa-metragem a sequência de pesadelo na qual vemos uma multidão de miseráveis saltando os muros da classe média. Infelizmente, esta sua alegoria sobre as culpas e ansiedades da classe média alta surge como uma obra sem vida, foco ou profundidade, resultando num dos piores filmes que vi nesta edição do Festival do Rio. (1 estrela em 5)

 

25) Vietnã: Batendo em Retirada (Last Days in Vietnam, EUA, 2014). Dirigido por Rory Kennedy. Roteiro de Mark Bailey e Keven McAlester.

O cessar-fogo no Vietnã assinado por Nixon em janeiro de 1973 não foi, ao contrário do que muitos acreditam, o momento definitivo no qual os Estados Unidos perderam aquela guerra. Não, a derrota, muito mais trágica e embaraçosa, veio cerca de dois anos depois, quando as forças do Vietnã do Norte chegaram a Saigon enquanto os últimos norte-americanos no país fugiam desesperados para evitar caírem nas mãos dos inimigos.

O que este ótimo documentário reconta, porém, é uma pequena história de heroísmo em meio ao caos e que, mesmo não redimindo as ações do exército ianque naquele país, ao menos resgata e honra iniciativas individuais que resultaram em alguns milhares de vidas salvas.

Ancorado em depoimentos de fuzileiros, pilotos de helicóptero, refugiados vietnamitas e de figuras como Kissinger e McNamara, Vietnã: Batendo em Retirada parte do acordo assinado por Nixon e de como sua renúncia serviu de incentivo para que os norte-vietnamitas o quebrassem, abordando, então, os planos de evacuação concebidos pelo governo dos Estados Unidos e o completo despreparo no qual se encontravam quando chegou o momento de implementá-los.

Cientes de que os tanques do Vietnã do Norte entrariam em Saigon a qualquer momento, os funcionários da embaixada dos EUA iniciam manobras clandestinas, sem autorização de seus superiores, para retirarem seus contatos sul-vietnamitas do país, já que certamente seriam executados caso capturados – e é revelador como o congresso norte-americano se recusa, neste momento delicado, a liberar a verba fundamental para implementar uma evacuação em larga escala. Com isso, o embaixador Graham Martin (que havia perdido seu único filho durante a guerra e que, talvez por isso, parecia se recusar a aceitar a queda de Saigon) determina a retirada do maior número possível de refugiados com a ajuda dos helicópteros que deveriam transportar seus funcionários, recusando-se a abandonar a embaixada até que todos tenham sido levados dali.

Ilustrado por imagens de arquivo que indicam um exaustivo e excepcional trabalho de pesquisa feito pelos realizadores, o documentário parece trazer registros de praticamente todos os principais incidentes mencionados pelos entrevistados – da derrubada de uma árvore que tinha valor simbólico no centro da embaixada até a visão inacreditável de fuzileiros dos EUA empurrando helicópteros para fora do porta-aviões a fim de abrir espaço para que outros pudessem pousar com mais refugiados. Além disso, os entrevistados relembram passagens curiosas, como a determinação para que queimassem um milhão de dólares em espécie a fim de evitar que o dinheiro fosse tomado pelos norte-vietnamitas (uma tarefa que levou oito horas para ser completada) e a manobra heroica de um piloto sul-vietnamita que, depois de transportar sua família para um navio dos Estados Unidos, atirou seu helicóptero ao mar, saltando segundos antes do impacto (ele escapou com vida).

Ainda assim, apesar de todos os esforços humanitários feitos por aqueles indivíduos, Batendo em Retirada não consegue deixar de encerrar sua narrativa com a memória trágica daqueles que foram deixados para trás – especialmente dos 420 sul-vietnamitas (incluindo dezenas de crianças) que foram levados a acreditar que seriam levados para fora do país, permanecendo no pátio da embaixada aguardando por helicópteros que jamais viriam.

E encerrando a participação dos Estados Unidos naquela guerra da mesma maneira como esta começou: cruel e desastrosamente. (4 estrelas em 5)

 

26) O Estopim (Idem, Brasil, 2014). Dirigido e roteirizado por Rodrigo Mac Niven.

Basicamente, temos uma PM que pune boa parte da nossa população pelo inafiançável crime de pobreza. Tratando os moradores das favelas como insetos que podem ser esmagados por incomodarem os “cidadão de bem” com sua presença abjeta, as forças policiais – e aqui generalizo movido por estatísticas, não por preconceitos – parecem encarar as favelas e as periferias como um campo de batalha no qual qualquer indivíduo sem farda é um inimigo em potencial. É uma existência sofrida que nós, os privilegiados brancos de classe média (e daí pra cima), só podemos visualizar em pesadelos – e não sei o que faria caso tivesse que ver um policial apontando um fuzil na direção de meus filhos apenas com o propósito de me intimidar para não denunciá-lo.

Dirigido por Rodrigo Mac Niven, O Estopim é um documentário amplo e ambicioso que, partindo do desaparecimento do pedreiro Amarildo, em 14 de julho de 2013, faz uma análise da conjuntura política e social que gerou uma polícia cuja brutalidade corriqueira as classes mais favorecidas só passaram a testemunhar de fato quando foi dirigida aos manifestantes de junho de 2013 – e se os PMs agiram daquela maneira mesmo com as câmeras do mundo voltadas para suas ações, podemos apenas imaginar o que fazem nas favelas, sempre localizadas no ponto cego da mídia.

Incluindo entrevistas com cientistas políticos, delegados, advogados, ativistas de direitos humanos e líderes comunitários, o filme analisa desde a origem da lógica perversa do bater-e-torturar como recurso “investigativo” e punitivo durante a Ditadura até a situação aparentemente sem solução que temos hoje, que submete a população mais miserável a uma tortura psicológica (quando não física) constante – e é bastante sintomático que determinada operação protagonizada pelos policiais militares seja batizada de “Paz Armada”, num ato falho que, no paradoxo do nome, já reflete a visão da corporação.

Não é à toa, portanto, que o delegado que investigou inicialmente o desaparecimento de Amarildo revele, durante a projeção, que a pergunta que mais ouvia de amigos e parentes era se o pedreiro era ou não traficante, como se isto justificasse seu destino. Aliás, foi justamente por conhecer esta mentalidade propagada pela mídia e absorvida pelas classes dominantes que os responsáveis pela morte do sujeito imediatamente adotaram a estratégia de tentar criminalizá-lo, sendo auxiliados por grandes veículos jornalísticos que venderam a teoria de envolvimento da vítima com o tráfico enquanto ilustravam suas matérias com fotos que traziam Amarildo com ar ameaçador. Esta atitude irresponsável, criminosa, que equivale a um segundo assassinato, acaba servindo de respaldo para que aberrações como os Bolsonaros possam vomitar seus discursos de ódio – e um dos momentos mais revoltantes de O Estopim traz um discurso de Flávio Bolsonaro no qual vitimiza os PMs acusados de matar Amarildo ao mesmo tempo em que retrata o pedreiro como criminoso.

Fotografado com maestria por Neto de Oliveira, que mantém sua câmera sempre em movimento ao retratar os estreitos becos da Rocinha e que já inicia o longa com um plano plongé sensacional, o filme peca apenas por trazer desnecessárias recriações da tortura à qual Amarildo foi submetido, como se precisássemos desta encenação para constatarmos a barbaridade cometida. Mas isto é um pecadilho diante de todas as colossais virtudes do documentário, que, ao final, deixa clara nossa cumplicidade subentendida na tragédia, já que, de modo geral, todo favelado assassinado pela polícia acaba se tornando traficante postumamente, mesmo que não o fosse em vida.

E que boa parte da população aceite estas execuções como naturais, sendo as vítimas falsamente acusadas ou não, é sintoma de uma sociedade profundamente adoentada em sua alma. (5 estrelas em 5)

 

27) Sangue Azul (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Lírio Ferreira. Roteiro de Lírio Ferreira, Fellipe Barbosa, Sérgio Oliveira. Com: Daniel de Oliveira, Caroline Abras, Sandra Corveloni, Milhem Cortaz, Laura Ramos, Rômulo Braga, Matheus Nachtergaele, Paulo César Pereio e Ruy Guerra.

Sangue Azul é lindo, poético, profano, romântico, triste e mágico. Dirigido por Lírio Ferreira, o filme nos apresenta a personagens que sofrem sem ter muita certeza sobre por que doem tanto, mas que, nos intervalos do sofrimento, bebem, riem e se amam profundamente. Esta é uma obra apaixonada pelo universo que retrata, mesmo que este não seja igualmente valorizado por aqueles que o habitam – e o fato de chegarmos ao final da projeção com um irrefreável desejo de mergulharmos em suas águas mesmo que cientes da melancolia que experimentaremos é um testemunho da eficácia da narrativa.

Escrito por Ferreira ao lado de Fellipe Barbosa e Sérgio Oliveira, Sangue Azul tem um início felliniano ao trazer um circo sendo erguido com determinação por um grupo de artistas supervisionados pelo dono da empreitada, o ilusionista Kaleb (Pereio). Prestes a iniciar uma temporada em uma ilha “situada entre o Brasil e a África”, aqueles artistas desempenham seus números com amor e dedicação – e, entre eles, encontra-se Zolah (Oliveira), que, nascido ali, foi entregue ainda criança a Kaleb por sua mãe (Corveloni). Ao rever a irmã Raquel (Abras), porém, Zolah experimenta uma atração intensa (e, claro, proibida) que talvez explique os motivos que o levaram a ser abandonado na infância. Enquanto isso, os demais integrantes da trupe experimentam suas próprias mudanças durante o tempo que permanecem na ilha, cuja história é recontada pelo sábio Mumbebo (ninguém menos do que Ruy Guerra).

Rodado em Fernando de Noronha, o longa explora magnificamente bem as lindíssimas locações através da fotografia de Mauro Pinheiro Jr., que cria uma paleta de cores supersaturadas que ressaltam não só a geografia local, mas também os ótimos figurinos de Juliana Prhyston. Da mesma maneira, as cenas que retratam os números do circo devotam um olhar quase mágico àqueles artistas, ao passo que a bela trilha de Pupillo ajuda a construir uma atmosfera evocativa que vai do melancólico ao romântico em uma batida. Aliás, se há algo que Sangue Azul tem de sobra é amor por seus personagens, levando o espectador a desejar conhecer aquelas pessoas e a conviver com elas.

Centralizando a narrativa em torno do Zolah, o filme é beneficiado pela excelente performance de Daniel de Oliveira, que encarna o personagem como um indivíduo que encara o sexo como mecanismo de prazer imediato, mas também de fuga – e não é à toa que praticamente todas as cenas que o trazem transando com alguém (e são muitas) retratam o sexo de forma mecânica e nada romântica, já que esta postura reflete seu hábito de sentar-se sobre o canhão do qual é disparado em seu número, como se tivesse um falo imenso e impessoal entre as pernas. Emocionalmente retraído, Zolah é um homem com dificuldades de processar a dor de ter sido abandonado e de desejar a própria irmã – e, portanto, quando finalmente se entrega a um choro dolorido, este sai de forma desajeitada, em pequenas convulsões, como se o sujeito vomitasse sua dor em vez de expeli-la através de lágrimas. Em contrapartida, sua relação com Raquel revela uma vontade de pertencimento única, o que o leva a enfrentar sua maior fobia ao mergulhar (literal e metaforicamente) no universo da garota.

Enquanto isso, os companheiros do protagonista percorrem suas próprias trajetórias, desde o atirador de facas Gaetan (Nachtergaele), que se mostra cada vez mais instável, a Kaleb, cuja admiração pelo Johnny Strabler vivido por Marlon Brando em O Selvagem acaba por transformá-lo em uma aparição que, devidamente vestido em uma jaqueta de couro e surgindo em uma moto, acusa Zolah de evitar “mergulhar” (isto para não mencionar o fato de que, como os companheiros de Strabler, o circo de Kaleb altera a estabilidade da comunidade que visita – o que se torna evidente através da posição da câmera ao enfocar Raquel e o marido na cama, que se altera a cada cena até trazê-los de ponta-cabeça).

Criando aquele que talvez seja o casal gay mais improvável da História do Cinema brasileiro (Pereio e Cortaz), Sangue Azul ainda presenteia o público com uma das cenas mais lindas que a Sétima Arte produzirá em 2014: a dança-luta-sedução que Zolah e Raquel protagonizam sob a água em um longo plano no qual se abraçam, se afastam, se agarram e flutuam em meio à agua cristalina de Fernando de Norinha, dando vazão a um desejo proibido que, mais tarde, o velho Mumbebo reconhecerá em cada espectador ao encarar o público de forma cúmplice, mas levemente acusatória.

