A Ponte da Rua 6

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Uma ponte de Los Angeles, localizada na 6th Street, será demolida esta semana.

“E daí?”, você pode perguntar. “É só uma ponte de concreto.”

Sim. Mas uma ponte de concreto que os cinéfilos certamente reconhecerão como uma figurante de luxo em vários momentos icônicos do Cinema.

As superproduções de 2015 em formato Lego

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Bonitinho.

David Bowie, o ator

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Que carreira.

David Bowie: On Film from Drew Morton on Vimeo.

120 Anos de Beijos Cinematográficos

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Supercut.

 

Teoria, Linguagem e Crítica – 57a. Edição – Brasília

postado em by Pablo Villaça em Curso | 3 comentários

A turma em Brasília foi a maior nestes seis anos de curso: pela primeira vez, tive uma turma que ultrapassou 100 alunos. Sim, cem.

E que turma carinhosa: além dos presentes e mimos, todos os dias, nos intervalos e depois das aulas, vinham bater papo, falar do livro, do Cinema em Cena e de outros assuntos variados. Ganhei torta trufada, ganhei livro, ganhei bombom, ganhei memorabilia de O Poderoso Chefão e… bom, ganhei uma semana agradabilíssima. A última edição do ano não poderia ter sido melhor. Os cursos renovam minha energia e a turma de Brasília fez com que o reservatório ficasse cheio até a tampa.

Tenho um amor danado por meus alunos. Pode parecer estranho dizer isso, mas é verdade.

Mal posso esperar para conhecer os de 2016.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,48 (quinquagésima-sexta); 4,38 (quinquagésima-quinta); 4,40 (quinquagésima-quarta);  4,45 (quinquagésima-terceira);  4,43 (quinquagésima-segunda); 4,29 (quinquagésima-primeira); 4,44 (quinquagésima); 4,66 (quadragésima nona); 4,33 (quadragésima oitava); 4,48 (quadragésima sétima); 4,50 (quadragésima sexta); 4,56 (quadragésima quinta), 4,62 (quadragésima quarta), 4,51 (quadragésima terceira), 4,37 (quadragésima segunda), 4,39 (quadragésima primeira), 4,75 (quadragésima), 4,67 (Trigésima nona), 4,61 (Trigésima oitava), 4,62 (Trigésima sétima), 4,7 (Trigésima sexta), 4,53 (Trigésima quinta), 4,44 (Trigésima quarta), 4,58 (Trigésima terceira), 4,62 (Trigésima segunda), 4,54 (Trigésima primeira), 4,44 (Trigésima), 4,65 e 4,63 (Vigésima nona – Tarde e Noite), 4,49 e 4,47 (Vigésima oitava – Tarde e Noite), 4,48 (Vigésima sétima), 4,73 (Vigésima sexta), 4,51 (Vigésima quinta), 4,62 (Vigésima quarta), 4,57 (Vigésima terceira), 4,71 (Vigésima segunda), 4,64 (Vigésima primeira), 4,62 (Vigésima), 4,68 (Décima nona), 4,58 (Décima oitava), 4,20 (Décima sétima), 4,40 (Décima sexta), 4,62 (Décima quinta), 4,57 (Décima quarta), 4,47 (Décima terceira), 4,57 (Décima segunda), 4,76 (Décima primeira), 4,22 (Décima), 4,33 (Nona), 4,45 (Oitava), 4,07 (Sétima), 4,44 (Sexta) e 4,27 (Quinta). Estas avaliações incluem os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,66 
Conteúdo: 4,83
Didática: 4,92
Estrutura do curso: 4,81

Média geral: 4,55

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,85.

Para concluir, a foto tradicional de formatura. Em função do grande número de alunos, tive que dividir a turma em dois grupos para as fotos:

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Breves Análises Pontuais Sobre Corpo Fechado e Meu Ódio Será Sua Herança

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema, Cinema em seu máximo, cinemaemcena | 2 comentários

Esta semana, revi os dois filmes citados no título deste post e publiquei algumas observações no Twitter à medida que ia avançando na projeção. Para que não se percam, reproduzo-as aqui. Claro que as frases estão entrecortadas, pois foram escritas para o espaço diminuto daquela rede. Ainda assim, creio que podem despertar alguma reflexão sobre linguagem.