E certeira. (5 estrelas em 5) 

Festival do Rio 2014 Dia #06

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Um grande abraço aos meus alunos Melina Alvarez, Miguel e Luca, que vieram falar comigo durante os intervalos do festival.

Já os filmes…

20) A Vida Privada dos Hipopótamos (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Maíra Bühler e Matias Mariani.

A ideia inicial dos diretores Maíra Bühler e Matias Mariani era a de realizar um documentário sobre estrangeiros que se encontram nas penitenciárias brasileiras – um plano que a dupla alterou quando, durante a pesquisa, entrou em contato com o norte-americano Chris Kirk, cuja história atraiu a atenção dos cineastas a ponto de se tornar o centro do projeto.

E durante a maior parte de A Vida Privada dos Hipopótamos compreendemos a decisão: Kirk é um excelente contador de histórias e, surgindo sempre com um sorriso aberto e com os olhos grandes e claros exibindo uma alegria imensa de ser ouvido, parece realmente merecer o posto de protagonista de seu próprio filme. Explicando que sua trajetória rumo à prisão começou quando ouviu falar sobre os hipopótamos importados para a Colômbia por Pablo Escobar e que passaram a fazer parte do ecossistema local, Kirk explica que logo decidiu visitar aquele país quando, já em seu primeiro dia, conheceu a bela V., com quem iniciou um relacionamento turbulento que durou cerca de dois anos.

Neste ponto, Bühler e Mariani embarcam na narrativa de seu personagem, que passa a ditar os rumos da história – e, com isso, a maior parte da projeção é dedicada à passagem de V. pela vida do sujeito. Retratada como uma mulher misteriosa (algo ressaltado pelas fotos e vídeos que parecem prestes a revelar seu rosto, mas nunca chegam a fazê-lo), a garota parece envolver o ingênuo norte-americano e a manipulá-lo com maestria, sendo divertido perceber como, em retrospecto, Kirk se mostra atento aos sinais estranhos que o relacionamento gerava (algo que enlouquece seus amigos, que surgem assistindo à sua entrevista em certo ponto). Além disso, como já sabemos que história de Chris terminará na cadeia, sentimos uma ansiedade crescente com relação aos incidentes que o levaram até ali e que certamente devem envolver V., já que ela domina a narrat…

… não. O envolvimento da moça é, no máximo e com muita boa vontade, apenas periférico na prisão de Kirk. E, assim, a pergunta é: por que diabos passamos cerca de 60 minutos ouvindo histórias sobre a garota?

É precisamente isto que transforma A Vida Privada dos Hipopótamos em uma experiência tão frustrante apesar de prender nossa atenção e de criar uma boa expectativa em torno do protagonista durante boa parte do tempo: o documentário não só engana o público com sua estrutura como ainda não justifica a mudança no foco do projeto, já que, por melhor que Chris Kirk seja pra contar sua história, a verdade é que esta não se revela particularmente interessante no fina das contas.

No processo, claro, há passagens memoráveis (como sua reflexão acerca da futilidade de uma vida suburbana de classe média), mas, no final das contas, há sempre o fracasso final em fazer jus à expectativa que cria. Fã assumido de con artists (trapaceiros), Chris Kirk aparentemente aplicou um golpe perfeito ao sugerir que tinha algo na manga quando esta trazia apenas um vazio completo. (3 estrelas em 5)

 

21) Obra (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Gregorio Graziosi. Roteiro de Gregório Graziosi, Paolo Gregori e José Menezes. Com: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Lola Peploe, Marku Ribas, Sabrina Greve, Marisol Ribeiro, Christiana Ubach.

Obra é uma meditação triste sobre reconstruções, recomeços e o peso do passado. É um filme com ritmo lento, estudado, que reflete a personalidade anestesiada de seu protagonista. É também um longa que usa a maravilhosa fotografia contrastada, com suas sombras duras e opressivas, para criar não só uma atmosfera melancólica, mas também ricos símbolos que desenvolvem seus temas de forma elegante. E, como se não bastasse, é também uma obra estrelada por Irandhir Santos, um dos melhores intérpretes de nosso Cinema.

Dirigido pelo estreante Gregório Graziosi com a segurança de um veterano, o filme acompanha o arquiteto interpretado por Santos enquanto este supervisiona um grande projeto erguido em terreno pertencente ao avô e acompanha a restauração dos afrescos de uma igreja importante em sua região. Prestes a se tornar pai, ele é acometido pela mesma hérnia de disco que atormentou seu pai e seu avô, passando a enfrentar também um dilema grave quando seu mestre de obra (Andrade) descobre doze ossadas enterradas no terreno que abrigará a construção.

A partir daí, Obra acompanha este protagonista de gestos lentos e natureza triste enquanto lida com a esposa, com o pai, com o funcionário e com a vida em passagens que constroem menos uma história e mais uma meditação acerca de nossas trajetórias no planeta, que, mesmo tão breves, se mostram tão conturbadas por ao mesmo tempo sustentarem a pressão de um passado individual e familiar e terem o dever de construir o suporte do futuro ao qual nos dirigimos. Não é à toa, por exemplo, que é justamente a coluna do arquiteto que acusa a maldição familiar, comprometendo sus movimentos e sua locomoção – e tampouco é acaso que sua esposa estrangeira, que carrega seu filho na barriga, tenha como profissão a investigação do passado da cidade, estudando sítios arqueológicos que a tornam mais apta a analisar a história local que seu marido, que tenta fugir desta.

Aliás, já nos primeiros minutos de projeção o sujeito aparece explicando a alguns alunos que algumas construções, por mais sólidas que pareçam, acabam tendo que ser demolidas quando o desgaste dos anos e a falta de planejamento compromete suas estruturas – um monólogo que, claro, é acompanhado de imagens de implosões projetadas sobre o corpo do próprio professor, que certamente se divide entre a atração do recomeço e a responsabilidade para com o passado.

Mas é mesmo a lindíssima fotografia em preto-e-branco de André Brandão que torna Obra tão memorável: mantendo o personagem de Irandhir Santos constantemente nos cantos dos quadros, que frequentemente também surgem com composições que ressaltam uma opressão cada vez maior (paredes que se estendem para o infinito, corredores estreitos, áreas escurecidas por estarem bloqueadas por alguma estrutura), o diretor de fotografia ainda concebe imagens esteticamente irrepreensíveis – e vários quadros vistos aqui poderiam ser impressos e emoldurados.

Estabelecendo também uma ótima rima visual entre os arranha-céus cobertos por névoas que abrem a projeção e a cidade já visível que a encerra, ilustrando a trajetória do arquiteto, Obra é um filme que faz jus à sua proposta ambiciosa.

Além disso, já falei que traz Irandhir Santos e, só por isso, merece destaque. (4 estrelas em 5)

 

 

 

22) Aloft (Idem, EUA/França, 2014). Dirigido e roteirizado por Claudia Llosa. Com: Jennifer Connelly, Cillian Murphy, Mélanie Laurent, Oona Chaplin, Peter McRobbie, William Shimell, Zen McGrath, Winta McGrath.

Como é possível que um filme protagonizado por duas atrizes tão lindas e competentes quanto Jennifer Connelly e Mélaine Laurent seja também tão tolo e desinteressante? Dirigido e escrito pela peruana Claudia Llosa (A Teta Assustada), o longa acompanha Nana (Connelly), uma viúva que, mãe de dois filhos, encontra-se atormentada pela doença grave que acomete o caçula. Buscando como último recurso a ajuda de um curandeiro, ela acaba sendo apontada por este como capaz de realizar suas próprias curas. Enquanto isso, numa narrativa paralela situada muitos anos depois, encontramos seu filho mais velho, Ivan (Murphy), que nutre imenso ressentimento pela mãe e decide acompanhar uma jornalista (Laurent) que pretende entrevistá-la.

Saltando de uma linha temporal a outra sem lógica aparente, Aloft não consegue sequer usar este batido recurso para criar alguma curiosidade com relação aos personagens, já que desde o princípio fica bem claro o que aconteceu e até mesmo o que acontecerá. Como se não bastasse, os personagens criados por Llosa são vazios e unidimensionais: Ivan é movido pelo ressentimento; Nana, pela dor do passado; Jannia, pelo desespero. Para piorar, nenhum de seus dramas pessoais é minimamente resolvido pelo roteiro, que até tenta incluir um plano de Ivan com expressão serena, mas sem se interessar em compreender como isto se tornou possível depois de uma conversa tão frustrante com a mãe.

Sem foco até mesmo ao discutir o conceito de cura sobrenatural que ele mesmo introduz, Aloft vale por um ou outro momento mais eficiente (como a jornada noturna sobre o lago congelado), mas nada que justifique o talento (e a beleza) do trio principal. (2 estrelas em 5)

 

23) Remake Remix Rip-off (Idem, Turquia/Alemanha, 2014). Dirigido por Cem Kaya.

Entre as décadas de 60 e 80, o Cinema turco chegou a atingir a incrível marca de cerca de 300 filmes produzidos por anos – obras que eram consumidas com paixão pela população e produzidas em tamanha abundância que as salas de exibição se limitavam a anunciar “filmes novos” na marquise, sem se preocuparem em informar os títulos. Por outro lado, durante boa parte da década de 70, a indústria local contava com apenas três roteiristas. Assim, como dar conta da demanda?

Simples: copiando sucessos norte-americanos. A partir daí, o diretor Cem Kaya, realizando um excelente trabalho de pesquisa, ilustra Remake Remix Rip-off com dezenas de obras que praticamente se limitam a variações de Drácula em Istambul, Tarzan em Istambul, Rambo em Istambul, O Exorcista em Istambul, E.T. em… mas vocês já entenderam. Trazendo entrevistas com diretores e atores da época (alguns dos quais nem se lembram de ter atuado em certos projetos, já que era comum um ator ter mais de 500 ou 1.000 filmes no currículo), Kaya pinta o retrato de uma indústria que ignorava completamente o conceito de direitos autorais, mas que, no processo, transformou a colagem e o plágio em uma arte em si mesma.

Despertando constantes gargalhadas através das cenas resgatadas destas produções (cowboys na Turquia?!), o documentário retrata também a dedicação e o amor daqueles profissionais pelo que faziam, sendo obrigados, pela falta de recursos, a improvisarem constantemente, criando dollies ao prenderem barras de sabão nos pés de estruturas que então deslizavam em estruturas molhadas ou mesmo roubando pedaços de celuloide que traziam sequências de longas norte-americanos que, então, eram inseridas em projetos locais. Além disso, basicamente todas as trilhas que embalavam estes filmes vinham de temas compostos por John Williams, Henry Mancini e Nino Rota – e o tema de O Poderoso Chefão, em particular, pode ser ouvido em centenas de projetos.

Resgatando também a importância do cineasta Yilmaz Güney para os Cinemas turco e o mundial (discuto sua carreira em meu curso “A Arte do Filme”, por sinal), Remake Remix Rip-off consegue nos fazer rir dos esforços de seus personagens sem com isso ridicularizá-los. Ao contrário: no processo, passamos a respeitar até mesmo a incorrigível picareta daqueles malucos apaixonados pela Sétima Arte. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #05

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 1 comente

Em primeiro lugar, quero mandar um abraço carinhoso ao leitor Renê, que compartilhou comigo uma lembrança de seu avô Ali que me comoveu bastante.

Bom… mas vamos aos filmes.

16) Garota Exemplar (Gone Girl, EUA, 2014). Dirigido por David Fincher. Roteiro de Gillian Flynn. Com: Ben Affleck, Rosamund Pike, Carrie Coon, Kim Dickens, Tyler Perry, Neil Patrick Harris, Patrick Fugit, David Clennon, Lisa Banes, Missi Pyle, Casey Wilson, Sela Ward, Scoot McNairy.

A crítica já está no Cinema em Cena e pode ser lida aqui.

 

17) Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por Damien Chazelle. Com: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang.

Imagine um filme que escalasse o sargento Hartman vivido por R. Lee Ermey em Nascido para Matar no lugar do Mr. Holland de Adorável Professor e terá uma ideia do que verá em Whiplash: Em Busca da Perfeição. Escrito e dirigido pelo jovem Damien Chazelle, de apenas 29 anos de idade (e também responsável pelo roteiro de – vá entender – Toque de Mestre), este longa representa uma experiência atípica ao levar o espectador ao riso com os excessos do mestre vivido por J.K. Simmons ao mesmo tempo em que provoca um profundo incômodo diante de seus métodos cruéis, conseguindo ainda, no processo, despertar uma discussão inesperada, mas relevante, sobre Educação e a fronteira entre incentivo e abuso.

Interpretado pelo excelente Miles Teller (que descobri em The Spectacular Now e que só melhora a cada novo trabalho), o jovem baterista Andrew Neyman tem o sonho de se tornar um dos maiores músicos de seu tempo. Para isso, consegue uma vaga no mais prestigiado conservatório do país e tenta atrair a atenção do regente mais célebre da instituição, o exigente e mítico Terence Fletcher (Simmons), que comanda uma banda de jazz considerada como berço de grandes profissionais. Aos poucos, porém, a disciplina militar mantida por Fletcher, que remete quase àquela do sargento Hartman já mencionado (com direito a um trompetista que, humilhado pelo condutor, chega mesmo a se parecer com o pobre soldado Pike de Nascido para Matar), começa a prejudicar o equilíbrio psicológico e emocional de Andrew, que passa a se dedicar aos ensaios de maneira quase autodestrutiva.

Explorando ao máximo um papel feito por encomenda para sua persona dominadora, J.K. Simmons praticamente se coloca entre os favoritos aos prêmios de atuação de 2014 ao encarnar Fletcher como um homem seguro de sua posição entre seus pares: ao entrar em um aposento, ele não abre as portas, mas as escancara como se um monarca estivesse invadindo a sala; ao selecionar um aluno para sua banda, anuncia a escolha como se concedesse o mais cobiçado dos prêmios; e ao conduzir os ensaios, trata seus pupilos com uma ferocidade que só se torna possível graças à certeza de que estes se submeterão aos abusos. Ao mesmo tempo, o Fletcher de Simmons é um homem capaz de demonstrar imensa sensibilidade, como ao chorar diante da execução perfeita de uma composição, e mesmo de gentileza, como ao conversar com a filha pequena de um amigo. Em contrapartida, suas interações com os alunos – e com Andrew, em particular – parecem sempre contar a semente de uma nova brutalidade, transformando até mesmo conversas aparentemente gentis em possíveis armadilhas psicológicas. Competente de maneira quase sobrenatural, Fletcher é capaz de identificar um instrumento levemente desafinado em meio a dezenas de notas e não hesita em protestar contra um erro grosseiro cometido por um músico ao ouvir apenas duas batidas.

Enquanto isso, Miles Teller evita a estratégia óbvia de converter Andrew em um herói típico ao mesclar sua natureza sonhadora com um toque excessivo de ambição e arrogância – e por mais que torçamos pelo sucesso do rapaz, não podemos deixar de notar como sua presunção se mostra danosa não só a ele mesmo, mas a todos que o cercam. Isto, claro, não compromete nossa admiração diante de sua dedicação absoluta ao instrumento, já que se entrega a sessões que cortam suas mãos sem levá-lo a interromper a prática. Com isso, a dinâmica que se estabelece entre Andrew e Fletcher é quase a de um casal disfuncional ou mesmo com componentes de sadomasoquismo, o que traz compreensíveis preocupações ao pai do garoto, vivido com doçura por Paul Reiser.

Ciente de que a natureza de brilhante improviso do jazz só é possível graças a muito ensaio e ao talento descomunal dos músicos, Damien Chazelle concebe as sequências musicais de Whiplash com uma linguagem mais comum em filmes esportivos, trabalhando com o montador Tom Cross para estabelecer uma energia intensa que acompanha os ritmos em cortes que revelam detalhes dos instrumentos, olhares e movimentos dos músicos, ações do condutor e as mãos frenéticas que executam cada nota.

Bem-sucedido também ao evitar que as ofensas disparadas por Fletcher tirem o espectador do filme, já que conseguem até provocar o riso sem que isto diminua o impacto que as palavras têm sobre os personagens (como deveriam ter, já que são recheadas de homofobia e racismo), Chazelle finalmente chega à discussão central de seu longa ao levar o público a rechaçar os métodos do condutor ao mesmo tempo em que reconhece sua eficácia em elevar os músicos a um nível diferenciado. “Não há duas palavras mais danosas do que ‘bom trabalho’”, afirma Fletcher em certo momento – e considerando que, de fato, boa parte dos grandes gênios já produzidos pela Humanidade fizeram sacrifícios pessoais que muitos de nós considerariam excessivos, não é absurdo imaginar que haja certa razão na lógica do sujeito, mesmo que questionemos seus extremos. Não que ele aja apenas por virtuosismo, já que também é capaz de atos de chocante mesquinharia e frieza – mas, ainda assim, é inegável que, nos momentos-chave, seu amor pela música se revela infinitamente maior do que a raiva que nutre.

Trazendo uma sequência final que conduz o espectador ao fade out final de maneira espetacular, levando-nos a deixar a sala de projeção com uma sensação de entusiasmo único pela música e pelo talento que testemunhamos, Whiplash é um filme que faz jus à própria ambição e que certamente merece os aplausos de reconhecimento que seu protagonista tanto cobiça. (4 estrelas em 5)

 

18) Corações Famintos (Hungry Hearts, Itália, 2014). Dirigido e roteirizado por Saverio Costanzo. Com: Adam Driver, Alba Rohrwacher, Roberta Maxwell, Jake Weber.

Corações Famintos é um drama familiar durante o qual, num dos momentos mais intensos, o protagonista grita para a esposa um desesperado “Nosso bebê está no percentil 7!” ao se referir ao peso da criança. Em um filme menos seguro, esta fala poderia soar ridícula como mote narrativo, mas o diretor Saverio Costanzo, auxiliado por seus dois excelentes atores principais, consegue fazê-la ecoar como uma afirmação tão grave quanto se o sujeito houvesse acabado de constatar que seu filho era, na realidade, fruto de uma inseminação demoníaca.

Apresentando-nos ao casal principal, Jude (Driver) e Mina (Rohrwacher), em uma cena que surge como o oposto do tradicional “Meet Cute” das comédias românticas norte-americanas, embora se revele bastante divertida, o roteiro gradualmente altera a atmosfera da narrativa para o drama até aterrissar num surpreendente clima de terror psicológico que sufoca o espectador ao lado daqueles personagens. E isto a partir de uma situação longe do sobrenatural: passando a sofrer de algum distúrbio psicológico durante e após a gestação, Mina se convence de que a melhor maneira de criar seu filho é através de uma alimentação “pura”, sem carnes, laticínios ou qualquer outro produto que não consiga passar por seu crivo materno guiado pelo instinto. Assim, à medida em que a criança começa a se tornar subnutrida, o pai do bebê dá início a estratégias cada vez mais desesperadas para alimentá-lo.

E Saverio Costanzo consegue a proeza de manter uma tensão crescente a partir desta situação aparentemente tão pouco cinematográfica por incríveis 110 minutos. Para isso, ele e o diretor de fotografia Fabio Cianchetti criam uma lógica visual inteligente, diminuindo a distância focal das grandes angulares até um ponto no qual os personagens parecem caminhar completamente deformados pelo apartamento sufocante concebido pela designer de produção Amy Williams. No início, estas grandes angulares já provocam algum desconforto ao serem empregadas em closes (algo que Tom Hooper provavelmente amaria – embora, aqui, haja uma razão narrativa para a escolha, ao contrário do que ocorre em seus trabalhos), mas gradualmente, enquanto vão se aproximando do efeito extremo do “olho de peixe”, já surgem alterando a percepção espacial em quadros mais abertos nos quais a câmera frequentemente é posicionada em um ângulo alto, tornando tudo ainda mais incômodo.

Enquanto isso, a montadora Francesca Calvelli costura as passagens seguindo uma lógica episódica, pontuando a projeção com fades que, quando surgem, já condicionam o público a esperar uma situação ainda pior na sequência seguinte, servindo simultaneamente para indicar a passagem do tempo e para ressaltar a urgência crescente do que vemos. Da mesma maneira, já no primeiro ato Costanzo planta pequenas sugestões de que algo atípico (resisto em dizer “sobrenatural”, embora esta seja a sugestão) está por vir ao trazer Mina tendo sonhos recorrentes que, claro, desempenham um papel claro na construção do filme.

Ancorado por duas atuações intensas de Adam Driver e Alba Rohrwacher, que conseguem estabelecer um amor tão real entre estas duas pessoas que acaba por dificultar as ações que se tornam necessárias quando a vida de um bebê começa a correr perigo, Corações Famintos é um filme incomum que constrói um tom opressivo de terror a partir de uma situação absolutamente realista – e, neste sentido, um título apropriado para a obra no Brasil poderia ser O Bebê de Roseréxica.

Mas com uma dieta vegana no lugar do Diabo. (4 estrelas em 5)

 

19) Mommy (Idem, Canadá, 2014). Dirigido e roteirizado por Xavier Dolan. Com: Anne Dorval, Suzanne Clément, Antoine-Olivier Pilon, Patrick Huard, Alexandre Goyette.

Em várias ocasiões, já manifestei minha admiração pelo jovem diretor canadense Xavier Dolan ao escrever sobre Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários e ao comentar brevemente Laurence Anyways e Tom na Fazenda durante coberturas passadas de festivais. Aqui, porém, Dolan cria talvez o mais irregular de seus trabalhos ao apostar num recurso de linguagem como centro da narrativa e ignorar um equívoco básico na construção de seus personagens.

O equívoco: ao contar a história do jovem delinquente Steve (Pilon), Dolan comete um erro de cálculo grosseiro logo no primeiro ato da projeção ao trazer o rapaz estourando em uma série de explosões racistas e misóginas – e se até então conseguíamos rir dos excessos do tresloucado sujeito (e o propósito claro do cineasta é que possamos rir do rapaz), a coisa perde imediatamente a graça diante da feiura do que ocorre. (E embora eu não costume prestar atenção à reação da plateia ao analisar uma obra, aqui não pude deixar de notar como o público que lotava a sala na qual eu me encontrava passou imediatamente a adotar uma postura fria diante do personagem, devotando seus risos apenas à mãe vivida por Anne Dorval.)

A partir deste tropeço, Mommy se compromete irremediavelmente, já que ainda traz inúmeras passagens que se concentram precisamente no comportamento de Steve, cujas caretas, trejeitos e diálogos se tornam pesos mortos na projeção. Por outro lado, se a dinâmica entre Dorval e Suzanne Clément mantém certa graça necessária para que possamos continuar naquele triste universo por longos 134 minutos, esta não é suficiente para que aceitemos facilmente o efeito colateral representado por Steve.

Para piorar, o recurso de linguagem adotado como núcleo da obra por Dolan não é dos mais inspirados: se já havia flertado com o 1.33:1 em Laurence Anyways e com a mudança da razão de aspecto durante a projeção em Tom na Fazenda, aqui o cineasta decide combinar as duas ideias e radicalizá-las, filmando num extremamente incomum 1:1 e transformando a tela em um caixote no qual os personagens se amontoam desajeitadamente em composições que acabam favorecendo uma estética vertical que, em certos instantes, quase remete àquela dos vídeos rodados com o celular na posição incorreta.

Sim, é fácil compreender que o diretor quer, com isso, sugerir a falta de horizontes e a limitação que prende aqueles pobres indivíduos a uma realidade que insiste em frustrar seus sonhos e aspirações, mas, depois de um tempo, o recurso passa a soar mais como um truque barato do que como algo essencial à narrativa. Em contrapartida, no único momento em que a tela se abre em um arejado 1.85:1, Dolan cria a sequência mais linda do filme ao ilustrar a fantasia de futuro da personagem-título – uma passagem tão linda e eficiente que quase justifica as mais de duas horas que passáramos presos ao formato anterior, já que é o contraste entre as razões de aspecto que ajuda a ressaltar a natureza sonhadora do que vemos naqueles breves minutos.

O problema é que, em essência, Mommy é um filme repleto de “quases”. E Dolan é melhor do que isso. (3 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #04

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 4 comentários

Abraço ao aluno Thiago, que veio me contar, depois da sessão de Boyhood, que iniciará um curso de Cinema no próximo semestre (espero poder comentar seus trabalhos futuros).

E vamos aos filmes:

13) Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por Richard Linklater. Com: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella, Jamie Howard, Andrew Villarreal, Barbara Chisholm, Cassidy Johnson, Landon Collier, Zoe Graham, Charlie Sexton.

Rodado ao longo de quase 12 anos, Boyhood – Da Infância à Juventude é um road movie no qual a estrada é o tempo: aqui e ali fazemos pequenas paradas, conhecemos novos personagens e situações e, então, seguimos em frente modificados. É um filme que compreende que somos o resultado de uma coleção de instantes mais ou menos memoráveis e que, portanto, somos seres fluidos por natureza – e que acompanhar estas mudanças é uma jornada fascinante.