As duas cenas iniciais de Corpo Fechado demonstram por que Shyamalan era tão, mas tão bom: constroem tensão gradualmente, sem pressa. Na primeira, o uso do reflexo já introduz uma questão temática, além de ser eficiente do ponto de vista prático ao incluir muitos personagens. E introduz também o roxo como cor-chave de Elijah. Já a segunda, um longo take no trem, apresenta o protagonista como sujeito falho; tira a aliança pra flertar e tal. Aliás, os movimentos da câmera oscilando de um pra outro entre o encosto das poltronas são fantásticos. Criam uma atmosfera claustrofóbica, opressiva. E o design de som, que por duas vezes inclui ruído alto pra antecipar o desastre, é perfeito.

Na capa da HQ que desperta o interesse do Sr. Vidro por quadrinhos, o herói usa verde e amarelo. Mesmas cores-chave de Willis no filme. Uau. E aí, nesta cena, o carpete inclui as cores simbolicamente importantes dos dois personagens principais do filme.

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No curso, falo sobre a importância visual dos lados direito e esquerdo do quadro: o primeiro tende a ser mais forte que o segundo. Nesta cena, à medida que Willis confessa já ter ficado doente, expondo fragilidade, é deslocado da direita pra esquerda.

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Verde/amarelo; verde/amarelo. Roupas, pintura ao fundo, bebidas:

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Os toques amarelos do galpão. Adoro esses detalhes. Ah, Shyamalan, por que caiu tanto? :(((

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Todos os “vilões” na estação usam cores quentes (vermelho, amarelo, laranja).

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 Os letreiros finais, explicando o que houve com os personagens, são um erro grosseiro para um filme tão bom como Corpo Fechado. Mas taí um filme que eu gostaria de ver: Corpo Fechado 2.

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Revendo Meu Ódio Será Sua Herança. A cena da explosão da ponte é um exemplo preciso de por que os efeitos práticos são insuperáveis. Se rodado hoje em dia, o filme certamente “explodiria” a ponte em CGI (especialmente considerando a participação de humanos e cavalos). Mas há uma diferença, uma realidade no efeito prático, da explosão em locação, que o olho humano consegue identificar e dá peso à cena. Mas julguem vocês mesmos.

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Em cenas como esta, sempre me pergunto: será que sentiram que estavam filmando um momento que se tornaria clássico?

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Boa sorte ao tentar calcular quantas pessoas morrem ao longo de Meu Ódio Será Sua Herança. Meu chute? 732.

Algo que me fascina em Meu Ódio Será Sua Herança: como Sam Peckinpah frequentemente retrata crianças admirando ou praticando crueldades. É uma rima temática que Peckinpah inicia nos primeiros segundos do filme, quando vemos um grupo de crianças torturando um escorpião, segue quando vemos um garotinho (filho de Peckinpah) deslumbrado com a imagem de um homem sendo arrastado por um cavalo, continua com o garotinho que admira o tiroteio entre os homens de Pancho Villa e os de Mapache, passa à criança que “galopa” Angel e, claro, encerra  com o tiro desferido por um pequeno soldado.

A ideia por trás disso é clara e aborda a continuidade da violência de uma geração a outra, refletindo a eterna transmissão da brutalidade pela humanidade.

E que Peckinpah desenvolva um tema tão existencialmente complexo enquanto coreografa uma chacina é algo notável. Que diretor. Que filme.

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É isso. Ontem discuti Corpo Fechado na madrugada. Hoje, Meu Ódio Será Sua Herança. Amanhã será a vez de Alvin e os Esquilos, provavelmente.

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(Que tal me seguirem no twitter?)

A Importância e a Perversão do Jornalismo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 1 comente

Quem me acompanha há algum tempo, sabe que uma de minhas grandes preocupações (ok, quase uma obsessão) é a forma como o jornalismo brasileiro se mostra corrompido em sua essência. Sempre discuto como boa parte das pessoas parece não se lembrar de que os veículos de mídia pertencem a corporações e que, portanto, respondem aos interesses destas – o que explica por que qualquer político ligado aos interesses do mercado conseguirá passe livre para dizer e fazer o que quiser, ao passo que aqueles que representem algum tipo de ameaça ao grande capital serão invariavelmente massacrados. Isto não é exclusivo do Brasil, contudo – e o próprio Cinema já retratou esse tipo de lógica perversa em filmes que vão de Cidadão Kane a A Grande Ilusão, passando por O Monstro na Primeira Página. Aliás, o documentário Manufacturing Consent, que acompanha o fantástico Noam Chomsky, aborda estas questões de maneira abrangente – e por isto o incluirei ao fim deste post.