Há, claro, precedentes no Cinema: a fabulosa série Up, de Michael Apted; os longas dirigidos por Truffaut e estrelados por Jean-Pierre Léaud (como Antoine Doinel); e o bom Todos os Dias, de Michael Winterbottom – que, como conceito, talvez seja o mais similar a esta obra de Richard Linklater por ter sido rodado ao longo de cinco anos em vez de consistir, como os demais citados, em uma série de longas autocontidos. Ainda assim, Boyhood faz Todos os Dias empalidecer em comparação ao contar uma história que, ao contrário daquela vista no longa de Winterbottom, investe mais em incidentes do que em uma trama particular. Não há, aqui, o drama de um pai presidiário ou algo neste sentido, mas sim o drama mais cotidiano (mas não menos impactante) de tentar tocar a vida mesmo diante de problemas financeiros, de brigas com o parceiro e de pequenos percalços quase triviais, como o embaraço de ter que ir para a escola com um corte de cabelo desastroso ou ser repreendido por um adulto.

Assim, à medida que Mason Jr. (Coltrane) vai envelhecendo, mudando a voz, ganhando espinhas e perdendo inibições, testemunhamos também as alterações vividas por sua irmã (interpretada pela filha do diretor) e vemos as rugas surgindo no rosto antes liso de Ethan Hawke – e o simples ato de presenciarmos as ações do tempo sobre aquelas pessoas já teria um apelo particular mesmo que Linklater não usasse a narrativa para discutir questões existenciais universais a partir das trajetórias criadas para aqueles personagens.

Admirável ao conseguir manter a coesão de sua abordagem narrativa ao longo do tempo da produção, Boyhood é inteligente, por exemplo, ao trazer o pai vivido por Hawke usando basicamente a mesma roupa e dirigindo o mesmo carro durante os primeiros anos retratados pelo filme, ilustrando de forma sutil o fato de o sujeito encontrar-se estacionado em sua maturação pessoal – e quando o vemos vestindo terno e exibindo um bigode que o envelhece, percebemos seu crescimento sem que isto tenha que ser verbalizado. Da mesma maneira, as oscilações de humor (e cabelo) de Patricia Arquette servem não só como referência das passagens de tempo, mas das dificuldades enfrentadas por uma mulher que, apesar de todo o esforço pessoal e da dedicação à família, parece fazer sempre escolhas equivocadas em sua vida romântica. Assim, mesmo que Boyhood tenha como foco o crescimento de Mason Jr., Linklater consegue, na periferia da narrativa, ilustrar também a trajetória de seus pais de jovens adultos a indivíduos se aproximando da meia-idade enquanto se preocupam em educar e orientar os filhos e encontrar um rumo para suas próprias vidas.

Além disso, é interessante constatar como o roteiro não ignora a importância de contextos geográficos e históricos na formação daqueles indivíduos – e a recorrência de Bíblias, armas de fogo e música country sugere a influência que a cultura do sul dos Estados unidos exerce sobre os personagens, queiram estes ou não, ao passo que as referências às disputas presidenciais ilustram o impacto que a postura ideológica dos pais pode ter sobre os filhos. Da mesma maneira, o longa evidencia, através da figura de um imigrante que certo dia mantém uma breve conversa com a mãe vivida por Arquette, como podemos provocar impacto sobre aqueles que nos cercam mesmo que jamais nos demos conta disso, já que momentos que muitas vezes soam prosaicos e desimportantes no instante em que ocorrem podem se revelar essenciais quando vistos em retrospecto.

Recheado de um humor doce que frequentemente nasce das interações da amorosa família que ocupa seu centro, Boyhood também é capaz de trazer passagens dolorosas que são concebidas cuidadosamente, sendo admirável, por exemplo, perceber como o problema do segundo marido de Arquette é inicialmente sugerido de forma sutil, quando o sujeito evita até beber diante dos filhos, até o instante em que sua raiva alcoolizada explode durante um almoço no qual não faz qualquer questão de esconder a bebida.

Porém, o mais recompensador neste lindo projeto é perceber como Mason, apesar de (ou precisamente em função de) todos os pequenos traumas que enfrenta, se torna um jovem adulto tão… bacana. Dono de um tom de voz gentil e sereno, de modos carinhosos e de uma personalidade repleta de curiosidade pelo mundo, Mason (e seu carismático intérprete) jamais deixa que esqueçamos do garotinho que se equilibrava perigosamente no balanço quando o vemos já barbado, prestes a partir para a faculdade e atormentado por ansiedades com relação ao futuro – e vê-lo crescer é tão emocionante quando acompanhar o envelhecimento de seus pais, já que, inevitavelmente, isto leva o espectador a refletir sobre a própria trajetória (e embora tenha o privilégio de seguir o crescimento de meus filhos Luca e Nina, confesso que a sensação é a de que tudo passou tão rápido quanto as ligeiras 2h45 deste Boyhood).

Construído como uma jornada de agoras que tornam o presente um conceito sempre dinâmico, esta tocante obra-prima encontra a síntese de seus temas no instante em que a Mãe, diante da constatação de que seu caçula agora é um adulto, suspira já nostálgica ao reavaliar a própria vida e revela ter achado que “haveria mais”. Pois a verdade é que sempre achamos.

E querem saber? Sempre haverá. (5 estrelas em 5)

14) Incompreendida (Incompresa, Itália, 2014). Dirigido por Asia Argento. Roteiro de Asia Argento e Barbara Alberti. Com: Giulia Salerno, Charlotte Gainsbourg, Gabriel Garko, Anna Lou Castoldi, Carolina Poccioni, Gianmarco Tognazzi, Justin Pearson, Alice Pea.

Peço que me perdoem, mas não vou perder um minuto sequer escrevendo sobre este filme detestável que parece acreditar que irritar o espectador com uma galeria de personagens detestáveis em situações detestáveis embalados por músicas detestáveis é a melhor maneira de fazer um estudo de personagem e de discutir inadequação, sentimento de exclusão e alienação parental. Não gostar de um longa é algo comum, mas desejar conferir a este forma humana apenas para poder socá-lo na cara é algo que exige um esforço descomunal. E Asia Argento conseguiu esta proeza. (1 estrela em 5)

 

15) Ida (Idem, Polônia, 2013). Dirigido por Pawel Pawlikowski. Roteiro de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz. Com: Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik.

Selecionado pela Polônia como pré-candidato ao Oscar 2015, Ida tem início quando a personagem-título, até então conhecida como Anna, encontra-se prestes a fazer os votos de celibato e pobreza que a tornarão freira. É então que a madre-superiora de seu convento determina que, antes da cerimônia, a garota visite sua única parente ainda viva, uma tia cuja existência a noviça desconhecia. Ao encontrar a mulher, no entanto, a moça recebe de cara uma informação importante: é judia, seu nome real é Ida Lebenstein e seus pais morreram durante a Segunda Guerra.

E aí reside o drama central do longa roteirizado pelo diretor Pawel Pawlikowski ao lado de Rebecca Lenkiewicz: ambientado em 1962, o filme se passa numa época em que a vergonha histórica colossal dos eventos recentes ocorridos na Polônia ainda eram varridos para baixo do tapete e o antissemitismo insista em mostrar sua cara feia mesmo depois do Holocausto – e não é à toa que a madre insiste para que Ida parta em sua viagem, já que há, ali, a sugestão de que a religiosa nutre uma experiência de que a garota não retorne (especialmente considerando sua confissão de ter, ao longo dos anos, tentado mandá-la embora inúmeras vezes).

Porém, a tia de Ida, Wanda (Kulesza), também vive numa negação particular do passado, usando a aparição da sobrinha como pretexto para tentar finalmente enfrentá-lo – e, a partir daí, a narrativa assume uma estrutura de road movie enquanto as duas mulheres viajam para a vila na qual os pais de Ida moravam quando desapareceram. O que se segue é uma série de encontros com pessoas igualmente sofridas e deprimidas que, em maior ou menor grau, se mostram incapazes de seguir adiante. A única exceção, claro, é o saxofonista Lis (Ogrodnik), que recebe uma carona da dupla principal e cuja música parece atrair de forma sedutora a jovem noviça – algo que o diretor retrata de forma sugestiva ao trazê-la descendo uma escadaria (uma pequena jornada ao inferno?) para se aproximar daquele som tão irresistível.

Fotografado por Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal em uma razão de aspecto de 1.37:1 e em preto-e-branco, Ida usa estas duas escolhas para ressaltar a atmosfera opressiva de um país gravemente ferido pela Guerra – o que, somado à maneira com que os personagens são constantemente empurrados para a parte inferior do quadro, tornando-se pequenos e incompletos, ilustra sua insignificância diante de um Estado totalitário e o peso histórico que carregam sobre os ombros.

Enquanto isso, a veterana Agata Kulesza vive a juíza Wanda como uma mulher deprimida e atormentada pelo passado que emprega o sexo da mesma maneira com que usa o cigarro e a bebida: como ferramenta para esquecer, se distrair e se destruir. Por outro lado, a estreante Agata Trzebuchowska, dona de olhas grandes e profundamente escuros, evoca uma aura de ingenuidade e fascinação diante do desconhecido, embora gradualmente também pareça acusar o golpe das descobertas que faz. Ainda assim, é notável como, no ato final, um breve riso que escapa durante um jantar e o olhar perdido que exibe durante uma prece acabam por trair as profundas mudanças que a jornada provocou na garota.

O que nos traz ao memorável plano que encerra a projeção e que ilustra como, mesmo deixando uma longa e cansativa estrada – sua história e a do país – para trás, é o desconhecido à sua frente que representará seu maior desafio. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #03

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Abraço ao aluno Jaime, que veio me cumprimentar após a sessão de Frank e que veio de Porto Alegre apenas para se entregar ao prazer de acompanhar este fabuloso festival.

E vamos aos filmes:

9) Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills (Beyond Clueless, Inglaterra, 2014). Dirigido e roteirizado por Charlie Lyne. Narrado por Fairuza Balk.

Nos últimos anos, os vídeo-ensaios se tornaram uma das formas de crítica cinematográfica mais populares na Internet – e não é à toa: quando bem realizados, eles conseguem expor, em poucos minutos e de maneira envolvente, similaridades entre obras que pareciam completamente distintas e padrões a partir de filmes diversos, ressaltando forças e fragilidades dos projetos analisados e ajudando o próprio espectador a treinar seus olhos para identificá-las por si só. Assim, não é surpresa que, nos últimos dois ou três anos, estes exercícios de análise tenham atravessado a fronteira para o formato de longa-metragem, capitaneados especialmente pelo trabalho do irlandês Mark Cousins.

Infelizmente, este Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, dirigido por Charlie Lyne, divide muitas das características das obras de Cousins – e se digo “infelizmente” é porque, apesar da escala admirável de A História do Filme: Uma Odisseia, não posso me apresentar como um de seus fãs, já que Cousins frequentemente estabelece correlações absurdas entre filmes a fim de provar teses e interpretações que raramente sobrevivem a uma segunda análise.

Tomemos, como exemplo, os esforços de Lyne para estabelecer uma leitura particular a partir de longas que giram em torno de personagens adolescentes: em certo instante, ele defende a recorrência de certos tipos em obras absurdamente diferentes sem parecer perceber que, embora possam ser superficialmente similares, estes personagens normalmente se submetem às convenções do gênero no qual estão inseridos – o que torna a adolescente lobisomem sedutora de Possuída completamente diferente das Garotas Selvagens vividas por Neve Campbell e Denise Richards. Da mesma maneira, nas montagens recorrentes exibidas ao longo da projeção, Lyne cria paralelos que só se sustentam caso ignoremos o contexto das obras originais – e ao vermos diversas figuras cruzando piscinas em vários filmes, somos informados de que a ação simboliza um “renascimento” quando, de fato, não é difícil perceber que o simbolismo (quando existente) pode girar em torno de elementos tão distintos quanto angústia, morte, libertação ou opressão, numa complexidade temática que o documentarista opta por ignorar.

Ora, o maior pecado que um crítico ou um acadêmico pode cometer em sua análise é a desonestidade intelectual – e, em Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, Charlie Lyne repete este erro em várias ocasiões, tentando forçar ideias em obras que não as sustentam (e, ao vê-lo classificar como “rebelião” a transformação experimentada pela protagonista de Ela é Demais, quando de fato esta representa uma breve entrega ao conformismo, é algo que insulta não só a inteligência do espectador como desrespeita o filme original, por mais tolo que este seja). Como se não bastasse, o sujeito trata como iguais longas que estão longe de sê-lo – e é inacreditável perceber uma tentativa de igualar títulos excelentes como Três é Demais e Meninas Malvadas a outros pavorosos como Jimmy Bolha e Um Show de Vizinha, que, mesmo quando estudados de perto, jamais oferecem a complexidade que Lyne tenta lhes atribuir.

Mas o maior pecado deste documentário reside em sua cegueira para o moralismo e o machismo de um gênero que constantemente se entrega a fantasias masculinas de dominação e punição da independência feminina, ignorando uma tendência que qualquer um relativamente atento perceberia em um segundo.

Considerando a competência de vídeo-ensaístas como Kevin B. Lee, Nelson Carvajal, Michael Mirasol e Matt Zoller Seitz, é uma pena que o primeiro contato de tantos cinéfilos com este tipo de análise cinematográfica ocorra através de profissionais tão falhos como Cousins e Lyne. Este subgênero do documentário merecia representantes melhores. (2 estrelas em 5)

 

10) Altman, um Cineasta Americano (Altman, Canadá, 2014). Dirigido por Ron Mann. Roteiro de Len Blum.

Basta notar a duração de Altman, um Cineasta Americano, 95 minutos, para constatar que este documentário de Ron Mann dificilmente poderia fazer jus a uma obra e a uma carreira tão complexa quanto à do diretor de M*A*S*H, Nashville, O Jogador e Short Cuts. Por outro lado, não deixa de ser decepcionante perceber que, ao longo da projeção, Mann não consegue oferecer um único insight sobre o cineasta, limitando-se a criar um filme que soa apenas como um “melhores momentos” de sua trajetória.

Iniciando o filme com uma explicação breve sobre a importância de Altman ao ressaltar o naturalismo em seus projetos, bem como seu hábito de subverter gêneros e usá-los para fazer insuspeitas críticas sociais, Ron Mann desperdiça uma galeria invejável de depoentes ao empregá-los com o único propósito de permitir que ofereçam outras definições acerca do personagem-título, ignorando que certamente poderiam presentear o público com relatos que certamente ofereceriam uma janela bem maior para sua personalidade do que as breves frases que ganham permissão de dizer. Ora, já sabemos que Robert Altman era um artista versátil, rebelde, inovador e que se mantinha como outsider em Hollywood – e ouvir atores como Elliott Gould, Robin Williams, Lily Tomlin e Sally Kellerman repetindo estas definições não as tornam menos óbvias.

Fazendo um breve resumo da trajetória do diretor – cujo início se deve a uma combinação de mentiras, cara de pau e muita sorte -, Altman, um Cineasta Americano passa rapidamente por suas contribuições para séries como Hitchcock Presents, Peter Gunn e Bonanza para enfim se concentrar em sua carreira no Cinema. Lamentavelmente, porém, a breve duração do documentário não permite que a retrospectiva se torne mais detalhada a partir daí, o que obriga Mann a praticamente saltar boa parte dos títulos memoráveis comandados pelo biografado – e quando alguém explica que Altman “nem sabia se conseguiria completar as filmagens de Popeye”, o filme subitamente já salta para a estreia daquele projeto sem se preocupar em explicar a natureza da crise enfrentada por Altman e como a contornou.

Soando quase amador ao empregar efeitos sonoros sobrepostos a fotos a fim de condensar ainda mais a cronologia (ao trazer a imagem de uma festa, por exemplo, Mann faz questão de ressaltar o evento com o ruído de uma rolha de champanhe estourando), Altman ainda comete a injustiça de ignorar a importância de críticos como Pauline Kael e Roger Ebert para a carreira do personagem-título, limitando-se a citar uma ou outra passagem dos textos destes. Em contrapartida, Ron Mann investe um longo tempo em apresentar uma imagem de arquivo que traz o patético crítico Gene Shalit, que pouco mais era do que uma caricatura desprezada pelos próprios colegas, atacando uma produção de Altman, o que, somado aos outros instantes nos quais faz questão de ressaltar que “os críticos detestaram” este ou aquele projeto, parece evidenciar um esforço por parte do documentário de estabelecer estes profissionais como inimigos do diretor – quando, na realidade, a crítica frequentemente o mantinha vivo artisticamente apesar da oposição dos executivos dos estúdios.

Interessante ao menos por trazer imagens de arquivo, curtas inéditos e registros da vida familiar do artista, Cineasta Americano é uma homenagem insuficiente cujo melhor momento se encontra justamente em seus primeiros minutos, quando exibe os títulos da filmografia de Altman projetados no céu, sugerindo que, mesmo etéreos como conceitos criativos, seus longas se tornaram incrivelmente sólidos e presentes na percepção de cinéfilos de todo o mundo. (2 estrelas em 5)

 

11) Frank (Idem, Inglaterra/Irlanda, 2014). Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan. Com: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Shane O’Brien, François Civil, Carla Azar.

Frank conta uma história tão absurda que esta só poderia mesmo ser baseada em fatos reais. Inspirado em um artigo escrito pelo excelente jornalista Jon Ronson, especialista em coletar e narrar passagens envolvendo personagens estranhos e à margem da sociedade, o roteiro co-escrito por este ao lado de Peter Straughan emprega o mítico Frank Sidebottom, criação do falecido comediante Chris Sievey, como âncora emocional de um longa que tinha tudo para se revelar um projeto ancorado em uma única gag visual, mas que, em vez disso, resulta numa narrativa que se equilibra muitíssimo bem entre a comédia e o drama.

Inserindo na trama um alterego do próprio Ronson, que de fato atuou ao lado do verdadeiro Frank, o filme acompanha Jon (Gleeson), um jovem aspirante a músico que, medíocre, passa os dias tentando compor canções a partir de tudo que vê ao seu redor. Certo dia, um acaso qualquer resulta em um convite para que toque teclado na banda ancorada por Frank (Fassbender), cujas estranhas composições empalidecem diante do fato de que seu intérprete insiste em usar uma imensa cabeça feita de papier-mâché não só nos palcos, mas 24 horas por dia. A partir daí, acompanhamos Jon, Frank e aquele estranho grupo (que ainda inclui a mal humorada Clara, vivida por Gyllenhaal) durante quase um ano enquanto se isolam em uma cabana a fim de gravarem um novo álbum.

Mas quem é Frank, afinal? Oscilando entre os papéis de líder de culto, músico ambicioso e simples lunático, o sujeito inspira os companheiros graças ao seu olhar sensível, que encontra inspiração em tudo que vê (sem tentar forçá-la, como fazia Jon), e uma serenidade que pode ser apenas resultado do fato de vermos apenas a expressão imutável e sorridente daquela gigantesca cabeça sorridente que cobre a sua própria. Aliás, é curioso como, ao longo da projeção, acabamos nos acostumando com aquela figura estranha, que se torna quase natural, e passamos a experimentar uma curiosidade crescente acerca da verdadeira natureza do homem por baixo da máscara. Não que sua aparência real importe (e este, mais uma vez, é o erro de Jon, que se concentra na pergunta errada), já que o que de fato intriga é a estabilidade psicológica do sujeito: quando ele descreve as expressões que ocupam seu rosto real, estará dizendo a verdade? Aos poucos, percebemos que o mais provável é que uma máscara congelada de tristeza e dor esteja sendo ocultada por aquela que exibe grandes olhos azuis pintados no papier-mâché – e que Jon não pareça perceber isto é a grande tragédia do filme.

Jon, diga-se de passagem, é um protagonista curioso: se inicialmente simpatizamos com sua insegurança e sua vontade de atingir espaços maiores do que sua humilde mesa de trabalho, gradualmente constatamos que o rapaz talvez não seja uma pessoa tão admirável como gostaríamos de acreditar, já que sua admiração por Frank parece revelar um desejo subjacente de explorá-lo para se promover. Sim, é comovente perceber como sorri, certa manhã, ao sentir-se aceito pelo grupo (especialmente considerando que o posto de tecladista da banda parece amaldiçoado como o de baterista da Spinal Tap), mas finalmente alcançamos um ponto no qual se torna impossível negar que aquele jovem por quem torcíamos se converteu num poço de inconsequente egoísmo, numa transição corajosa por parte do filme e de seu intérprete, Domhnall Gleeson (filho de Brendan).

E esta, afinal, é a diferença fundamental entre Jon e seus companheiros de banda: enquanto estes querem apenas se expressar, o protagonista busca simplesmente fama e reconhecimento, mesmo que não possua o talento necessário para merecê-los. Por outro lado, é intrigante notar como, aos poucos, o próprio Frank revela seu próprio desejo de reconhecimento; mas se o de Jon é obviamente motivado pelo narcisismo, o do personagem-título sugere uma profunda insegurança psicológica e emocional, levando-nos a temer por seu bem-estar mental caso seja novamente frustrado.

Neste sentido, é admirável observar como Michael Fassbender ilustra toda a complexidade de Frank sem poder empregar o recurso mais poderoso no arsenal de um ator: as expressões faciais. Em vez disso, ele modula a voz de Frank para que esta salte da empolgação criativa a um tom quase infantil ao mesmo tempo em que sua expressão corporal sugere um homem que, de forma similar, alterna entre o maníaco e o apático, evidenciando uma psique fragilizada e propensa à depressão.

E quando Fassbender finalmente pode usar o rosto, é notável que mantenha-se contido e quase inexpressivo (embora projetando uma infinidade de dores), já que, sem sua cabeça gigantesca, “Frank” é apenas uma figura trágica e frágil, ilustrando outro equívoco – entre tantos – que Jon comete ao não perceber que a visão romântica do artista atormentado e deprimido é admirável apenas para quem a enxerga de fora. Vista por dentro, esta traz apenas dor. (4 estrelas em 5)

 

12) O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, Inglaterra/EUA/Alemanha, 2014). Dirigido por Anton Corbijn. Roteiro de Andrew Bovell. Com: Philip Seymour Hoffman, Grigoriy Dobrygin, Nina Hoss, Daniel Brühl, Rachel McAdams, Robin Wright, Rainer Bock, Mehdi Dehbi, Homayoun Ershadi e Willem Dafoe.

O Homem Mais Procurado é um thriller de espionagem feito por e para adultos. Cínico, melancólico e substituindo as sequências de ação da franquia James Bond por outras, extensas, que se concentram no laborioso e meticuloso trabalho executado por espiões que dependem mais de jogos psicológicos do que de armas para realizarem suas tarefas, o filme de Anton Corbijn remete diretamente, em tom e qualidade, ao recente O Espião que Sabia Demais, também baseado em um livro de John le Carré, criando um mundo cujos riscos constantes não conseguem despistar a melancolia de seus habitantes.

Retratando o universo da espionagem num mundo dominado pela paranoia do pós-11 de Setembro, o roteiro de Andrew Bovell tem início com a chegada, na Alemanha, de um imigrante ilegal checheno, o machucado Issa Karpov (Dobrygin). Com sua presença detectada pela Inteligência alemã, ele passa a ser seguido pela equipe do competente Günther Bachmann (Seymour Hoffman), que, incerto acerca dos objetivos de seu alvo, logo percebe que talvez este possa ser empregado como isca para um peixe maior: o empresário Abdullah (Ershadi), cujas obras de caridade talvez sejam fachada para organizações terroristas. A partir daí, Günther começa a cultivar uma rede de informantes para que possa chegar a Issa, eventualmente envolvendo-se com a advogada Annabel (McAdams) e o banqueiro Tommy Brue (Dafoe).

Fascinante precisamente ao retratar as estratégias empregadas pelo protagonista para manipular psicologicamente aqueles que podem lhe trazer informações importantes, O Homem Mais Procurado investe numa narrativa de ritmo estudado que jamais se apressa desnecessariamente, optando, em vez disso, por uma abordagem que busca retratar o processo exaustivo de Günther, que metodicamente usa um indivíduo para chegar a outro e assim por diante.

Dirigindo um carro velho e operando a partir de um escritório sufocante e desarrumado que divide com a parceira Irna (a sempre expressiva Nina Hoss) e o agente Max (Brühl, desperdiçado), Günther em nada vive o glamour que o Cinema costuma associar aos espiões internacionais. Em vez disso, seu cotidiano consiste basicamente em burocracia, brigas interdepartamentais e muito trabalho – e não é à toa que ele parece ter sempre um copo de uísque e um cigarro presos à mão. Comunicando-se sempre com uma voz rouca e cansada que revela um homem à beira da exaustão, Philip Seymour Hoffman constrói Günther como um indivíduo sereno e calmo que, em vez da intimidação, busca cultivar os informantes através da empatia, apresentando-se como uma figura paterna ou apenas como um burocrata com consciência social se isto se fizer necessário para convencê-los de suas boas intenções (e, justamente por isso, quando o sujeito explode percebemos a enormidade de sua frustração).