No entanto, há algum tempo li um artigo no “Los Angeles Review of Books” que, girando em torno dos trabalhos de Renata Adler, traz alguns pontos bastante objetivos e que, creio, podem servir como ilustração para algumas de minhas principais preocupações – mesmo que, no processo, Adler critique pesadamente os estágios finais da carreira de Pauline Kael, por quem tenho imensa admiração, mas que, de fato, exibiu um claro declínio em seus anos finais. (Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.) Para facilitar, traduzo, abaixo, algumas das passagens que julgo mais importantes e que abordam não só a má prática jornalística, mas algumas de suas causas:

“O jornalismo cumpre dois papéis importantes: nos mantém informados sobre política, economia e mudanças culturais que podem ressoar através da sociedade e também oferece um ponto de partida para discussões sobre estes temas. É por isso que o bom jornalismo é tão essencial. Mas o jornalismo existe apenas como o esforço acumulado de cada jornalista. Isto significa que a prática cotidiana do jornalismo – a forma com que cada um desenvolve seu trabalho e as circunstâncias sob as quais isto é feito – importa muito por si só.

(…)

Embora eu não esteja certo de que concordo muito que a imprensa esteja em “declínio”, embora esteja sempre sendo prejudicada por forças que podem estimular más práticas, eu certamente acredito que o mau jornalismo acaba servindo aos poderosos; se os jornalistas não contestam apropriadamente as elites econômicas, políticas e culturais, os interesses destas definirão completamente os debates e as conversas de nossa sociedade. (…) “As mesmas forças que são boas para o jornalismo e para os donos das empresas de comunicação são as forças maléficas para o jornalismo em si”; as chances de um jornalista conseguir levar uma boa vida de classe média provavelmente nunca foram tão pequenas. (…) E a pressão para desenvolver uma carreira é uma ameaça concreta que dificulta que o jornalista cumpra bem seu papel na sociedade.

(…) Pecados jornalísticos surgem em várias formas. Os mais óbvios são os fabulistas, que inventam histórias, fontes e eventos. Há os preguiçosos e ingênuos, que são facilmente manipulados por suas fontes. Há os cínicos que deixam propositalmente que suas fontes poderosas os manipulem em troca do tipo de acesso que pode levar a “grandes” carreiras. Adler é particularmente dura ao falar de repórteres que dependem de fontes oficiais “anônimas”, que deixam figuras poderosas do governo e do mercado ditarem pautas das redações apenas porque controlam os caminhos oficiais da informação.

(..) A história oficial é a mais fácil e rápida de se escrever, pois já foi mastigada (pela fonte). Esta é uma maneira através da qual fontes poderosas influenciam a cobertura jornalística: oferecendo uma história fácil para repórteres ambiciosos que querem publicam algo rapidamente.

(…) Atualmente, quase todo o jornalismo é digital; mesmo artigos publicados na mídia impressa existem online. Como os jornais tradicionalmente ofereciam um número maior de posições estáveis para jornalistas e também apoio institucional, isto deixou a indústria mais frágil de modo geral. A pressão sob a qual jornalistas sempre trabalharam – a necessidade de publicar muitos artigos e avançar na carreira – só se tornou pior. (…) Muitos jornalistas ainda recebem ofertas para trabalharem de graça, em troca de “exposição”, um conceito amorfo que apenas reforça a noção de que eles precisam produzir muitos textos rapidamente a fim de construir uma reputação que levará a algum trabalho remunerado. Isto leva a hábitos profissionais que levam os jornalistas a práticas preguiçosas: ênfase na velocidade, falta de compromisso com um artigo em particular (amanhã outro será publicado ou mesmo dali a uma hora) e a uma postura geral de que o jornalismo serve pra produzir conteúdo, não para envolver os leitores.”