A riqueza na composição de Hoffman, contudo, reside no fato de que acreditamos nas boas intenções de seu personagem. Sugerindo uma capacidade de compreender até mesmo as motivações de um possível terrorista, Günther é um homem que não enxerga o mundo apenas em branco e preto – e é inteligente o bastante para perceber que a execução sumária de um suspeito provocaria apenas um buraco a ser ocupado por um outro criminoso cuja identidade agora desconheceriam. Parecendo deprimido e desiludido, o Günther de Philip Seymour Hoffman é uma criatura absurdamente complexa que, resultado do último trabalho completado pelo ator antes de sua trágica overdose, ressalta a dimensão da perda representada por sua morte precoce.

Fotografado por Benoît Delhomme em tons dessaturados que constantemente investem num cinza que complementa a melancólica atmosfera chuvosa do filme, O Homem Mais Procurado é mais um passo acertado do cineasta Anton Corbijn depois do ótimo Um Homem Misterioso e do excelente Control: respeitando a inteligência do espectador, o diretor jamais oferece informações mastigadas, permitindo que o público perceba gradualmente os riscos envolvidos na investigação do protagonista e as relações entre os vários personagens. Além disso, Corbijn, como de hábito, mostra-se hábil ao criar metáforas visuais que descartam a necessidade de diálogos expositivos – e o fato de o filme já abrir com uma linha d’água tranquila que eventualmente se torna instável em suas oscilações é um símbolo perfeito para os efeitos da chegada de Issa Karpov à Alemanha. Da mesma maneira, é fascinante perceber como o realizador enfoca uma conversa entre este e a advogada Annabel depois que esta é abordada por Günther, já que as divisórias de plástico que se interpõem entre ela e o cliente sugerem precisamente a barreira de mentiras (mesmo bem intencionadas) construída pelos espiões. Para completar, é admirável como Corbijn usa a profundidade de campo reduzida para sugerir constantemente a presença de alguém não identificado ao fundo das cenas, como se houvesse sempre a possibilidade de que as conversas mantidas pelos personagens estivessem sendo monitoradas por um desconhecido.

Demonstrando a habilidade de sua construção narrativa ao levar o espectador a interpretar um simples ato de assinar um documento como se este tivesse o impacto dramático de um tiro disparado à queima-roupa, O Homem Mais Procurado é, desde já, um dos melhores filmes do ano. E também um testemunho inequívoco de como todos perdemos com a morte de um ator tão fabuloso quanto Philip Seymour Hoffman. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #02

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Abraço carinhoso aos leitores Vinícius, Karina, Fernanda e Alexandre, que vieram conversar comigo durante os intervalos das sessões ontem.

Bom, vamos aos filmes:

5) A Corrente do Mal (It Follows, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell. Com: Maika Monroe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Bailey Spry, Jake Weary, Daniel Zovatto.

Uma vizinhança calma num entardecer de outono. Ruas vazias, um ou outro vizinho chegando em casa com compras e folhas acumuladas nas sarjetas. Subitamente, a porta de uma das confortáveis casas se abre e uma garota dispara para fora numa corrida que se torna desajeitada em função dos saltos altos que ela calça. Desesperada, ela vasculha em torno de si e inicia outra fuga de algo que o plano aberto não consegue revelar por alguma razão. O que está havendo? Do que ela foge? Por que o desespero?

É assim que começa A Corrente do Mal, escrito e dirigido por David Robert Mitchell e que se revela um terror cada vez mais raro: aquele que, mesmo recaindo em clichês do gênero vez por outra, jamais se torna óbvio em seus sustos e prefere apostar na atmosfera de tensão crescente do que em momentos que tentam levar o espectador a saltar na poltrona através de acordes altos e súbitos na trilha sonora. Além disso, ao contrário de tantas obras similares, este longa não se torna pior à medida em que descobrimos o que há por trás de seu mistério – que, logo um personagem nos informa, consiste em uma espécie de maldição transmitida através do sexo e que condena o infectado a ser perseguido por algum tipo de espírito capaz de assumir qualquer aparência e que, mesmo caminhando de forma lenta, é inexorável em sua marcha de destruição, eventualmente alcançando sua vítima ao desgastá-la emocional e psicologicamente.

Não é preciso ser um grande estudioso de semiótica, aliás, para compreender as intenções de A Corrente do Mal: por mostrar-se como um inimigo que pode surgir a qualquer momento, jamais pode ser detido, adota qualquer forma e sempre alcança seus alvos, o vilão concebido por Robert Mitchell é claramente um símbolo da própria Morte e da passagem de tempo que acaba por nos entregar aos seus braços. Ao mesmo tempo, o fato de ser uma maldição que se contrai pelo sexo, a criatura tem, claro, certo teor moralista tão comum no gênero terror, embora, aqui, as coisas se tornem mais interessantes quando percebemos que, nos momentos-chave, o tal espírito parece assumir as feições dos pais de suas vítimas – e, num filme praticamente sem adultos, estas aparições súbitas das figuras de autoridade em instantes de destruição acabam por evidenciar a tentativa do roteiro de ilustrar, através do sobrenatural, as angústias, culpas e ansiedades adolescentes não só dos personagens, mas do próprio espectador (tenha este a idade que tiver).

Para ressaltar esta atemporalidade de sua mensagem, vale apontar, o design de produção do longa investe em detalhes que tornam a própria ambientação da trama difícil de ancorar em uma época específica: embora celulares sejam raros (ou mesmo inexistentes), uma personagem usa um leitor de textos similar ao Kindle ao mesmo tempo em que os aparelhos de tevê vistos em tela trazem desajeitadas antenas e aqueles seletores de canais redondos que emitiam um tactactac ruidoso ao serem girados. Da mesma maneira, quando um casal vai ao cinema, o local traz uma cortina vermelha gigantesca e se revela um palácio de projeção do tipo praticamente inexistente hoje em dia – e, para tornar tudo ainda mais curioso, conta com um músico tocando uma pianola ao lado da tela.

Enquanto isso, o diretor David Robert Mitchell adota uma estratégia narrativa inteligente ao frequentemente empregar panorâmicas lentas que vão revelando o ambiente em torno dos personagens gradualmente – e, ao contrário de boa parte dos colegas de gênero, que apostam em quadros fechados para sustos súbitos, aqui o cineasta investe em planos abertos justamente por saber que qualquer pessoa que surja caminhando em algum ponto da tela levará o espectador a uma tensão imediata. Por outro lado, os interiores são rodados de maneira claustrofóbica (em cenários apropriadamente enfumaçados) com o propósito de estabelecer o fato de que os heróis podem se encontrar em um beco sem saída caso o vilão surja de repente.

Investindo numa trilha com componentes eletrônicos que parecem fazer uma homenagem apropriada a John Carpenter e ao seu Halloween, A Corrente do Mal também acerta ao incluir momentos importantes de alívio cômico ao reconhecer o absurdo da situação vivida por aqueles jovens – e não deixa de ser divertido constatar, por exemplo, como um adolescente não hesitará em ir pra cama com uma bela mulher mesmo que saiba que isto o condenará a ser perseguido por um espírito que caminhará lentamente em sua direção até alcançá-lo e matá-lo (quem nunca?).

Impecável também em seu desfecho – outro ponto no qual boa parte dos filmes do gênero tendem a ir para o lugar comum do susto final -, A Corrente do Mal é uma obra que comprova que, nas mãos de um bom diretor, um longa de terror é uma obra de arte tão digna e memorável quanto o mais lacrimoso dos dramas de época. (4 estrelas em 5)

6) Blind (Idem, Noruega, 2014). Dirigido e roteirizado por Eskil Vogt. Com: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali, Marius Kolbenstvedt, Stella Kvam Young.

Ao assistir a este Blind, frequentemente me lembrei de uma frase de Dziga Vertov sobre as potencialidades da montagem: “Construí um aposento com doze paredes que filmei ao redor do mundo”. Esta fluidez física permitida pela montagem, aliás, já resultou em experimentos narrativos brilhantes em obras que vão de O Ano Passado em Marienbad (e Resnais, diga-se de passagem, era um mestre em criar mágica com seus cortes) ao curta A Movie, de Bruce Conner – e se cito estes exemplos magistrais ao lado deste trabalho escrito e dirigido pelo norueguês Eskil Vogt, é porque realmente acredito que mereça figurar nesta lista.

Responsável também pelo roteiro do excepcional Oslo, 31 de Agosto, Vogt cria aqui um experimento narrativo que gira em torno de Ingrid (Petersen), uma mulher que se torna cega já na idade adulta em função de uma doença que jamais é identificada. Sem ter forças para sair de casa, ela passa os dias em seu apartamento, passando a desconfiar de que ocasionalmente seu marido retorna silenciosamente para observá-la. Ao mesmo tempo, a moça, cada vez mais insegura por não contar com as informações visuais que poderiam tranquilizá-la com relação às intenções daqueles que a cercam, passa a imaginar o conteúdo de conversas que o companheiro pode estar mantendo na Internet – entregando-se, também, a um exercício de escrita que se concentra em um casal que pode ou não ter bases na realidade.

É justamente este “pode ou não” que torna Blind tão fascinante: no mundo escuro de Ingrid, afinal, tudo “pode ou não” – e, assim, quando ela se estica para tentar tocar o teto (que se encontra a uns três ou quatro metros de altura), Vogt e o montador Jens Christian Fodstad incluem um plano-detalhe que traz a mão da protagonista quase encostando no alto embora saibamos que isto seria impossível. Da mesma maneira, como a garota perde as referências espaciais, isto acaba se refletindo em seus relatos e, quando ela surge descrevendo uma passagem que traz dois homens conversando em um café diante de um painel de vidro, os planos e contraplanos frequentemente sugerem que os interlocutores se encontram em espaços diferentes: um pode estar no café enquanto o outro surge em um trem em movimento apenas para, no segundo seguinte, o primeiro aparecer em um ônibus enquanto o segundo retorna ao restaurante.

Este exercício de montagem, porém, jamais resulta em uma narrativa de difícil compreensão ou mesmo entediante. Ao contrário: justamente por experimentar com o espaço da mise-en-scène, Blind se converte em uma obra memorável a partir de uma história que, em si, não ofereceria grandes promessas. Aplicando com precisão os momentos em que a narrativa mergulha na subjetividade mental da protagonista, o filme ainda consegue cruzar a fronteira entre suas fantasias e a realidade – e constantemente somos surpreendidos pelos raccords brilhantes concebidos pelo montador Fodstad, que, num corte rápido, consegue mudar o gênero de um personagem ou alterar todo o ambiente em torno de duas pessoas que conversam casualmente.

Intrigante também em seu design sonoro, que reflete a confusão de Ingrid ao não conseguir confirmar visualmente sons que suspeita ter ouvido (uma rajada de balas, por exemplo, que não é acompanhada da costumeira gritaria que se seguiria), Blind é uma obra fabulosa que usa o potencial da montagem para mergulhar o espectador em uma narrativa ao mesmo tempo coesa e profundamente experimental. E não é à toa que, em certo instante, Ingrid diga gostar de ouvir a tevê por saber que, na maior parte do tempo, as imagens não são necessárias para acompanhar com tranquilidade o que se passa nas produções criadas para esta mídia – imagens que, neste filme protagonizado por uma cega, são absolutamente essenciais. (5 estrelas em 5)

7) Coração Mudo (Stille hjerte, Dinamarca, 2014). Dirigido por Bille August. Roteiro de Christian Torpe. Com: Ghita Nørby, Morten Grunwald, Paprika Steen, Danica Curcic, Jens Albinus, Vigga Bro, Oskar Sælan Halskov, Pilou Asbæk.

Esther é uma mulher já idosa que, vitimada pela mais cruel das doenças (a esclerose lateral amiotrófica), não consegue se acostumar com a ideia de perder sua independência e sua dignidade em seus dias finais no planeta – e que, com a concordância da família, decide cometer suicídio antes que seu corpo enfraqueça a ponto de tornar a ação inviável. Assim, ela reúne as filhas, os companheiros destas, seu neto, sua melhor amiga e o marido para um último final de semana antes que encerre a própria vida.

Basta ler o resumo da trama principal de Coração Mudo, logo acima, para desconfiar de que este filme escrito por Christian Torpe e dirigido por Bille August se revelará um melodrama dos mais apelativos – mas esta impressão seria profundamente incorreta. Evitando as lágrimas fáceis, o longa opta por descartar momentos de maior maniqueísmo a fim de se concentrar na dinâmica entre os membros daquela família amorosa, mas longe da perfeição. Assim, ao longo dos 96 minutos seguintes, a narrativa sugere conflitos recorrentes, segredos do passado, possibilidades surpreendentes para o futuro e instantes de humor inesperados ao acompanhar uma galeria de personagens multifacetados que são vividos com sensibilidade pelo coeso elenco.

Ancorado de certa forma pelos contrastes entre as duas irmãs Heidi (Steen) e Sanne (Curcic), Coração Mudo não demora a estabelecer como as mulheres parecem diferentes em tudo, da idade às personalidades: se a primeira é controladora e parece ter uma vida estruturada, a segunda, bem mais jovem, insiste em um namoro cheio de idas-e-vindas e se mostra emocionalmente descontrolada – e é recompensador acompanhar as mudanças eventuais em seus comportamentos à medida em que o fim de semana caminha para o fim. Enquanto isso, a própria Esther (Nørby) mantém a narrativa centrada graças à forma objetiva com que encara o próprio fim: sim, ela teme o que (não) virá, mas sabe que o que viria seria infinitamente pior, o que lhe permite até mesmo brincar com o que está por vir de maneira surpreendente.

Não que estas brincadeiras disfarcem a gravidade do que está para acontecer – e é comovente, por exemplo, perceber o desespero de Heidi para que possam viver “um dia significativo”, como se pudessem forçar a criação de memórias e instantes de catarse emocional apenas porque o tempo para vivê-los se encontra limitado. Ao mesmo tempo, quando vemos Esther ao lado de seu dedicado e amoroso marido Poul (Grunwald), somos levados a imaginar que tipo de conversa um casal que se encontra junto há décadas teria ao saber que um deles partirá em breve.

Aliás, é precisamente ao se encontrar no fato de que Esther está vivendo uma série de últimos momentos que Coração Mudo se torna tão eficiente do ponto de vista dramático. É tocante, por exemplo, perceber como aquela frágil senhora decide cochilar após despertar não por querer dormir mais um pouco, mas para experimentar a sensação de acordar uma última vez – e, de forma similar, é impossível não constatar o caráter de despedida que qualquer objeto assume, por mais prosaico que seja, quando sabemos que não voltaremos a vê-los (e ver Esther passando as mãos gentilmente no encosto das cadeiras nas quais se sentou por anos sem jamais notá-las de fato é algo que transmite esta finitude sem qualquer necessidade de diálogos expositivos que enfraqueceriam a ideia).

Tornando-se ainda mais melancólico graças à beleza das locações empregadas e da linda fotografia de Dirk Brüel (que contrapõe os interiores com luz quente e aconchegante à frieza da paleta que abraça os personagens em seus instantes de fraqueza), Coração Mudo é um filme que oscila com segurança entre a nostalgia, a melancolia e o humor – e a sequência envolvendo uma roda de maconha é memorável em sua hilária humanidade. Além disso, o design de produção revela uma inteligência sutil ao decorar a casa de Esther com relógios que parecem quase onipresentes, levando o espectador a sentir, quase subliminarmente, a passagem cruel do tempo.

Mas é mesmo em seus instantes de doçura que o filme de Bille August acaba por conquistar o espectador – e Coração Mudo é um drama maduro e paciente o bastante para compreender que, às vezes, não há imagem que emocione mais do que aquela que revela simplesmente a sensação gostosa de podermos, por alguns segundos, encostar a cabeça em alguém que amamos profundamente. (4 estrelas em 5)

 

8) Burying the Ex (Idem, EUA, 2014). Dirigido por Joe Dante. Roteiro de Alan Trezza. Com: Anton Yelchin, Ashley Greene, Alexandra Daddario, Oliver Cooper, Dick Miller.

Joe Dante é um cineasta que, ao longo da carreira, se mostrou um mestre em combinar humor e comédia de forma irreverente e eficaz. De Gremlins a O Buraco, passando por Meus Vizinhos São um Terror e episódios de Além da Imaginação e mesmo The Naked Gun (que daria origem a Corra que a Polícia Vem Aí), Dante criou uma filmografia que, mesmo claramente voltada a um público infanto-juvenil, jamais excluía os espectadores adultos, que sempre encontravam graça em suas brincadeiras de linguagem e mesmo na ingenuidade de boa parte de seu humor. Infelizmente, esta ingenuidade, que funcionou tão bem na década de 80, começou a mostrar certo desgaste nas obras que o diretor concebeu nos anos seguintes – e é justamente este o problema que impede que Burying the Ex, seu novo trabalho, se torne tão eficaz quanto boa parte de seus longas anteriores.

Inspirado em um curta escrito e dirigido pelo roteirista Alan Trezza, o filme conta a história de Max (Yelchin), um jovem que, trabalhando em uma loja de artigos de terror, namora a lindíssima, mas insuportável Evelyn (Greene), cuja obsessão pelo “ecologicamente correto”, somada à sua possessividade emocional, tornam a vida do rapaz infernal. É então que a moça morre em um acidente de trânsito, mas, ressuscitada por uma promessa de que passaria toda a eternidade ao lado do namorado, retorna como um zumbi, impedindo que Max possa se envolver com Olivia (Daddario) e irritando o meio-irmão do protagonista, Travis (Cooper).

Assumidamente tolo até mesmo ao trazer o artefato que ressuscita Evelyn como um diabinho de porcelana que solta fumaça e cujos olhos se acendem em um vermelho intenso, Burying the Ex é um daqueles filmes que trazem o herói consultando um manual de magia para descobrir como se livrar de um vilão e que não se furta de fazer piadas com fluidos nojentos que parecem sempre mirar a boca do protagonista – e isto não é necessariamente ruim, já que, aqui e ali, o longa realmente consegue arrancar boas risadas com seu humor despretensioso e óbvio.

Infelizmente, é esta obviedade que gradualmente torna a experiência menos memorável, a começar pela trilha sonora que faz questão de ressaltar cada piadinha (incluindo gongos quando um personagem segura uma espada) e pelos efeitos sonoros que transformam as lambidas sensuais de Evelyn em um espetáculo grotesco. Da mesma maneira, o design de produção jamais investe em qualquer tipo de sutileza: do escritório de Evelyn, que traz telefones, abajures e diversos elementos num verde chapado (que mais tarde cobrirá seu apartamento) até a decoração inicial da casa de Max, repleta de cartazes de terror, Burying the Ex é um filme que parece acreditar ser necessário atirar suas piadas na cara do público, o que acaba por prejudicá-lo (é difícil rir de uma gag quando seu autor faz questão de ressaltar como esta é engraçada).

Já o elenco, curiosamente, acerta ao investir em abordagens diametralmente opostas: enquanto Anton Yelchin se recusa (acertadamente) a assumir estar em uma comédia, vivendo Max com uma seriedade que torna, por contraste, sua situação mais divertida, Ashley Greene investe na caricatura absoluta, transformando Evelyn em uma namorada que se mostra monstruosa mesmo antes de retornar como zumbi. E se Alexandra Daddario fica presa ao ingrato papel de promessa amorosa, Oliver Coooper, que parece o resultado de uma transa de Seth Rogen e Jonah Hill, protagoniza seus bons momentos ao encarnar Travis numa figura divertidamente grotesca.

Assim, é uma pena que falte, ao filme, aquela atmosfera irreverente que caracteriza os melhores trabalhos de Joe Dante – e é triste constatar que, mesmo trazendo a infalível ponta de Dick Miller, Burying the Ex é uma produção que poderia ter sido comandada por qualquer outro diretor. (3 estrelas em 5) 

Festival do Rio Dia #01

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 2 comentários

Abraços ao leitor Ricardo, que, antes da sessão de Mapa para as Estrelas, gentilmente veio desejar boa sorte ao Cinema em Cena. (Ei, quer ajudar a manter o site vivo? Quer? Legal! Então clique aqui!)

Vamos aos filmes:

1) Maria e o Homem-Aranha (María y el Araña, Argentina, 2013). Dirigido por María Victoria Menis. Roteiro de María Victoria Menis e Alejandro Fernández Murriay. Com: Florencia Salas, Diego Vegezzi, Mirella Pascual, Luciano Suardi.

Logo no início de Maria e o Homem-Aranha, encontramos a personagem-título acompanhando brincadeiras e danças infantis de um grupo de amigos em um terreno baldio que sugere um ar quase bucólico em seus verdes e no lago que se encontra próximo – e, então, a diretora María Victoria Menis e o montador Alejandro Brodersohn cortam subitamente para os colossais arranha-céus que podem ser vistos no horizonte e percebemos que, em vez de um tom bucólico, aquela paisagem revela uma prisão social: estamos na periferia de Buenos Aires e aqueles adolescentes são vítimas das desigualdades econômicas de um país de terceiro mundo.

No entanto, a questão social representa apenas a superfície do roteiro co-escrito por Menis e Alejandro Fernández Murriay: Maria (Salas) não é só uma adolescente com profundas carências financeiras; é, antes de tudo, uma jovem com carência afetiva. Abandonada pela mãe e vivendo com a avó (Pascual) e Garrido (Suardi), o namorado desta, a garota é uma estudante boa o suficiente para merecer uma bolsa integral em um colégio da região, mas também triste a ponto de preocupar a professora que tanto a admira. Aos poucos, percebemos que esta retração deve-se não a uma timidez natural, mas a traumas constantes: Maria vem sofrendo abusos sexuais por parte de Garrido. É então que a menina conhece um rapaz (Vegezzi) que, vestindo-se de Homem-Aranha, faz malabarismos no metrô da cidade em busca de alguns trocados com os quais possa cuidar do pai doente.

Embora a personagem tenha 14 anos de idade, aliás, não é à toa que usei a palavra “menina” para descrevê-la no parágrafo anterior: ainda que já adolescente, Florencia Salas encarna Maria como uma criança cujo corpo se desenvolveu quase como se para contrariar sua dona. Introspectiva e emitindo meia dúzia de palavras ao longo de toda a projeção, Maria é uma garota cuja imensa tristeza se torna ainda mais tocante quando contraposta aos poucos momentos nos quais ela sorri – e seu sorriso é algo que precisa ser visto para ser apreciado, sendo um daqueles exemplares que levam a pessoa a fechar os olhos quase completamente e a mostrar todos os dentes, contagiando qualquer um que esteja nas proximidades. Por outro lado, o “Homem-Aranha” é um jovem de expressão sempre fechada, como se estivesse sempre ansioso para provocar uma briga na qual pudesse socar alguém que, naquele momento, representaria todas as suas frustrações diante do universo – e é quando conhece Maria que ele troca esta postura por um sorriso discreto, mas que, em sua natureza, parece surgir em seu rosto por vontade própria, como se o garoto fosse incapaz de impedi-lo.

Estas performances sutis e delicadas, vale apontar, são resultado também da sensibilidade da cineasta Maria Victoria Menis, que também é hábil ao retratar os abusos sofridos por Maria de maneira sutil, mas impactante: ao vermos a sombra de seu estuprador projetada sobre a menina, que se encolhe na cama à espera do ataque, enxergarmos mais do que um pervertido, mas um monstro – numa ideia que é ressaltada pelo plano excepcional no qual este, usando óculos de festa que trazem pequenas lanternas nas laterais, surge quase como um alienígena hostil em busca de sua presa. Assim, quando contrapomos esta figura grotesca ao cantinho humilde que a menina chama de quarto, com seus desenhos infantis espalhados nas paredes sobre a cama, a natureza vil daquele crime se apresenta ainda mais chocante embora nada gráfico seja mostrado pela diretora.

Da mesma maneira, o romance entre o casal principal é enfocado com delicadeza por Menis, que é inteligente também ao trazer os jovens numa cena delicada no metrô no qual praticamente trabalham enquanto, ao fundo, ouvimos uma trilha romântica que eventualmente se revela diegética, já que está saindo da pequena viola de um companheiro pedinte que toca por moedas.

De modo geral, porém, este é um instante raro de leveza em uma narrativa que na maior parte do tempo surge como um verdadeiro pesadelo e cujos habitantes, por mais frágeis que sejam, podem esperar da vida – no máximo – um mínimo de amor. 4 estrelas em 5

 

2) Sétimo (Séptimo, Argentina, 2013). Dirigido por Patxi Amezcua. Roteiro de Patxi Amezcua e Alejo Flah. Com: Ricardo Darín, Belén Rueda, Osvaldo Santoro, Luis Ziembrowski, Guillermo Arengo, Abel Dolz Doval, Charo Dolz Doval, Jorge D’Elía.

Sétimo é um thriller dinâmico que, mesmo ambientado na maior parte do tempo em um único ambiente (um prédio), é suficientemente ágil para levar o espectador a se envolver na lógica de seus momentos individuais sem ter tempo para refletir exatamente sobre o que está vendo – e é apenas quando a projeção chega ao fim que qualquer breve discussão sobre o filme acaba revelando uma série de furos que tornam a obra frágil em retrospecto, impedindo que se solidifique como uma experiência memorável na mente do público.