Para concluir, o artigo (escrito por Guy Patrick Cunningham) discute uma tendência particular do jornalismo digital contemporâneo: artigos que se limitam a reagir a outros artigos que geraram alguma polêmica:

“Há algumas razões para que este tipo de artigo analítico “agregado” seja problemático. Em primeiro lugar, é simplesmente irresponsável apresentar alguma conclusão ou construir um argumento sem ter feito a pesquisa apropriada: um jornalista precisa reestabelecer sua autoridade em cada artigo que escreve, pois cada um deles pede que o leitor lhe empreste seu tempo e sua atenção. Mais importante, porém, é que isto limita a habilidade do jornalista de realmente explicar um problema. Um jornalista que não conhece o assunto que discute acaba escrevendo um monólogo: eles só têm informação suficiente para apresentar seu próprio juízo sobre a questão, mas não consegue construir o tipo de argumento que poderia convencer o leitor de que sua opinião é a correta.

A questão não é se o leitor deveria ou não discordar da conclusão; a questão é que o leitor não pode. As únicas opções são aceitar a conclusão do artigo ou descartá-la. (…) Esta é a sombra do jornalismo digital comercial: uma controvérsia surge nas redes sociais e as prioridades econômicas dos editores digitais leva-os a pautar trabalhos que capitalizem a onda – textos rápidos que são praticamente criados para fracassar de um ponto de vista do jornalismo tradicional. (…) Os veículos digitais frequentemente promovem um tipo de análise que beneficia as plataformas em vez dos leitores. O problema é uma conversa democrática, o tipo que o jornalismo precisa estimular, acontece entre pessoas, enquanto os veículos digitais querem principalmente apresentar uma conversa para as pessoas – um simulacro que pode ser usado como veículo para anúncios e como meio para coletar dados sobre os interesses dos leitores (para garantir que os anúncios estão bem direcionados).

(…) Isto abre espaço para um texto “analítico” que promete um argumento, mas que não precisa entregá-lo necessariamente. Isto reforça a noção perniciosa de que não há distinção entre jornalismo e mero conteúdo, o que leva a aumentar a aceitação por outro tipo de trabalho “preguiçoso” – incluindo o tipo que se limita a repetir histórias oficiais de fontes oficiais. Quando os jornalistas falham em estimular o pensamento crítico dos leitores com relação ao que leem, diminuem a habilidade dos leitores de se envolver em conversas democráticas de modo geral.

(…) Os jornalistas precisam pensar como escritores – no sentido de que devem ter ambição com relação à qualidade de seu trabalho: se pode ser melhor, tem que ser melhor. Todas as vezes. Isto não é mera questão de boa prática profissional; numa sociedade democrática, jornalistas carregam grande responsabilidade. (…) O bom jornalismo faz com que a sociedade seja mais democrática ao manter as pessoas informadas o bastante para que possam participar do espectro completo da atividade democrática. Mas isto só acontece quando os próprios jornalistas fazem questão de não se acomodar – quando combatem as pressões da carreira, a miopia de editores e as necessidades comerciais do próprio jornalismo. Conteúdo não é conversa. E, no fim das contas, é de que conversa que uma sociedade democrática precisa. É importante não se contentar com nada menos do que isso.”

Amém.

A História do Futuro

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Vídeos | Comente  

Como o Cinema enxergou o Futuro ao longo dos anos.

Pay the Writer

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas, Variados | 34 comentários

Recebi, de um(a) editor(a) do UOL (cujo nome não revelarei para evitar exposições desnecessárias), o seguinte email:

“Boa tarde,

meu nome é XXX e sou jornalista da editoria de Opinião do UOL.

Gostaria de convidar o Pablo Villaça para escrever um artigo opinativo para a gente sobre o cinema no Brasil neste ano. A ideia é fazer um balanço para publicarmos no nosso especial de fim de ano. Ele pode ficar à vontade para escrever sobre o que o julgar relevante dentro desse tema. O endereço da nossa página é http://noticias.uol.com.br/opiniao/

É um espaço qualificado, voltado para o debate de alto nível sobre assuntos importantes.

Na URL acima indicada, há uma seção chamada “Recomendados” (está na coluna da direita), com uma pequena amostra de nomes que já escreveram para o UOL.