Escrito pelo diretor Patxi Amezcua ao lado de Alejo Flah, o roteiro acompanha o bem-sucedido advogado Sebastián (Darín), que se encontra prestes a encerrar um dos maiores casos de sua vida e que traz implicações políticas graves. Enquanto se prepara para ir ao tribunal, ele busca os dois filhos na casa da ex-esposa Delia (Rueda) a fim de levá-los para a escola e, numa brincadeira, permite que as crianças desçam pelas escadas enquanto ele usa o elevador. Ao chegar ao térreo, porém, ele descobre que os filhos desapareceram e, então, inicia uma busca desesperada que envolve diversas possibilidades: teria sido o sequestro uma estratégia dos inimigos de seu cliente? Ou o responsável seria aquele homem estranho do quarto andar? Ou o vizinho, inspetor de polícia, com o qual teve uma discussão durante a reunião de condomínio?

Claro que, pelo número limitado de personagens, não se espera que Sétimo traga uma revelação das mais surpreendentes, mas, na medida do possível, o roteiro provoca boas reviravoltas especialmente ao lidar com as expectativas do público: quando Sebastián vai perceber que aquilo pode ter a ver com seu caso? Será que ele não vai investigar o “Urso” que dividiu com ele o elevador? Ao plantar pistas (falsas e autênticas) e esperar que o espectador perceba-as antes do protagonista, o filme cria um suspense eficaz através de nossa frustração diante das ações pouco focadas do herói.

Não que Sebastián seja estúpido – e Ricardo Darín, um dos mais competentes atores da atualidade, se esforça para retratar a maneira furiosa com que o sujeito tenta desvendar o que aconteceu. Sugerindo uma tensão crescente através da respiração pesada do personagem, Darín encarna Sebastián como um homem ambicioso, mas cujo amor pelos filhos suplanta quaisquer aspirações profissionais, já que não hesita em deixar a audiência de lado quando as crianças somem. Pai carinhoso e claramente ressentido diante do recente divórcio (mesmo que reconheça sua culpa no processo), o advogado é um herói eficaz não só graças à humanidade que Darín confere a ele, mas também à sua complexidade: percebemos que é um homem falho e corrompido, mas jamais questionamos seu amor pela família e os sacrifícios que faz para salvá-la.

Empregando planos frequentemente fechados para sugerir ainda mais uma atmosfera claustrofóbica, o diretor Patxi Amezcua exagera pontualmente no número de travellings em torno do protagonista, que, longe de criarem uma rima visual ou salientarem a já presente claustrofobia, soam apenas como evidência de sua falta de imaginação. Por outro lado, é interessante perceber como o filme aqui e ali parece oferecer pequenos instantes de alívio (como no instante em que Sebastián julga ouvir os filhos no elevador) que, ao serem descartados, ajudam a tornar a atmosfera ainda mais tensa.

Infelizmente, o roteiro, como já dito anteriormente, não sustenta um escrutínio maior – já começando de uma pergunta essencial: e se as crianças não tivessem descido pela escada? Além disso, para um projeto que se propõe a criar um mistério que essencialmente recria a velha proposta do “assassinato no quarto fechado”, a solução apresentada para o desaparecimento das crianças é decepcionante e prosaica demais, mesmo que a narrativa busque oferecer alguma satisfação emocional em seu desfecho (sem, com isso, lidar com todas as consequências que as ações tomadas pelo protagonista ao longo da projeção inevitavelmente trarão).

Ainda assim, Sétimo é eficaz enquanto dura. E traz Ricardo Darín carismático e eficiente como sempre. É o que basta, não? (3 estrelas em 5)

 

3) Quod erat demonstrandum (Idem, Romênia, 2013). Dirigido e roteirizado por Andrei Gruzsniczki. Com: Sorin Leoveanu, Ofelia Popii, Florin Piersic Jr., Dorian Boguta, Virgil Ogasanu, Marc Titieni.

Não é coincidência que Quod erat demonstrandum conte uma história ambientada em 1984. Situada durante o governo do ditador romeno Nicolae  Ceausescu, o filme traz ecos do livro de George Orwell na maneira com que os cidadãos vistos na narrativa são constantemente monitorados pelo Estado e mesmo influenciados para que ajudem a espionar amigos e vizinhos. No processo, o filme escrito e dirigido por Andrei Gruzsniczki se apresenta não só como um retrato de uma época triste da história de seu país, mas como uma reflexão sobre a própria natureza humana.

Acompanhando inicialmente o matemático Sorin Parvu (Leoveanu), que desenvolveu uma solução importante para o teorema de Fermat, o roteiro ilustra sua frustração por não conseguir ser publicado em nenhuma revista importante, já que não é filiado ao partido que rege o país, tornando-se um indivíduo naturalmente “suspeito” em função disso. Determinado a publicar seus achados em algum país estrangeiro, ele passa a ser monitorado pelo órgão de Inteligência do país e por um de seus principais agentes, Voican (Piersic) – que, ao seu próprio modo, encontra-se frustrado por não conseguir subir na carreira também graças a questões políticas. Para provar que Sorin é um traidor em potencial, Voican tenta manipular a amiga deste, Elena (Popii), que quer conseguir um passaporte a fim de se reunir ao marido, que se exilou na França ao participar de um congresso.

Elegante na construção de sua narrativa ao estabelecer paralelos frequentes entre os personagens que criam uma simetria que faz eco à própria formulação matemática de Sorin, Quod erat demonstrandum ainda é beneficiado pela ótima fotografia em preto-e-branco de Vivi Dragan Vasile, que não só ressalta a recriação de época como ainda mergulha a narrativa em um clima naturalmente opressivo e melancólico. Fugindo do estilo que se tornou habitual no Novo Cinema Romeno, o diretor Andrei Gruzsniczki, por sua vez, não adota os longos planos estáticos que caracterizam a produção recente do país, optando, em vez disso, por movimentos mais fluidos e cortes (relativamente) mais frequentes (o “relativamente”, claro, se deve ao fato de que, mesmo com mais cortes, o filme jamais se aproxima da média de duração dos planos da maior parte do Cinema ocidental). Por outro lado, a essência do Novo Cinema Romenos se mantém aqui, já que a obra constantemente usa ações prosaicas de seus personagens para ilustrar suas personalidades – seja um avô colocando pilhas no rádio, um garoto que coleciona pedras ou uma mulher que usa produtos racionados para presentear os amigos.

Aliás, a recriação de época feita pelo designer de produção Christian Niculescu é fantástica ao trazer os ambientes diminutos habitados por aqueles indivíduos e ao ressaltar a realidade opressiva que habitam através de seus lares entristecidos e com poucos elementos decorativos. Da mesma maneira, ver Sorin empurrando o carro em uma longa fila para abastecê-lo revela muito mais sobre as falhas de um governo supostamente preocupado com o coletivo do que poderíamos apreender através de longos diálogos expositivos.

Vale apontar, neste sentido, que uma das principais virtudes de Quod erat demonstrandum reside em sua habilidade ao expressar visualmente ideias complexas – e quando vemos Sorin encarregado de tirar uma foto de um grupo de pessoas que celebram um batizado, percebemos como o pobre sujeito vive uma existência de exclusão em função até mesmo de sua própria introspecção, já que quem tira o retrato é, por definição, excluído da lembrança que este passa a representar. Além disso, é interessante observar como Voican frequentemente pede que seus contrariados informantes assinem um pequeno documento (“É só uma formalidade”) que, de maneira sutil, oficializa suas traições, tornando-os colaboradores antes mesmo que se deem conta disso.

Em última análise, porém, a força deste desgastante filme é mesmo sua capacidade de escancarar a maior das contradições de um regime totalitarista como o de Ceausescu: aquela que, supostamente em nome de um governo que procura valorizar o coletivo, acaba por inspirar um profundo individualismo em cada um de seus sufocados cidadãos. (4 estrelas em 5)

 

4) Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá/EUA, 2014). Dirigido por David Cronenberg. Com: Bruce Wagner. Com: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher.

Em uma carreira repleta de personagens e momentos repugnantes, o cineasta canadense David Cronenberg talvez tenha concebido, neste Mapa para as Estrelas, uma galeria povoada por algumas de suas criações mais repulsivas. No entanto, em vez de um homem cujo DNA se mistura ao de uma mosca ou de um indivíduo cuja cabeça explode subitamente, o filme se concentra em figuras que, se julgarmos por todos os livros e relatos jornalísticos sobre a comunidade cinematográfica de Los Angeles, são essencialmente reais: os astros e estrelas de Hollywood.

Roteirizado por Bruce Wagner, que de certa forma construiu toda uma carreira (medíocre) a partir da desconstrução da “meca do Cinema”, o filme acompanha a atriz Havana Segrand (Moore), que, decadente, se encontra obcecada em protagonizar a refilmagem de um clássico estrelado por sua própria mãe na juventude (uma estrela (Gadon) que morreu precocemente e de forma trágica em um incêndio). Enquanto isso, o astro mirim Benjie Weiss (Bird), recém recuperado de dependência química embora tenha apenas 13 anos (“Funcionou com Drew Barrymore”, diz alguém em certo instante), prepara-se para protagonizar uma continuação de seu maior sucesso, sendo perturbado por visões do fantasma de uma garota que visitou quando esta encontrava-se ainda hospitalizada. Para complicar ainda mais a situação, a irmã mais velha do rapaz, Agatha (Wasikowska), voltou à cidade depois de passar anos internada por ter incendiado a casa em que moravam – e seu retorno é mal visto por seus próprios pais, Christina (Williams) e o dr. Stafford Weiss (Cusack), um guru de autoajuda prestes a lançar seu novo livro.

A partir desta galeria de personagens desajustados, Cronenberg cria uma colagem quase surreal que, em certos momentos, parece oscilar entre O Jogador e Cidade dos Sonhos, mas sem jamais atingir a grandeza temática destes. Não que esta seja a intenção do cineasta, que parece bem mais interessado em explorar um curioso humor negro a partir da incapacidade que seus personagens têm de se identificar com qualquer questão minimamente humana, já que surgem como seres despreparados para a vida e que parecem fisicamente impossibilitados de escutar um “Não!” sequer, já que o narcisismo que define suas personalidades já parece ter cruzado a fronteira da pura sociopatia.

Frequentando uma sociedade na qual a aparência define as relações pessoais e profissionais, os homens e mulheres vistos em Mapa para as Estrelas são constantemente pressionados pela própria finitude, já que, naquele mundo, uma atriz jovem como Emma Watson já é cogitada para papéis de “mãe” e cada recusa em um teste significa mais um dia no qual aspirantes a atores e roteiristas se veem obrigados a trabalhar como garçons, motoristas e assistentes pessoais. Não é à toa, portanto, que cada interação soa menos como uma oportunidade de estabelecer uma ligação emocional com alguém e mais como uma oportunidade profissional, já que mudanças de religião são vistas como meios de impulsionar a carreira e flertes são abandonados assim que se apresentam ineficazes como networking.

Construindo a narrativa a partir de pequenas informações pontuais que vão se juntando em um quebra-cabeças que, mesmo jamais formando um quadro completo e coeso, é curioso justamente por sua fragmentação, Mapa para as Estrelas constantemente se diverte com a falsidade de seus personagens e mesmo com sua crueldade – e, neste sentido, ninguém ganha mais oportunidades de se divertir com a podridão daquele mundo do que Julianne Moore, que protagoniza ao menos duas cenas que beiram o absurdo em seu descolamento da realidade: aquela na qual mantém uma conversa enquanto sentada no vaso sanitário e outra na qual celebra ter conseguido um papel.

E se o roteiro se diverte com pequenas piadas envolvendo a história de Hollywood (como no momento em que Carrie Fisher diz que “toda filha deveria ter a chance de interpretar a própria mãe”), o próprio Cronenberg acrescenta a estas suas próprias brincadeiras particulares, como ao escalar Robert Pattinson como um motorista de limusine depois de ter construído todo um filme no qual o ator era passageiro de uma (Cosmópolis, claro). Menos bem-sucedidas são as pinceladas de sobrenatural jogadas ao longo da narrativa, já que aqueles personagens são suficientemente estranhos para descartarem qualquer influência metafísica – e se a abordagem visual de Cronenberg se limita ao uso de grandes angulares para ressaltar a estranheza de suas criações, ao menos os figurinos de sua irmã Denise se mostram mais imaginativos (das roupas absurdas usadas por Havana ao vestido preto e roxo, simbolicamente perfeito, que cobre Agatha em vários momentos).

Divertido e chocante na medida apropriada, Mapa para as Estrelas é um retrato de um mundo que, mesmo produzindo beleza, parece apodrecido por dentro por se ver obrigado a criá-la a partir do confronto de egos – e é sintomático que, entre todos os personagens aos quais nos apresenta, a mais humana e sensível seja aquela que passou a vida internada por ser uma esquizofrênica piromaníaca. (4 estrelas em 5)