Recomendamos um tamanho de 3500 a 4000 toques para os artigos. Não há limite de espaço, mas textos muito longos desestimulam a leitura.

Quanto ao prazo, preciso do artigo, por favor, até 14/12.

Seguem abaixo meus dados para contato, estou à disposição para eventuais dúvidas e espero que ele se anime com o convite.

Atenciosamente,
XXX”

Minha resposta (preferi ignorar o “textos muito longos desestimulam a leitura”, que revela bastante sobre como o UOL enxerga seu público):

“XXX,

você se esqueceu de informar o valor que o UOL paga pelo artigo. Poderia informar, por gentileza? :)”

Eu já sabia, claro, o que viria a seguir. E não estava errado.

“Olá Pablo,

Infelizmente, não pagamos pelos artigos.

Mas, seria apenas um texto de mais ou menos uma página do word. Fica inviável para você??

Abraços!”

(Suspiros.)

Finalizei a correspondência da seguinte forma:

“XXX,

 vou ser o mais polido possível, pois sei que a escrotice é do veículo, não sua.

É um imenso insulto pedir que alguém que vive da escrita envie um texto gratuitamente. Tenho 21 anos de profissão e dependo do meu trabalho para sustentar meus filhos. Você não trabalha de graça pro UOL, trabalha? Seu chefe trabalha? Os chefes deste? Por que eu deveria trabalhar de graça para o UOL?

O Cinema em Cena, meu site, não é uma corporação de mídia como o UOL. Na realidade, enfrentamos dificuldades constantes para continuar em operação. Mas olha só: pagamos TODOS os nossos colunistas. Todos. Mesmo aqueles que estão escrevendo suas primeiras colunas profissionais e têm apenas meses de carreira. Ora, se consideramos o que fazem bom o suficiente para publicar, sinto que devemos PAGAR pelo trabalho.

No seu email, você me mandou pauta, tamanho do texto e PRAZO. Já na primeira comunicação, sem sequer sondar se eu aceitaria escrever gratuitamente. Sinceramente… não acha isso um insulto?

É este tipo de atitude que está resultando em demissões em massa de veículos de comunicação como jornais, revistas e sites. Se os donos destas empresas podem arranjar quem escreva de graça, em troca de “visibilidade”, por que deveriam pagar profissionais e diminuir sua (imensa) margem de lucro? Talvez você não perceba ainda, mas está preparando o caminho para sua própria demissão futura.

Encerro linkando um vídeo do excepcional Harlan Ellison, cuja mensagem é simples, direta e resume o que estou dizendo aqui: PAY THE WRITER.

Cordialmente,
Pablo”

A compaixão como tática

postado em by Pablo Villaça em Política | 2 comentários

“Vocês agem como se a esquerda tivesse o monopólio da virtude!”, costumam protestar alguns direitistas quando aponto que a inclusão social e pautas humanitárias que reforçam os direitos de minorias devem ser prioridade em qualquer governo que queira se dizer de esquerda.

Ok, é um protesto válido. Será que a direita também não poderia defender estas bandeiras?

Aparentemente, não a neodireita brasileira. Afinal, quando o ENEM incluiu uma questão sobre a violência contra a mulher, representantes desta neodireita imediatamente protestaram contra o que chamaram de “pregação ideológica esquerdista”, basicamente afirmando, eles mesmos, que a defesa dos direitos da mulher é (repito: de acordo com eles mesmos!) uma pauta de esquerda.

E o que esta mesma neodireita teve a dizer depois dos ataques em Paris?

Bom… basta apontar que “xenofobia” é uma palavra fraca para descrever as manifestações de boa parte destes perfis. Houve um “escritor” que chegou a defender AS CRUZADAS, enquanto outros diziam que o que ocorreu na França era mais uma razão “para derrubar a vaca da Dilma”. O consenso aparente entre estes indivíduos é o de que abrigar refugiados é beneficiar terroristas e que – como alguns até disseram nos comentários de meu post anterior aqui no FB (https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/739301856175043) – “praticamente todos os muçulmanos são terroristas ou apoiam o terrorismo”.

Ai, ai.

É esta a “virtude” que insistem possuir?

Na realidade, não sei o que me choca mais: a ignorância política e histórica ou a pura falta de empatia e compaixão.

Há 1,6 BILHÃO de muçulmanos no planeta. Eles respondem por quase UM QUARTO da população mundial. Se a “maioria” fosse terrorista ou apoiasse o terrorismo, poderíamos dar adeus à Humanidade. (Aliás, quando um sujeito afirmou, nos comentários, que nenhum muçulmano condenava os ataques, publiquei vários links que provavam o contrário, incluido este: http://qz.com/550104/muslims-around-the-world-condemn-terrorism-after-the-paris-attacks/). Já outros neodireitistas encaminharam links “comprovando” que o mundo islâmico era dominado por criminosos – e bastou uma rápida olhada em uma destas páginas para constatar que também atacava cotas raciais, tratava o aquecimento global como “fraude” e afirmava que o feminismo e o “gayzismo” querem “destruir a família”.

De novo: é esta a “virtude” que dizem possuir?

Não à toa, figuras como Malafaias não demoraram a postar ódio nas redes, basicamente afirmando que os cristãos representavam o “bem” e os muçulmanos, o “mal”.

Bom, como já escrevi há algum tempo, o simples conceito de religião me incomoda profundamente – especialmente quando esta tenta interferir no Estado. (“Ateu, não anti-Deus”: http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=2663) Porém, posicionamentos como estes, recheados de estupidez histórica, me obrigam quase a uma defesa do Islã, o que considero irônico de um ponto de vista pessoal. Em primeiro lugar, porque estas pessoas parecem ignorar as muitas contribuições de islâmicos ao desenvolvimento da ciência, por exemplo (e para o próprio MÉTODO científico de pesquisa, observação e experimentação) – e pergunte a qualquer astrônomo ou matemático sobre o papel de cientistas muçulmanos em suas áreas para ter uma ideia de sua importância.

Mas, mais do que isso, vem o absurdo do argumento de que apenas o islamismo deu origem a atos abomináveis. É preciso lembrar de grupos cristãos como a Ku Klux Klan? O IRA? É preciso lembrar do extermínio de povos indígenas? Da Inquisição? Cruzadas? É preciso lembrar como, no Brasil, líderes evangélicos pregam a intolerância? Reforçam o machismo e a homofobia?

Ou, saltando para outras religiões, é preciso lembrar como Israel está praticando sua própria versão do Holocausto na Palestina? (E os neodireitistas ficaram particularmente possessos com esta pergunta, sendo que até mesmo SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO já fizeram a comparação: http://www.haaretz.com/israel-news/1.612072).

Aliás, nem os budistas escapam. Pesquisem o que monges budistas têm feito no Sri Lanka e em Myanmar e a ideia de que o budismo é apenas um poço de placidez irá se desfazer.

Em outras palavras: atos de crueldade indizível já foram perpetrados em nome de praticamente TODAS as denominações religiosas. Não é à toa que, como explico no texto que linkei mais acima, tenho tanta aversão ao conceito de religião organizada.

Para completar, há, como mencionei, a ignorância política: em fevereiro, o próprio ISIS, responsável pelos ataques em Paris, publicou um documento no qual afirmava que precisava acabar com a “zona cinzenta” composta por muçulmanos praticantes que condenavam o terrorismo. Para isso, a estratégia publicamente anunciada pelo próprio grupo era a de promover atos de terrorismo em países com refugiados islâmicos a fim de aumentar justamente o preconceito contra estes – que, atacados pelos ocidentais, finalmente teriam que se decidir entre abandonar a fé ou se unir aos fundamentalistas. (http://www.memrijttm.org/dabiq-vii-feature-article-there-is-no-longer-any-gray-zone-the-world-includes-only-two-camps-that-of-isis-and-that-of-its-enemies.html)

Em outras palavras: foi justamente para fugir destes malucos que os refugiados deixaram seus lares. Atacá-los, discriminá-los, odiá-los é fazer o jogo dos fundamentalistas.

Como bem lembrou meu amigo Matt Zoller Seitz, basta assistir a A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, para constatar como a opressão de fiéis pacíficos é uma maneira infalível de levá-los rumo ao extremismo.

Neste aspecto, demonstrar compaixão pelos refugiados não é só uma atitude humana, mas também a melhor estratégia a longo prazo.

E eu ficaria muito feliz se a esquerda não detivesse o “monopólio” sobre isso.
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